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OMM projeta Amazônia mais quente e seca e temperatura global perto do recorde até 2030

A OMM projeta temperatura global perto do recorde entre 2026 e 2030, com 86% de chance de novo recorde anual e Amazônia mais quente e seca que o previsto. No Brasil, o Cemaden aponta El Niño em formação para 2026/2027 e risco de seca e calor sobre a safra de Mato Grosso, maior produtor de grãos do país.
projeção de temperatura OMM

Atualização decenal da agência da ONU indica 86% de chance de novo recorde anual no quinquênio; alerta técnico federal aponta El Niño em formação e pressão sobre a safra de Mato Grosso

A temperatura média global deve permanecer perto dos níveis recordes entre 2026 e 2030, com 86% de chance de que ao menos um ano do período supere a marca de 2024, segundo a atualização climática decenal da Organização Meteorológica Mundial (OMM). A projeção indica anomalias de calor e redução de chuvas mais intensas sobre a Amazônia do que os modelos climáticos previam, cenário que recai sobre Mato Grosso, maior produtor de grãos do país. No Brasil, um alerta técnico federal associa o quadro à formação de um novo El Niño em 2026/2027.

Cinco anos perto do limite de 1,5°C

Para cada ano entre 2026 e 2030, a temperatura média da superfície global deve ficar entre 1,3°C e 1,9°C acima da média de 1850-1900, o intervalo pré-industrial usado como referência. Há 91% de probabilidade de que pelo menos um ano do quinquênio ultrapasse 1,5°C acima desse patamar e 75% de chance de que a média dos cinco anos também supere o nível. A probabilidade de que algum ano passe de 2°C é considerada excepcionalmente baixa, abaixo de 1%.

O recorde atual é de 2024, quando a anomalia chegou a 1,55°C. Em 2025, o valor estimado foi de 1,43°C, com margem de 0,13°C, um dos três anos mais quentes já medidos. A chance de um novo recorde anual até 2030 é de 86%. O limite de 1,5°C do Acordo de Paris refere-se a uma média de longo prazo, em geral de 20 anos, e ultrapassagens temporárias tendem a se tornar mais frequentes à medida que o aquecimento de fundo se aproxima desse valor.

Amazônia mais seca nas projeções de dez anos

A projeção para o período de 2026 a 2035 aponta anomalias de calor mais acentuadas sobre a Amazônia, o Norte da África, o norte da Escandinávia e o Mar da Groenlândia do que as estimadas pelos modelos de projeção climática. Para a mesma janela, a previsão é de menos chuva sobre a Amazônia. Entre maio e setembro de 2026 a 2030, o padrão aponta anomalias secas sobre a região amazônica.

Para 2026, partes do Brasil devem ficar mais secas que o usual, ainda que a confiança nessa previsão específica seja baixa. As anomalias mais quentes sobre a Amazônia coincidem, nas projeções, com regiões onde a habilidade de previsão é alta, o que reforça a atenção sobre o bioma.

Seca recorde e ondas de calor nos anos recentes

Um alerta técnico do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), assinado em maio por José Antonio Marengo e equipe, monitora a formação de um novo El Niño para 2026/2027 e registra que 2024 trouxe a maior seca dos últimos 70 anos no país, em extensão e intensidade. Em setembro daquele ano, 4.748 municípios, mais de 80% do total, enfrentavam algum grau de seca, dos quais 1.349 em níveis severo e extremo. Diferentemente de eventos anteriores de El Niño, a seca de 2023/2024 se deslocou para o Centro-Oeste, o Sudeste e a Amazônia.

As ondas de calor também se intensificaram. Os anos de 2023, 2024 e 2025 foram os mais quentes já medidos no planeta e registraram o maior número de ondas de calor no Brasil desde 1980: foram dez em 2024, oito em 2023 e sete em 2025.

O Mato Grosso do Sul é o estado com mais ocorrências, com média de 14,3 ondas de calor por ano, seguido por Santa Catarina, com 13, e por Rio Grande do Sul e São Paulo, ambos com 12,8. A combinação de calor e seca em 2023 e 2024 ampliou o número de incêndios na Amazônia e no Pantanal e levou à morte de mais de 200 botos-cor-de-rosa por estresse térmico.

A maior lavoura do país sob pressão

Mato Grosso concentra a maior área de grãos do Brasil, com 19,2 milhões de hectares. Somado a Goiás, Rondônia e Tocantins, o Brasil Central responde por 39% da área e 46% da produção nacional de grãos. A economia regional depende fortemente da estação chuvosa, o que torna a variabilidade da precipitação um fator direto de renda e de segurança alimentar.

Um estudo da Embrapa Arroz e Feijão, conduzido por Alexandre Bryan Heinemann e colaboradores, analisou 33 anos de dados de chuva, entre 1980 e 2013, e concluiu que o El Niño-Oscilação Sul não afeta a produtividade da primeira safra, semeada no fim de outubro e início de novembro, mas influencia a segunda safra, a chamada safrinha, semeada após fevereiro. Em anos de La Niña, a janela de semeadura encurtou 23% em Goiás, 22% em Tocantins e 13% em Rondônia, com atraso na data ideal de plantio. Em Mato Grosso, onde tanto o El Niño quanto a La Niña afetam o calendário, o estudo registrou redução de 18% no comprimento dessa janela.

Como a sucessão soja-milho é comum na região, o baixo teor de água no solo nesses anos pode reduzir o rendimento da safrinha. Para o Cemaden, caso o cenário atual se confirme, os efeitos no Brasil podem se assemelhar aos de 2023/2024, com redução de chuvas e altas temperaturas no Norte e no Nordeste e comprometimento de parte da estação chuvosa no Sudeste e no Centro-Oeste, com pressão sobre reservatórios e risco hidrológico.

Próximos passos

O alerta federal recomenda reforço do monitoramento hidrometeorológico e o uso de previsões probabilísticas para acompanhar a evolução do risco de seca e de chuvas intensas. O quadro do El Niño deve ficar mais claro nos próximos meses, após a chamada barreira de previsibilidade da primavera, período em que a confiabilidade das projeções do fenômeno costuma aumentar.

Fontes: OMM (Global Annual to Decadal Climate Update 2026-2035); Cemaden/MCTI (Nota Técnica nº 627/2026); Embrapa Arroz e Feijão (Boletim 70, Heinemann et al., 2026).

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