Em documento publicado em abril, a Agência Internacional de Energias Renováveis dirige 18 ações a formuladores de política pública para blindar países e famílias do novo choque de preços do petróleo e do gás. No Diálogo Climático de Petersberg, o ministro João Paulo Capobianco disse que o Brasil “apoia integralmente essa direção” — com uma ressalva: combinar ambição com pragmatismo.
Com o Estreito de Ormuz parcialmente fechado e ataques a infraestrutura de energia em cadeia no Oriente Médio, a Agência Internacional de Energias Renováveis (Irena) publicou em abril um documento em que pede aos governos que tratem a energia limpa como ferramenta de segurança nacional. São 18 ações prioritárias, dirigidas a formuladores de política pública e distribuídas em três horizontes — seis meses, um ano e três anos —, para reduzir a exposição dos países à nova alta errática do petróleo e do gás.
“O conflito em curso no Oriente Médio perturbou severamente o abastecimento global de petróleo e gás”, afirma a Irena (tradução livre da reportagem). A agência descreve o fechamento seletivo do Estreito de Ormuz e os ataques repetidos a infraestrutura da região como eventos que “afetaram de forma fundamental os principais fluxos internacionais de energia, provocando aumentos rápidos e erráticos nos preços do petróleo e do gás” (tradução livre da reportagem).
“Os efeitos desses eventos serão sentidos por economias inteiras, estendendo-se para além dos mercados de energia até os sistemas alimentares, o transporte e as cadeias mais amplas de suprimento, influenciando inflação e atividade econômica simultaneamente. Infelizmente, esses efeitos provavelmente serão mais pronunciados sobre as comunidades mais vulneráveis em todo o mundo” (tradução livre da reportagem).
Um manual de emergência em três horizontes
Entre as ações de zero a seis meses, a Irena destaca a adoção de tarifas com preço variável no tempo — as chamadas time-of-use — que permitem ao consumidor deslocar o gasto para as horas de sol e vento fortes, quando a oferta é abundante e o preço cai. Também cabem na janela de meio ano mini-redes de solar com bateria em áreas off-grid, para cortar a dependência imediata do diesel, campanhas de eficiência para reduzir o pico da demanda e soluções renováveis distribuídas para hospitais e para a produção agrícola e alimentar. A eletrificação de motos e tricicletas no Sudeste Asiático, onde esse segmento responde por grande parte da frota motorizada, entra no mesmo horizonte, combinada à ampliação de frotas de ônibus elétricos.

No eixo fiscal, a Irena quer corte imediato de tarifas de importação sobre painéis, inversores e baterias, travadas em vários países por protecionismo industrial. A lista inclui ainda subsídios diretos à compra de equipamentos e isenções tributárias para eletrificação.
No horizonte intermediário, entre seis e doze meses, a Irena pede aos governos que destravem projetos já contratados. A recomendação é criar forças-tarefa nacionais para acelerar renováveis e obras de rede, reavaliar a adequação de marcos regulatórios diante da inflação e ampliar o incentivo à bateria estacionária, ao gerenciamento pelo lado da demanda e às tecnologias de aprimoramento de rede — recurso que permite ganho rápido de capacidade sem construir novas linhas de transmissão. O aquecimento renovável — biogás residual, bombas de calor e aquecedores solares — e os combustíveis sustentáveis de aviação também ganham fast-track.
O horizonte mais longo, de um a três anos, cobra dos governos integração entre planos de eletrificação e planejamento energético nacional, desenvolvimento de cadeias domésticas e regionais de suprimento para reduzir dependência de importados, eletrificação de processos industriais de média e alta temperatura — com destaque para fornos elétricos a arco na siderurgia — e uma recomendação expressa para “condicionar apoio financeiro e subsídios à indústria de combustíveis fósseis ao cumprimento de metas de energia renovável” (tradução livre da reportagem).
O que a economia já virou
Em 2025, o mundo adicionou 692 gigawatts (GW) de capacidade renovável, elevando a participação das renováveis na capacidade instalada global para 49,4%. “Quase toda a nova capacidade renovável de grande escala comissionada — 91% em 2024 — fornece eletricidade a um custo nivelado menor do que a alternativa fóssil recém-instalada mais barata” (tradução livre da reportagem), diz a Irena.
O custo do armazenamento em baterias caiu 93% desde 2010. O solar fotovoltaico recuou 87% e a eólica em terra, 55%. A média global ponderada do preço de sistemas de armazenamento em baterias chegou, segundo a BloombergNEF citada pela Irena, a cerca de US$ 140 por quilowatt-hora, o menor patamar já registrado na série histórica do levantamento. Em 2025, o mundo adicionou cerca de 247 GWh de capacidade de armazenamento em baterias, quase o dobro do registrado em 2024.

A combinação de renovável com armazenamento já é o que a Irena chama de oferta “firme”. Solar mais bateria sai por US$ 54 a US$ 82 por megawatt-hora (MWh); eólica mais bateria, US$ 59 a US$ 94 por MWh. Uma nova termelétrica a carvão na China sai entre US$ 70 e US$ 85 por MWh, e uma turbina a gás de ciclo combinado recém-instalada nos Estados Unidos já chegou a US$ 102 por MWh.
“Os países que investiram substancialmente em energias renováveis ficaram menos expostos aos efeitos da crise atual” (tradução livre da reportagem), resume a Irena. Na Espanha, a expansão de solar, eólica e baterias somada à redução de importações de gás natural reduziu o papel do combustível na formação do preço da eletricidade para apenas 15% do tempo; na Itália, onde a participação de solar e vento é pequena, o gás ainda dita o preço em 89% das horas do ano. Os 406 GW de solar e 246 GW de eólica adicionados em todo o território da União Europeia evitaram, segundo a agência, o equivalente a € 58 bilhões em custos fósseis adicionais desde o começo da crise — embora a própria Irena reconheça que o bloco está ainda longe do patamar em que sua rede deixaria de ser sensível ao preço do gás.
A China tem apenas 4% do mix elétrico atado a petróleo e gás, contra 40% a 50% em boa parte das demais economias asiáticas. As renováveis atenderam cerca de 80% do crescimento da demanda elétrica chinesa em 2024, e mais da metade dos carros novos vendidos no país são elétricos.

A linha de frente das casas
“Para os domicílios, particularmente em economias asiáticas dependentes de importação de energia e com margens fiscais estreitas, os sistemas de pequena escala representam o melhor meio de reduzir a exposição a choques energéticos” (tradução livre da reportagem), afirma a Irena. O caminho doméstico, pela agência, passa por telhado solar com medição líquida ou tarifa feed-in, bateria residencial de backup e substituição do GLP por cozinha elétrica.
O Paquistão, segundo a Irena, importou cerca de 41 GW de painéis solares a baixo custo nos últimos anos, e o deslanche dos telhados solares teria amortecido, a um só tempo, o impacto da atual crise sobre consumidores e sobre o próprio sistema energético nacional. Na Índia, a participação das renováveis na geração elétrica subiu de 14,2%, em 2016, para 20,2% em 2025; cozinhas a indução viraram contingência de domicílios diante de desabastecimento de GLP, e cantinas alimentadas por solar seguiram operando enquanto, nas tocadas a gás, trabalhadores passaram a levar comida de casa.
Em Cuba, a agência cita sistemas comunitários de solar com bateria que funcionam fora da rede em comunidades agrícolas. “A experiência de Cuba com energia renovável distribuída demonstra que sistemas comunitários de solar e baterias podem fornecer energia descentralizada e resiliente a consumidores em locais fora da rede, ou onde o fornecimento é limitado — especialmente para apoiar atividades agrícolas” (tradução livre da reportagem).
Na eletrificação rodoviária, China, Nepal, Singapura e Vietnã viram as vendas de elétricos saltar de 30% para mais de 70% do total em 2025, contra 20% a 25% da média global. “Nesses países, os impactos sobre a mobilidade pessoal e sobre o custo de vida serão menos suscetíveis a choques de combustíveis fósseis” (tradução livre da reportagem), afirma a Irena.
O Brasil endossa, com uma ressalva
No Diálogo Climático de Petersberg 2026, em 22 de abril, na Alemanha, o ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, citou o relatório da Irena para endossar a aceleração das renováveis. “O recente relatório da IRENA reafirma algo que todos reconhecemos: acelerar a energia renovável, a eletrificação e o armazenamento de energia é essencial para fortalecer a segurança energética e reduzir nossa dependência de combustíveis fósseis”, disse o ministro na Sessão 2 do fórum, dedicada à aceleração da implementação climática. “O Brasil apoia integralmente essa direção.”
“A experiência nos mostra que a transição energética não terá sucesso se for concebida como um caminho único”, disse Capobianco, para então defender a complementaridade entre eletrificação e biocombustíveis sustentáveis no transporte público — à luz do custo marginal por tonelada de CO₂ evitada — e cobrar das instituições financeiras internacionais e dos fundos climáticos apoio a uma gama “mais ampla” de soluções de mitigação, “incluindo aquelas que geram resultados imediatos em diferentes contextos nacionais”.
“Ao combinar ambição com pragmatismo — e ao adotar caminhos complementares — podemos acelerar a implementação e envolver mais países”, disse o ministro.
Capobianco anunciou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva determinou ao ministério que inicie o “processo nacional de elaboração de um mapa do caminho para fazer a transição para o fim do petróleo, gás e carvão”, e citou os 94% da matriz elétrica brasileira e os 47% da matriz energética total já renováveis.
Fonte: IRENA, From energy crisis to energy security: Actions for policy makers, Policy Advisory 4/26/1, Abu Dhabi, abril de 2026. ISBN 978-92-9260-726-5.
Discurso do ministro João Paulo Capobianco na Sessão 2 (“Acelerando a Implementação para Preencher as Lacunas”) do Diálogo Climático de Petersberg 2026, publicado em 22/04/2026 no portal do MMA.
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