No teste com o habitat do panda, na China, o modelo mostra reservas perdendo função com a mudança climática, um alerta que também cabe ao Pantanal e ao Cerrado
Pesquisadores da Michigan State University (MSU), nos Estados Unidos, apresentaram uma ferramenta que estima por quanto tempo as reservas, os parques e os projetos de conservação vão continuar funcionando diante da mudança climática. O trabalho, divulgado nesta sexta-feira (19) no periódico científico Ecological Indicators, levanta um problema pouco discutido: parte do esforço e do dinheiro aplicados hoje para salvar espécies pode estar indo para lugares que, em algumas décadas, deixarão de cumprir esse papel. Batizado de LECS, o modelo foi testado no caso do panda-gigante, na China, mas seus autores afirmam que a lição vale para qualquer país.
O raciocínio por trás da ferramenta é simples de enunciar e difícil de engolir. A maioria dos parques, reservas e projetos de reintrodução de animais foi criada num tempo em que se supunha que o clima de cada região ficaria mais ou menos parado. Esse pressuposto deixou de valer.
Quando o lugar protegido deixa de oferecer as condições de que a espécie precisa, a proteção perde efeito. Pior: pode atrapalhar. Os cientistas chamam isso de “maladaptação”, uma ação pensada para ajudar que, montada sobre um clima que não vai mais existir, acaba aumentando o risco para a espécie em vez de reduzi-lo.
Há ainda o lado do bolso. Verba de conservação é escassa. Cada real gasto numa área que vai perder a função é um real que deixa de ir para outra que se manteria útil. Manter no lugar estratégias que já não vão funcionar tem custo duplo: não protege a espécie e ainda consome recursos que fariam diferença adiante.
O fim da ideia de um clima parado
Durante décadas, decidir onde criar um parque ou soltar uma espécie partia de uma conta feita com o clima do passado. O problema é que, com o aquecimento, os habitats não ficam onde estão. As condições ideais para cada planta ou animal se deslocam no mapa, sobem de altitude, mudam de latitude. Uma reserva desenhada para o clima de hoje pode amanhecer, daqui a 40 anos, no lugar errado.
“Muitas estratégias de conservação foram desenvolvidas sob a premissa de um clima relativamente estável”, afirmou Julie A. Winkler, professora emérita da MSU e uma das autoras principais do estudo. “À medida que a mudança climática acelera, precisamos de ferramentas que nos ajudem a avaliar se essas estratégias continuarão a apoiar espécies e ecossistemas nas próximas décadas.”
A ferramenta organiza essa avaliação em quatro passos. Primeiro, escolhe-se a estratégia de conservação que será examinada. Depois, projeta-se onde estarão, no futuro, os chamados refúgios climáticos, os locais que devem seguir adequados para a espécie apesar do aquecimento. Em seguida, as decisões de manejo são tomadas levando em conta essas projeções e as incertezas que elas carregam. Por fim, o monitoramento é contínuo: as avaliações são refeitas conforme novas informações aparecem.
O conceito de refúgio climático é o coração do modelo. Há dois tipos: o lugar que já é bom para a espécie e tende a continuar assim, e o que hoje não serve mas pode se tornar adequado no futuro. A ferramenta usa a previsão de onde esses refúgios estarão como uma espécie de termômetro. Se o lugar onde a estratégia foi montada deixar de ser refúgio, ela dificilmente vai funcionar a longo prazo.
O panda como cobaia
Para mostrar a ferramenta na prática, os pesquisadores a aplicaram a duas iniciativas chinesas: a soltura de pandas-gigantes criados em cativeiro de volta à natureza e o Parque Nacional do Panda-Gigante, criado para unir áreas de proteção espalhadas.
O panda é um bom caso justamente porque é refém do cardápio. Ele se alimenta quase só de bambu. Se o bambu some, o panda some atrás. Os cientistas reuniram 40.074 registros de onde o bambu de fato cresce, de 43 espécies diferentes, e os agruparam em nove conjuntos conforme o calendário de brotação, porque o animal precisa de bambu disponível o ano inteiro, não de uma única espécie.
Com isso, projetaram o clima do período entre 2061 e 2080, daqui a cerca de quatro a seis décadas, numa hipótese pessimista, em que o mundo segue queimando muito combustível fóssil e as emissões continuam altas. A pergunta era direta: as áreas pensadas para o panda ainda terão bambu suficiente?
A resposta foi desigual. Soltar pandas só se mostrou uma aposta segura a longo prazo dentro da área onde eles já vivem e em trechos da antiga área de ocorrência, ao longo do Planalto Tibetano. Nessas regiões, a perda de bambu projetada fica abaixo de 20%, menos de um quinto da área boa hoje. Fora dali, o estrago cresce: de 40% a 50% em algumas montanhas e mais de 80%, ou seja, mais de quatro quintos, nas porções leste da antiga área do panda.

No Parque Nacional, a divisão se repete. A parte norte, nas montanhas Qinling, onde vive hoje mais de 18% de todos os pandas, quase um a cada cinco animais, é a mais ameaçada. Já o centro-sul do parque deve manter o fornecimento de bambu, embora boa parte desses refúgios fique fora das reservas atuais, em regiões com menos animais.
Quanto o mundo conseguir frear as emissões também pesa. Um estudo sobre uma espécie de bambu nas montanhas Qinling mostrou que, até a década de 2070, a área da planta cairia 68% num cenário de emissões moderadas e 84% num cenário de emissões altas. A diferença de 16 pontos mostra que parte do prejuízo ainda depende das escolhas feitas agora.

Há um porém que o próprio modelo registra. A conta otimista, a de que áreas mais altas virariam novos refúgios, assume que o bambu consegue se espalhar para esses lugares. Como o bambu se dispersa devagar, parte desses refúgios futuros pode nunca virar comida de panda de verdade.
A conta que pode chegar ao Pantanal e ao Cerrado
O caso do panda é apenas o exemplo escolhido para o teste. O alcance do problema é maior. “Os pandas-gigantes fornecem um estudo de caso ideal porque sua sobrevivência depende intimamente da disponibilidade de bambu”, afirmou Andrés Viña, pesquisador da MSU e coautor do estudo. “Mas a lição mais ampla vai muito além dos pandas. As estratégias de conservação em todos os lugares precisam ser avaliadas sob a ótica das condições climáticas futuras.”
O estudo não olhou para o Brasil. Mas a lógica que ele propõe cabe a qualquer território de proteção pensado para um clima que está mudando, e Mato Grosso reúne os ingredientes do problema. O estado tem 47 unidades de conservação estaduais, conforme a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (SEMA-MT), além de dezenas de áreas municipais, e abriga três biomas ao mesmo tempo: Amazônia, Cerrado e Pantanal.
Os três tendem a ficar mais quentes e mais secos. Pelas projeções do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC), até o fim do século o Pantanal deve esquentar de 3,5°C a 4,5°C, com queda de 35% a 45% nas chuvas. No Cerrado, o aquecimento projetado vai de 5°C a 5,5°C, com a mesma faixa de perda de chuva. Na Amazônia, a temperatura pode subir de 5°C a 6°C, com risco de partes da floresta virarem algo parecido com savana.

Mato Grosso já teve uma amostra recente desse tipo de pressão. Em 2024, o fogo no Pantanal atingiu o pior patamar em anos: cerca de 2,5 milhões de hectares queimados até outubro, a segunda maior área da série do Inpe, que começa em 2012, num ano de seca severa.
Enquanto isso, o país ainda está montando as ferramentas que o estudo defende. Segundo o ICMBio, responsável pelas unidades federais, o órgão começou a construir um guia para incluir a adaptação climática no manejo das áreas protegidas e a montar um monitoramento da biodiversidade em dezenas de unidades, um trabalho ainda em fase inicial.
O que vem a seguir
Os próprios autores tratam o modelo como um ponto de partida. Ele ainda precisa ser testado em outras espécies e contextos antes de virar rotina. O trabalho foi financiado pela National Science Foundation dos Estados Unidos, pela MSU e pela ONG Pandas International, e está disponível em acesso aberto, o que permite que gestores de qualquer país o consultem.
O alvo final, resume o diretor do Centro de Integração de Sistemas e Sustentabilidade da MSU, Jianguo Liu, é mudar a própria pergunta que orienta as decisões. “A questão não é mais simplesmente se uma estratégia de conservação funciona hoje”, afirmou. “É essencial saber se ela continuará funcionando sob as condições ambientais do futuro.”
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