Pesquisar
Close this search box.

Marina Silva deixa o governo com desmatamento em queda de 50% e passa bastão a Capobianco

Marina Silva saída Ministério Meio Ambiente

Após 39 meses, ministra entrega pasta reconstruída e orçamento 120% maior, mas acumula derrotas no Congresso; sucessor promete manter rota e enfrentar incêndios no Pantanal

A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, deixou o cargo em 1º de abril de 2026 após uma gestão de 39 meses que reduziu pela metade o desmatamento da Amazônia e mais do que dobrou o orçamento da pasta — mas que também expôs o isolamento da agenda ambiental dentro do próprio governo Lula. O biólogo João Paulo Capobianco, número dois do ministério desde 2023 e aliado de Marina há duas décadas, foi nomeado por decreto publicado em edição extra do Diário Oficial na mesma noite.

O balanço em números

Marina apresentou o balanço final em coletiva de despedida em Brasília. Os números são pesados: entre 2022 e 2025, o desmatamento caiu 50% na Amazônia e 32,3% no Cerrado, o que evitou a emissão de 733,9 milhões de toneladas de CO₂ equivalente. No ciclo mais recente de alertas, de agosto de 2025 a fevereiro de 2026, a tendência se manteve, com nova queda de 33% na Amazônia e 7% no Cerrado.

O orçamento anual do ministério saltou de R$ 865 milhões em 2022 para R$ 1,9 bilhão em 2025 — um aumento de 120% que permitiu a contratação de mais de 1.557 servidores para Ibama, ICMBio e Jardim Botânico do Rio de Janeiro. As ações de fiscalização do Ibama na Amazônia cresceram 80%, as do ICMBio, 24%. A área de mineração ilegal na região amazônica encolheu cerca de 50%, com 3,4 milhões de hectares em processo de recuperação de vegetação nativa.

No campo da conservação, o governo criou ou ampliou 16 unidades de conservação federais. O PPCDAm, desativado na gestão anterior, foi retomado e expandido para todos os biomas brasileiros. Segundo dados do próprio ministério, cerca de R$ 190 bilhões foram mobilizados em instrumentos econômicos voltados a bioeconomia, energias renováveis e cadeias de baixo carbono — o pacote que o governo batizou de “transformação ecológica”.

As derrotas que ficaram

Os números robustos de desmatamento não contam a história inteira. Marina acumulou derrotas no Congresso que fragilizaram a estrutura institucional que ela tentava reconstruir. Em 2023, uma medida provisória de reestruturação ministerial foi emendada por parlamentares para retirar do MMA o Cadastro Ambiental Rural e a Agência Nacional de Águas. Em 2025, o Senado aprovou um novo marco do licenciamento ambiental com apoio de parte da base governista, criando licenças especiais e simplificadas para obras de infraestrutura — exatamente o oposto do que a ministra defendia.

O desgaste não era só legislativo. Em audiências no Senado, senadores disseram respeitar “a mulher, mas não a ministra”. Em outra sessão, parlamentares declararam ter “vontade de enforcá-la”. Marina abandonou uma das audiências. Ministras e a primeira-dama se solidarizaram, mas o Planalto manteve presença discreta na defesa de sua titular.

A CPI das ONGs serviu de palco para ataques adicionais. Parlamentares ruralistas usaram repasses a organizações da sociedade civil como munição contra a gestão, enquanto a oposição acusava a ministra de alinhamento a ONGs estrangeiras. Na outra ponta, organizações socioambientais denunciavam um “pacote da destruição” em tramitação no Congresso, com projetos para esvaziar o ministério e restringir demarcações de terras indígenas.

Capobianco e a continuidade vigiada

Marina afirmou que a escolha de Capobianco garante “a continuidade das políticas adotadas no governo do presidente Lula nos últimos anos”. A frase é calculada: posiciona a saída como passagem de bastão, não como abandono.

Capobianco chega ao cargo com credenciais de campo: biólogo, passagens pela SOS Mata Atlântica e pelo Instituto Socioambiental, formulador do PPCDAm original e presidente da COP15 das Espécies Migratórias, conferência que resultou na inclusão de 40 novas espécies na lista internacional de proteção. Em entrevista, definiu como prioridades manter a queda do desmatamento, implementar o Plano Clima com horizonte até 2035 e enfrentar o risco de novos incêndios no Pantanal, agravado por um El Niño mais intenso. Defendeu ainda que a hidrovia do Rio Paraguai respeite o curso natural do rio, com dragagem de manutenção sem alteração do leito.

A reforma ministerial que levou à troca obedeceu a uma lógica mais ampla: o Planalto promoveu secretários-executivos a titulares em diferentes pastas para evitar paralisia administrativa em ano eleitoral, enquanto liberava ministros para a campanha. Marina sinalizou que pretende disputar vaga ao Senado por São Paulo e atuar na campanha pela reeleição de Lula.

O que vem pela frente

As próximas votações sobre licenciamento, marco temporal de terras indígenas e exploração de petróleo na foz do Amazonas funcionarão como teste real para a estratégia de “continuidade com acomodação política” que o governo tenta emplacar. Capobianco chega sem o desgaste simbólico de Marina junto à bancada ruralista, mas herda o mesmo Congresso. Se a correlação de forças não mudou, o rótulo de continuidade terá prazo de validade curto.

Leia também:

Novas regras sobre crédito rural passam valer a partir de hoje

Ultraprocessados causam 57 mil mortes por ano no Brasil e contêm agrotóxicos, revela dossiê do Idec

TJ-MT pagou R$ 155,7 milhões acima do teto em 2025; média salarial de magistrados chegou a R$ 68,9 mil

Em MT uma mulher é assassinada a cada 7 dias: feminicídios disparam 11% e deserto de proteção mantém MT no topo letal pelo 5º ano

EXCLUSIVO: ex-assessor acusa deputado Dr. João de confiscar salários e manter funcionários fantasmas;VÍDEO

[the_ad_group id="301"]

PROPAGANDA

MAIS NOTÍCIAS

CATEGORIAS

.

SIGA-NOS

PROPAGANDA

PROPAGANDA

PROPAGANDA

PROPAGANDA