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Petróleo na Foz do Amazonas já provoca migração e ocupação desordenada em Oiapoque

petróleo Foz do Amazonas Oiapoque

Cidade de 30 mil habitantes no extremo norte do Amapá ganhou sete bairros informais em 18 meses, enquanto Petrobras perfura poço exploratório e MPF pede suspensão da licença

Oiapoque, no extremo norte do Amapá, já convive com migração acelerada, novos assentamentos em área de floresta e sobrecarga de serviços públicos por causa da exploração de petróleo na Foz do Amazonas, mesmo sem haver produção comercial. A Petrobras perfura desde outubro de 2025 o poço Morpho, a 175 km da costa amapaense, e a expectativa de empregos atraiu milhares de pessoas para uma cidade com 30 mil habitantes e menos de 2% dos domicílios ligados a esgoto.

A licença e o poço Morpho

Em 20 de outubro de 2025, o Ibama emitiu a Licença de Operação n.º 1.684/2025 para a perfuração do poço Morpho, no bloco FZA-M-59, na bacia da Foz do Amazonas. A Petrobras informou que o bloco fica a 175 km da costa do Amapá e a 500 km da foz do rio Amazonas. A perfuração começou no mesmo mês.

A operação atual é de pesquisa exploratória. Não há autorização para produção de petróleo. Se houver descoberta com viabilidade comercial, novas licenças serão necessárias, segundo a própria Petrobras, em reunião realizada em Oiapoque em 10 de março de 2026.

O Ibama afirma que a licença veio após EIA/RIMA, três audiências públicas, 65 reuniões técnicas em mais de 20 municípios e uma avaliação pré-operacional com mais de 400 pessoas.

Vazamento interrompeu a perfuração

Em janeiro de 2026, a ANP determinou a interrupção da perfuração após vazamento de fluido sintético nas linhas auxiliares ligadas à sonda. O volume foi revisto para 18 metros cúbicos, segundo a Reuters. Em 4 de fevereiro, a ANP autorizou a retomada.

O vazamento foi o primeiro incidente operacional registrado na campanha exploratória.

Migração e expansão urbana desordenada

A Associated Press documentou que Oiapoque passou a receber milhares de migrantes desde que a Petrobras obteve o licenciamento. Um vereador local informou à AP que sete novos bairros surgiram nos últimos 18 meses. Nos assentamentos, moradores abrem lotes informais em área de floresta pública e levantam moradias improvisadas.

O Censo de 2022 do IBGE registrou 27.482 habitantes. A estimativa oficial mais recente, de 2025, aponta 30.786 moradores. Não há contagem oficial nova que meça com precisão o fluxo migratório relatado.

A infraestrutura local já era frágil antes da corrida do petróleo. Segundo dados do IBGE citados pela AP, menos de 2% dos domicílios contam com esgotamento adequado e apenas 0,2% estão em ruas estruturadas. O Instituto Água e Saneamento registra que só 17% da população é atendida por rede pública de água. São 23.037 habitantes sem acesso ao serviço.

Área ambiental sensível

A região costeira ligada a Oiapoque concentra parte dos cerca de 1,4 milhão de hectares de manguezais do Brasil. A Costa Norte reúne aproximadamente 80% desse total, a maior faixa contínua de manguezais do mundo, segundo o Ministério do Meio Ambiente.

No município está o Parque Nacional do Cabo Orange, com 657.318 hectares de bioma marinho-costeiro administrados pelo ICMBio. O cadastro da unidade lista espécies ameaçadas como onça-pintada, tartaruga-verde, peixe-serra e peixe-boi.

A atividade pesqueira e a preocupação indígena se concentram nas proximidades da foz do rio Uaçá, ao lado da área de conservação de Cabo Orange. Em fevereiro de 2026, a Funai esteve na Terra Indígena Uaçá e registrou diálogo com lideranças Karipuna, Palikur-Arukwayene, Galibi Kali’na e Galibi Marworno. A Funai informa que sua coordenação regional atua nas TIs Uaçá, Juminã e Galibi.

Disputa judicial aberta

O Ministério Público Federal recorreu ao TRF1, em março de 2026, para pedir a nulidade ou a suspensão imediata da licença concedida pelo Ibama. O MPF questiona tentativas de ampliar o escopo da licença e registra que a Petrobras apresentou cronograma com três poços contingentes, dependentes do resultado do Morpho. O vazamento de janeiro foi usado pelo órgão como argumento adicional para reforçar o pedido de cautela judicial.

Lideranças indígenas e pescadores da região da foz do rio Uaçá contestam a operação. A preocupação é com danos aos manguezais e à pesca artesanal, que sustenta comunidades nas TIs Uaçá, Juminã e Galibi.

Projeções do governo federal

O Ministério de Minas e Energia projeta, para toda a Margem Equatorial, cerca de 350 mil empregos e mais de R$ 1 trilhão em tributos, segundo estimativas do programa Potencializa E&P. São projeções para a região inteira, não benefícios já contratados para Oiapoque. Até agora, nenhuma reserva comercialmente viável foi comprovada na bacia.

A disputa judicial sobre a ampliação da campanha no bloco FZA-M-59 não tem decisão até o fechamento desta reportagem. O MPF contesta a extensão da licença e a suficiência dos estudos ambientais.

A perfuração do poço Morpho deve durar cerca de cinco meses a partir de outubro de 2025, conforme a Petrobras. O resultado geológico vai determinar se a empresa pedirá novas licenças para produção. O TRF1 não se pronunciou sobre o pedido do MPF até o fechamento desta reportagem.

-A imagem que ilustra esta matéria foi criada utilizando IA.

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