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Poder e Justiça

A lei manda o poluidor pagar tudo. Em Mato Grosso, a conta quase nunca chega

Enquanto os tribunais reforçam a responsabilidade integral por dano ambiental, os números oficiais apontam arrecadação de multas perto de 1% no estado, desmatamento em alta e leis que afrouxam a proteção.

Rogerio FlorentinoPor Rogerio Florentino horário de Cuiabá 7 min de leitura WhatsApp
responsabilidade ambiental em Mato Grosso

No papel, quem causa dano ambiental no Brasil paga pelo prejuízo inteiro, mesmo sem culpa. Em Mato Grosso, os dados oficiais contam outra história: o estado é o segundo do país em multas ambientais federais, mas recolhe pouco mais de 1% do que cobra, e foi o único da Amazônia Legal a desmatar mais no último ano. A distância entre a regra e a prática é o centro deste retrato.

O que a lei garante no papel

O regime brasileiro de responsabilidade por dano ambiental é dos mais rígidos. A reparação é objetiva, ou seja, independe de culpa: basta provar o dano e a ligação dele com a atividade. Vale a teoria do risco integral, que não aceita desculpas como caso fortuito, força maior ou erro de terceiro. A obrigação de reparar é solidária, alcança quem polui diretamente e quem se beneficia ou deixa de fiscalizar, e acompanha o imóvel mesmo depois de vendido.

Os tribunais superiores consolidaram esse desenho. Como resume o jurista Édis Milaré, a ideia é “impor ao agente degradador a internalização dos custos ambientais decorrentes de sua atividade, evitando a socialização dos prejuízos ambientais”. Na leitura do jurista Paulo de Bessa Antunes, o princípio do poluidor-pagador serve para “afastar o ônus do custo econômico das costas da coletividade e dirigi-lo diretamente ao utilizador dos recursos ambientais”. Essa é a moldura. O problema está na execução.

A conta quase nunca é paga

Desde o início dos registros, o Ibama aplicou cerca de R$ 81,4 bilhões em multas ambientais e recebeu R$ 2,9 bilhões, o equivalente a 3,5% do total. A média histórica de arrecadação gira em torno de 5% ao ano. Mesmo 2024, comemorado como recorde pelo órgão, ficou em 15,5% sobre o valor aplicado no período: R$ 729 milhões cobrados de R$ 4,7 bilhões em autos. Na maioria esmagadora dos casos, a multa não vira pagamento.

Parte do dinheiro simplesmente caduca. O próprio Ibama registra 76.979 autos de infração já prescritos, num valor de R$ 5,3 bilhões que não será mais cobrado. A lentidão dos julgamentos, a fila de recursos e a falta de servidores empurram os processos até o prazo de prescrição. Para o ambientalista Carlos Bocuhy, presidente do Proam, mecanismos como os núcleos de conciliação funcionam na prática como uma anistia antecipada ao infrator, porque suspendem o andamento do processo sancionador e abrem espaço para que a punição caduque.

Mato Grosso, o caso extremo

Mato Grosso é o segundo estado em multas ambientais federais, atrás apenas do Pará. Dados abertos do Ibama apontam cerca de R$ 15,8 bilhões aplicados no estado, mas só perto de R$ 169,6 milhões recolhidos, uma taxa de arrecadação de aproximadamente 1,1%. Colniza, no noroeste de MT, aparece entre os municípios que mais desmatam no país.

Na teoria, a responsabilidade objetiva resolve a pergunta sobre quem deve pagar. Em Mato Grosso, a resposta prática é que quase ninguém paga.

O ponto que a lei não resolve: a multa prescreve

Aqui entra uma distinção que costuma passar batida. O que é imprescritível é a reparação civil do dano, isto é, a obrigação de recuperar a área ou indenizar por ela. O Supremo Tribunal Federal fixou isso no Tema 999 e, em março de 2025, ampliou o entendimento no Tema 1.194, ao decidir que “é imprescritível a pretensão executória e inaplicável a prescrição intercorrente na execução da reparação do dano ambiental, ainda que posteriormente convertida em indenização por perdas e danos”.

A multa administrativa, porém, é outra história, e ela prescreve. Pela Lei 9.873/1999, o poder de punir do órgão ambiental caduca em cinco anos, e o processo parado por mais de três anos também prescreve. A reparação do dano não tem prazo, mas o instrumento mais usado no dia a dia da fiscalização, a multa, tem. É por essa porta que escapam os bilhões em autos não cobrados.

Três punições no papel, poucas na prática

A Constituição prevê que um mesmo dano gere resposta nas esferas civil, administrativa e penal, de forma independente. Na teoria, pagar a reparação não livra da multa nem de um processo criminal. Na prática, a materialização das três é rara. A via administrativa esbarra na arrecadação baixa e na prescrição. A penal historicamente termina em pouquíssima execução, com prazos curtos e cobranças que raramente saem do papel. Sobra a reparação civil, mais lenta e dependente de ação judicial.

Desmatamento na contramão

Enquanto o país reduziu a derrubada de floresta, Mato Grosso fez o caminho inverso. No ciclo de agosto de 2024 a julho de 2025, o desmatamento caiu 11,08% na Amazônia e 11,49% no Cerrado, segundo o sistema Prodes, do Inpe. MT foi o único estado da Amazônia Legal a registrar aumento: alta de 25,06%, com 1.572 km² derrubados, mais de um quarto de toda a devastação da região no período.

O Estado afrouxando as próprias regras

A tese de que o poder público também responde quando deixa de fiscalizar pressupõe um Estado que quer fiscalizar. Em Mato Grosso, parte do esforço recente foi na direção contrária. A Assembleia Legislativa aprovou, no fim de 2024, o PLC 18/2024, que permitia reclassificar áreas de bioma amazônico como Cerrado e, com isso, baixar a reserva legal exigida de 80% para 35%. O Observatório Socioambiental de Mato Grosso e o Instituto Centro de Vida estimaram que a mudança poderia liberar o desmatamento de até 5,5 milhões de hectares, área próxima à da Croácia. O governo estadual vetou o texto em janeiro de 2025, mas anunciou que apresentaria novo projeto sobre o tema.

Outras medidas seguiram na mesma direção. A Lei Complementar 830, publicada em dezembro de 2025, alterou o Código Estadual do Meio Ambiente e passou a admitir a supressão de reserva legal por simples declaração para pequenas propriedades, além de facilitar o desembargo de áreas antes bloqueadas.

A bancada e a “boiada” federal

No plano federal, a maior mudança recente veio do PL 2159, apelidado de “PL da Devastação”, que virou a Lei 15.190/2025, a nova Lei Geral do Licenciamento Ambiental. O texto cria licença por autodeclaração para empreendimentos de baixo e médio impacto e renovação automática de licenças. Aprovado na Câmara por 267 votos a 116, em julho de 2025, teve apoio quase unânime de Mato Grosso: dos oito deputados federais do estado, sete votaram a favor: Coronel Assis, Coronel Fernanda, Gisela Simona, José Medeiros, Juarez Costa, Nelson Barbudo e Rodrigo da Zaeli. Emanuelzinho não participou da votação.

A disputa continuou depois da sanção. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vetou 63 trechos da lei, mas o Congresso derrubou 52 desses vetos em 27 de novembro de 2025, restaurando boa parte do texto original.

A nova lei do licenciamento é alvo de contestação na Justiça, e o governo de Mato Grosso prometeu reapresentar sua proposta de reclassificação de biomas. Os números consolidados do Prodes e os dados de arrecadação de 2025 devem sair ao longo de 2026, e vão mostrar se a distância entre o que a lei manda e o que acontece no estado aumentou ou diminuiu.

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