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Pantanal e Águas

Pantanal lidera a perda de água do país enquanto MT concede, em média, 3,6 outorgas de água por dia

Estudo de SGB, NASA e UFRJ mede o recuo das reservas subterrâneas no bioma; concessões de uso da água no estado chegaram ao maior patamar da série recente em 2025, 3,6 outorgas de água por dia.

Rogerio FlorentinoPor Rogerio Florentino horário de Cuiabá 7 min de leitura WhatsApp
aquífero do Pantanal

Um estudo conduzido pelo Serviço Geológico do Brasil, pela NASA e pela Universidade Federal do Rio de Janeiro identificou no aquífero do Pantanal a queda de recarga de água subterrânea mais acentuada entre os grandes sistemas do país. No mesmo período em que a ciência registrou esse recuo, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Mato Grosso (SEMA-MT) levou a concessão de outorgas de uso da água ao maior nível de sua série recente, com recorde em 2025 e ritmo ainda mais rápido em 2026. Os dois movimentos, ambos em documentos oficiais, mostram no mesmo território um descompasso entre a perda medida de água e o avanço das autorizações para retirá-la.

Aquífero do Pantanal lidera a queda no país

A pesquisa foi publicada em 3 de junho na revista científica Science Advances. Para superar a escassez histórica de medição direta na hidrogeologia brasileira, os autores reuniram dados de cerca de 400 poços da rede RIMAS com observações de satélite das missões GRACE, MODIS e GPM, da NASA, e treinaram modelos de inteligência artificial para reconstruir o comportamento das águas subterrâneas no país entre 2002 e 2023.

Entre seis aquíferos representativos analisados em detalhe, o do Pantanal apresentou a tendência de queda de recarga mais forte: 15,4 milímetros por ano a cada ano, mais que o dobro do segundo colocado, o Bauru-Caiuá, com 6,98. Vêm em seguida o Urucuia, com 4,88, o Alter do Chão, com 4,6, o Guarani, com 4,1, e o Parecis, com 2,6.

A recarga média nacional ficou em 223 milímetros por ano no período, o equivalente a cerca de 1.900 quilômetros cúbicos, ou aproximadamente 12% de toda a chuva que cai sobre o país. Ainda assim, o Brasil acumulou um déficit de 530 quilômetros cúbicos de água subterrânea entre 2002 e 2022, perda comparável a quase oito anos do consumo nacional de água. Entre os sistemas mais afetados, ao lado do Urucuia, do Bambuí e do Bauru-Caiuá, está o aquífero do Pantanal.

O pesquisador do SGB Clyvihk Camacho associou a retração a mais de um fator: “Essas mudanças estão associadas à convergência de eventos climáticos extremos, alterações no uso e ocupação do solo e ao aumento da demanda por água”. No bioma pantaneiro, a queda da recarga está ligada a secas plurianuais, ao avanço da pastagem sobre a vegetação nativa e a incêndios recorrentes, processo que se intensificou na seca de 2019 e 2020.

O recorde das outorgas

Em Mato Grosso, a porta de entrada para o uso legal da água é a outorga, ato administrativo pelo qual o estado autoriza a retirada por prazo determinado, instituída pela Lei 6.945/1997 e atualizada pela Lei 11.088/2020. A SEMA publica esses atos em portarias organizadas mês a mês no portal oficial. A contagem dessas publicações, feita pela redação do Lupa MT no portal da secretaria e nos diários oficiais do estado, mostra uma aceleração.

Foram 1.116 atos de outorga em 2021, 842 em 2022, 1.016 em 2023, 1.253 em 2024 e 1.327 em 2025, o maior número da série. Em 2026, até meados de junho, já somam 620. Apenas de janeiro a maio, o estado publicou 584 atos neste ano, contra cerca de 420 no mesmo intervalo de 2024 e de 2025, salto de aproximadamente 40%.

No acumulado, a SEMA-MT emitiu mais de 6,1 mil outorgas de uso da água entre 2021 e meados de 2026, todas elas autorizações para usar os recursos hídricos do estado. Em 2025, foram mais de 110 por mês, em média, ou cerca de 3,6 por dia. O destino pouco altera o efeito sobre as bacias: cada outorga libera um volume de captação ou de uso, e é a soma desses volumes que pesa sobre rios e aquíferos, seja a água destinada a irrigação, pecuária, abastecimento público ou indústria.

A irrigação é o setor que mais demanda outorga no estado. Só nas publicações ligadas a ela, um levantamento exaustivo feito pela redação do Lupa MT exclusivamente para esta reportagem reuniu 6.916 registros de uso da água publicados nos diários oficiais entre 2019 e junho de 2026, também concentrados em 2024 e 2025.

Esse recorte ajuda a medir a demanda, mas pede leitura cuidadosa. Os atos de outorga publicados pela SEMA são concessões emitidas pela secretaria, todos os usos somados. Já os 6.916 registros de irrigação misturam etapas do processo: 2.495 são atos potencialmente concessivos, como outorgas e licenças, e o restante reúne 2.494 requerimentos, 1.030 renovações ou alterações, 688 cancelamentos, indeferimentos ou arquivamentos e 209 sem classificação segura. A área ligada a esses registros soma 272.852,95 hectares, número que dimensiona a pressão, não o total oficial de área licenciada.

Do planalto à planície

A ligação entre a água que se autoriza retirar e a água que falta no Pantanal passa pela geografia da bacia. O Pantanal ocupa a planície da Bacia Hidrográfica do Alto Paraguai. Acima dela fica o planalto, situado nos biomas Cerrado, que responde por 83% dessa área alta, e Amazônia, com 17%, onde nascem os rios que, nas palavras de uma nota técnica do MapBiomas de janeiro de 2024, “irrigam naturalmente o bioma Pantanal”.

É justamente nesse planalto que a ocupação avançou. A planície mantém 85% de cobertura natural, enquanto o planalto preserva menos da metade, 38% de sua área. Em 2022, as áreas antrópicas ocupavam 42% de toda a bacia, e 85% dessa ocupação estava no planalto. Entre 1985 e 2022, a parte alta perdeu 41% de suas áreas naturais, com 5,4 milhões de hectares convertidos para pastagem e agricultura.

No levantamento do Lupa MT, os municípios que mais aparecem ficam nesse mesmo planalto produtor, caso de Sorriso, Primavera do Leste e Diamantino, no alto da bacia que alimenta a planície. O recorte municipal é preliminar e mostra concentração de ocorrências, não um ranking definitivo, mas o padrão é coerente: a demanda por água cresce no alto curso, de onde depende a planície.

Sinais que se acumulam

Os indicadores hidrológicos seguem a mesma direção. Em 17 de outubro de 2024, o rio Paraguai chegou a 69 centímetros negativos na régua de Ladário, em Mato Grosso do Sul, estação de referência do Pantanal, a cota mais baixa em 124 anos de medição. Estações mato-grossenses como Cáceres e Barra dos Bugres também registraram mínimas históricas. Entre 2020 e 2024, o déficit de chuva na bacia somou cerca de 1.020 milímetros, quase um ano inteiro de precipitação que deixou de cair. Em janeiro de 2026, a ONU voltou a alertar para o agravamento da crise hídrica global.

A convergência dos dados não significa, porém, relação direta de causa e efeito. O estudo não estabelece vínculo entre a concessão de outorgas e a queda do aquífero. As outorgas, por sua vez, não equivalem a licenças contadas uma a uma, e o uso efetivo da água depende de fiscalização. O que os números oficiais sustentam é a coexistência, no mesmo território e no mesmo intervalo, de uma perda documentada de água subterrânea e de um avanço acelerado das autorizações de uso.

O total de outorgas voltadas exclusivamente à irrigação não é divulgado de forma consolidada pela SEMA. O monitoramento do rio Paraguai segue ao longo de 2026, depois da recuperação parcial registrada em 2025, e a secretaria desenvolve o sistema Siga Hídrico para acelerar a análise dos pedidos de uso da água no estado.

 

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