PNUMA aposta em inteligência artificial para cortar desperdício alimentar pela metade e reduzir emissões de metano em 7% até 2030
Mais de 1 bilhão de toneladas de alimentos são jogadas fora a cada ano no planeta, gerando um prejuízo estimado em US$ 1 trilhão. Para enfrentar o problema, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) lançou na COP30, em Belém, a iniciativa Food Waste Breakthrough, que usa soluções de inteligência artificial para reduzir o desperdício pela metade até 2030.
Alimentos descartados em aterros sanitários geram até 14% do metano lançado na atmosfera — gás com potencial de aquecimento 80 vezes superior ao do dióxido de carbono. A capacidade da IA de identificar padrões em grandes volumes de dados e antecipar resultados abre caminho para intervenções mais rápidas em toda a cadeia alimentar, da produção ao consumo doméstico.
Duas plataformas que operam com algoritmos de inteligência artificial acumulam números expressivos. A Too Good to Go, disponível na Europa, América do Norte e Austrália, conecta consumidores a “sacolas surpresa” com desconto, formadas por alimentos não vendidos de estabelecimentos locais. Desde 2016, a empresa contabiliza 500 milhões de refeições salvas do descarte. A FoodCloud, que atua no Reino Unido e na Irlanda, redistribui excedentes do varejo para instituições de caridade por meio do aplicativo Foodiverse e soma 300 milhões de refeições redirecionadas.

Varejo usa IA para reduzir excedente nas prateleiras
Na Tailândia, a maior rede de supermercados do país adotou o sistema Smartway, que aciona descontos dinâmicos em alimentos próximos do vencimento e ajusta a precisão dos pedidos de reposição. No Brasil, a startup Aravita analisa padrões de demanda por produtos frescos com ferramentas de inteligência artificial, ajudando redes varejistas a calibrar compras e diminuir o excedente que termina no lixo.
Nos Estados Unidos, a empresa Mill fabrica um reciclador doméstico que seca e tritura restos de comida, transformando-os em composto. Residências e empresas que usam o equipamento já desviaram cerca de 4,5 milhões de quilos de resíduos alimentares dos aterros. O aplicativo acoplado ao dispositivo acompanha a evolução do desperdício semana a semana, e esse dado funciona como gatilho comportamental para novas reduções.
A compostagem doméstica ganha relevância em áreas urbanas, onde ocorrem 70% do consumo de alimentos. “Quando as pessoas percebem o quanto costumam desperdiçar, são incentivadas a tentar reduzir esse desperdício”, explica Clementine O’Connor, gerente do Programa de Sistemas Alimentares Sustentáveis do PNUMA.
Cozinhas comerciais cortam desperdício com câmeras e algoritmos
O setor de hotelaria descarta anualmente cerca de US$ 100 bilhões em alimentos. A empresa britânica Winnow instala consoles equipados com câmeras e inteligência artificial sobre lixeiras de cozinhas comerciais em mais de 3 mil estabelecimentos ao redor do mundo. O sistema registra imagens no momento do descarte, identifica o tipo de alimento, calcula peso e custo e gera relatórios individualizados para cada operação.
“O desperdício alimentar é realmente difícil de medir. Mas acreditamos que o que é medido, é gerenciado”, afirma David Jackson, diretor de marketing da Winnow. A empresa trabalha com redes como Hilton, Accor e Marriott.
Em 2023, uma parceria entre o PNUMA, a Hilton e a Winnow resultou no projeto Green Breakfast. Em quatro meses, os 13 hotéis participantes reduziram o desperdício pós-consumo em 62%.

O dilema ambiental da própria inteligência artificial
Enquanto promete cortar emissões no setor alimentar, a IA carrega sua própria pegada ecológica. Uma consulta a um modelo de linguagem consome 2,9 watt-hora de eletricidade — quase dez vezes mais do que uma busca convencional na internet, segundo a Issues Note publicada pelo PNUMA em setembro de 2024. A demanda global de água associada à IA pode chegar a 6,6 bilhões de metros cúbicos em 2027, volume que supera metade do consumo anual do Reino Unido.

Em dezembro de 2025, a 7ª sessão da Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEA-7) aprovou resolução que pede aos Estados-Membros a adoção de métricas padronizadas para medir o impacto ambiental da IA e o uso de data centers com fontes de energia renovável.
“O importante é não fazer as pessoas se sentirem culpadas pelo desperdício de alimentos, porque a ciência mostra que isso não muda o comportamento”, diz O’Connor. “A IA e outras soluções tecnológicas podem fazer com que as pessoas se sintam bem com as coisas que já fazem e motivadas pelos novos hábitos que podem adotar.”
O Dia Zero Resíduos 2026, celebrado em 30 de março, tem o desperdício alimentar como tema central. O diretor-executivo do PNUMA deverá apresentar à 8ª sessão da Assembleia Ambiental da ONU, prevista para 2027, relatório de progresso sobre a implementação das medidas aprovadas.
Fonte: Artigo “Colhendo os frutos do dividendo digital: as soluções de IA que ajudam a reduzir o desperdício alimentar pela metade”. Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), Nairóbi, 28 de março de 2026. Dados compilados a partir de informações das plataformas Too Good to Go, FoodCloud, Mill e Winnow, e de pesquisas do PNUMA sobre impacto ambiental da IA (Issues Note, setembro de 2024) e resolução UNEP/EA.7/L.14 da UNEA-7 (dezembro de 2025). Disponível em: https://www.unep.org/pt-br/noticias-historias-e-discursos/historia/colhendo-os-frutos-do-dividendo-digital-solucoes-de-ia-que. Licença: uso educacional e não comercial com crédito à fonte.
-A imagem que ilustra esta matéria foi criada utilizando IA.
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