Ritmo equivale a um campo de futebol a cada cinco minutos e meio, apesar da queda de 43% em relação ao ano anterior
O desmatamento em Mato Grosso atingiu velocidade média de 253,57 hectares por dia em 2024, ou 10,57 hectares por hora — o equivalente a um campo de futebol oficial a cada cinco minutos e meio. O dado consta do Relatório Anual do Desmatamento (RAD) 2024 do MapBiomas Alerta, divulgado em maio de 2025. O estado registrou 92.553,6 hectares de vegetação nativa perdidos no ano e segue como o sexto maior desmatador do país, mesmo com queda de 43,1% em relação a 2023.
Desmatamento em Mato Grosso responde por 7,5% do total nacional
“Em 2024, a área média desmatada por dia no Brasil foi de 3.403 hectares – ou 141,8 hectares por hora”, registra o relatório. O cálculo veio dos 60.983 alertas validados pela rede MapBiomas Alerta ao longo do ano. Mato Grosso responde por 7,5% desse total, atrás de Maranhão, Pará, Tocantins, Piauí e Bahia, sucessivamente os cinco maiores desmatadores do país no recorte do relatório.
A velocidade do desmatamento varia com o calendário das motosserras. O 21 de junho foi o dia em que mais se desmatou no Brasil em 2024, com uma área equivalente a 3.542 campos de futebol em 24 horas. No acumulado dos 366 dias do ano, o ritmo médio nacional caiu 32,4% em relação a 2023, frenagem mais branda que a mato-grossense, de 43%.
Mato Grosso entra nessa estatística com peso desproporcional ao tamanho da sua vegetação remanescente. O estado tem 54,5 milhões de hectares de cobertura nativa, o segundo maior estoque do país, atrás apenas do Amazonas. A queda de 43% em 2024 é a maior do estado em pelo menos seis anos. Em 2023, a velocidade média estadual havia sido de 446 hectares por dia. O número de 254 hectares por dia em 2024 representa um corte pela metade na produção diária de desmatamento mato-grossense.
No acumulado de seis anos, entre 2019 e 2024, o estado perdeu 1.107.368,5 hectares de vegetação nativa, o terceiro maior volume do país no período, atrás de Pará e Maranhão. A média seis-anual em Mato Grosso ficou em 505,6 hectares por dia. O ano de 2024 é, portanto, o mais lento desde o início da série em termos de velocidade diária estadual.

Quase cinco eventos por dia em média e quatro municípios na contramão
Em 1.785 alertas validados pela equipe do MapBiomas, vieram os 92,5 mil hectares perdidos em 2024. Em média, foram 4,89 eventos novos de desmatamento por dia no estado, cada um avançando 0,64 hectare por dia. O alerta mais veloz registrado em Mato Grosso ao longo do ano cresceu a 24,76 hectares por dia, quase um hectare a cada hora dentro de um mesmo polígono.
O número de alertas caiu 49% em comparação com 2023, quando foram 3.503 polígonos validados. A redução simultânea no número de eventos e no tamanho médio de cada evento explica por que o estado teve queda mais acentuada que a média nacional. Cada motosserra individual derruba aproximadamente o mesmo que derrubava antes, mas há menos motosserras em ação no ano.
Quatro municípios mato-grossenses entraram no top 50 nacional. Colniza, no extremo noroeste do estado, lidera a lista estadual com 10.716,5 hectares em 2024, ou cerca de 29 hectares por dia somente nesse município. Paranatinga, no Cerrado de MT, perdeu 5.928,7 hectares no ano e cresceu 31,4% em relação a 2023. Nova Maringá, também no Cerrado, fechou em 5.393,8 hectares (+35,9%). Aripuanã, no norte, foi o único entre os quatro com queda no ano, com 5.138,8 hectares (-34%).
Os três municípios que aceleraram em 2024, mais Colniza, estão na lista federal de municípios prioritários da Amazônia, atualizada pela Portaria GM/MMA 1.202, de 11 de novembro de 2024. A inclusão dispara protocolos de fiscalização do Ibama, do ICMBio e da Secretaria Estadual de Meio Ambiente.
Onde o relógio anda mais rápido
Por bioma, a velocidade do desmatamento muda. Em 2024, 62,1% da área derrubada em Mato Grosso estava na Amazônia (57.493 hectares), 34,3% no Cerrado (31.775 hectares) e 3,6% no Pantanal (3.286 hectares). O estado é um dos quatro brasileiros que abrigam três biomas no mesmo território, ao lado de Bahia, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais.
Concentrada no norte do estado, a fração amazônica abriga municípios como Colniza, Aripuanã e Nova Maringá e responde pela maior parte da supressão florestal. “Já na Amazônia, foram perdidos 1.034,8 ha por dia, ou 43,1 ha por hora, o que equivale a cerca de 7 árvores por segundo”, aponta o relatório, em referência ao bioma como um todo. O Cerrado mato-grossense, presente em Paranatinga e em municípios do centro-leste, foi onde caíram 31.775 hectares em 2024, ou cerca de 87 hectares por dia. O Pantanal teve a maior queda proporcional do país no ano, com redução de 58,6% no bioma como um todo.

Por trás da média estadual de 10,57 hectares por hora, o território é heterogêneo. Em Colniza, a velocidade efetiva chegou a 29 hectares por dia, ou cerca de 1,2 hectare por hora. Em municípios menores e mais distantes da fronteira, o relógio andou mais devagar, com alertas de menos de 100 hectares espalhados ao longo do ano.
Dentro de Mato Grosso, a Terra Indígena Sararé, no oeste do estado, registrou 962 hectares perdidos em 2024 e ocupou a terceira posição no ranking nacional de TIs mais desmatadas, com 62 alertas validados. A Terra Indígena Aripuanã, no norte mato-grossense, aparece em oitavo no ranking nacional com 304 hectares e sete alertas. Nas duas áreas protegidas, a perda média por alerta passou de 15 hectares.
O que explica a frenagem
Acompanhando a tendência nacional, a queda de 43% em Mato Grosso ocorre num momento em que três pressões convergem sobre o estado. A primeira é a entrada em vigor do Regulamento Europeu Antidesmatamento (EUDR), com aplicação iniciada em 30 de dezembro de 2025, que veta a importação de commodities oriundas de áreas desmatadas após 31 de dezembro de 2020. O recorte da EUDR identifica 5,5 milhões de hectares no Brasil desmatados dentro desse marco temporal, em uma área que pode afetar cerca de 310 mil imóveis rurais cadastrados no CAR. Mato Grosso, principal exportador brasileiro de soja e carne, está dentro do recorte.
Quanto à fiscalização, 82,6% da área desmatada no estado entre 2019 e 2024 cruza com alguma autorização ou ação de órgãos estaduais ou federais, o quarto maior índice do país. Em 2024 isoladamente, foram 84,8%. O estado é um dos quatro a manter taxa acima de 70% por três anos seguidos, ao lado de Espírito Santo, Tocantins e Goiás. O sistema estadual de informação geoambiental, o SIGA-MT, alimenta bases públicas com autos de infração, embargos e desembargos. O RAD 2024 elenca seis bases distintas fornecidas por Mato Grosso na rodada de levantamento, número acima da média dos demais estados.
Sobre commodities e clima, o ano de 2024 foi marcado por seca extrema em parte do estado, com impacto na expansão de fronteira e no movimento de máquinas pesadas no campo. As três pressões somadas podem estar por trás da frenagem registrada no relatório: restrição do mercado europeu, mais intensidade de fiscalização ambiental e clima desfavorável à abertura de novas áreas.
O próximo Relatório Anual do Desmatamento, com dados de 2025, é esperado para maio de 2026 e dirá se a desaceleração observada em Mato Grosso se confirma ou se foi efeito de curto prazo. Os números diários do MapBiomas Alerta seguem disponíveis em alerta.mapbiomas.org, com atualização semanal e laudo individualizado por imóvel cadastrado no CAR.
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