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Antenas no Véu de Noiva: projeto do INPE ameaça ninhal de araras em parque de proteção integral

O INPE quer instalar uma estação de rastreio de satélites com até quatro antenas em 200 mil metros quadrados no setor do Véu de Noiva, dentro do Parque Nacional da Chapada dos Guimarães. A área é de proteção integral e abriga ninhos da arara-vermelha-grande. A proposta foi à pauta do conselho do parque em 18 de junho de 2026 e esbarra na lei ambiental e no licenciamento.
antenas no Véu de Noiva

Estação prevê até quatro antenas e prédios em 200 mil metros quadrados sobre o paredão onde a arara-vermelha-grande se reproduz, no Parque Nacional da Chapada dos Guimarães/MT; a proposta foi à pauta do conselho do parque e esbarra na lei ambiental, no licenciamento e na biologia da espécie.

Matéria atualizada em 20/06/2026 as 10:47 para incluir a nota do INPE.

No mesmo paredão de arenito onde a arara-vermelha-grande cava seus ninhos e come lascas da própria rocha para se desintoxicar, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) quer instalar antenas no Véu de Noiva. O projeto prevê uma estação de rastreio de satélites com até quatro antenas em 200 mil metros quadrados, dentro do Parque Nacional da Chapada dos Guimarães. A área tem o regime mais restritivo da lei ambiental brasileira, o de proteção integral.

Uma parede que a natureza não repõe

A arara-vermelha-grande, de nome científico Ara chloropterus, é a maior do seu gênero. Mede cerca de 90 centímetros das penas da cabeça à ponta da cauda e pesa perto de um quilo e meio. No Véu de Noiva, ela faz duas coisas na mesma parede de pedra. Cava o ninho em fendas do arenito, num túnel que pode chegar a dois metros de profundidade. E come argila e lascas da própria rocha, um hábito chamado geofagia, que ajuda a neutralizar as toxinas das frutas verdes de que se alimenta e a repor minerais.

O ponto central é o vínculo da ave com aquela parede específica, e não com o parque em geral. A espécie volta ao mesmo ninho ano após ano. Uma pesquisa de longo prazo do Instituto Arara Azul indica que cerca de 71% dos casais reaproveitaram a mesma cavidade pelo menos uma vez ao longo de uma década ou mais. Em outras palavras, cerca de sete em cada dez casais não trocam de endereço. O arenito do Véu de Noiva tem mais de 500 milhões de anos. É uma rocha que a geologia não refaz na escala de uma vida humana. Se um sítio de ninho se perde, não surge outro igual ali ao lado.

A reprodução é lenta e arriscada. A fêmea põe de dois a quatro ovos e choca por cerca de um mês. Mesmo assim, poucos filhotes chegam ao fim. Um estudo de monitoramento acompanhou 25 filhotes da espécie. Dez sobreviveram e deixaram o ninho, nove morreram por aparente desnutrição e seis foram mortos por predadores. Ou seja, menos da metade saiu do ninho com vida. Para uma ave que depende de poucos locais de reprodução, qualquer perturbação que estrague uma temporada pesa muito.

A arara-vermelha-grande não está ameaçada de extinção no mundo. A União Internacional para a Conservação da Natureza, a IUCN, a classifica como “pouco preocupante”, ainda que com população em queda. O peso do problema não está na raridade global da ave. Está na dependência de um sítio de reprodução que não tem substituto, dentro de uma área que a lei manda proteger por inteiro.

O que a obra pode fazer com as araras

A ligação entre a obra e o risco para as araras tem base científica. Um estudo publicado em 2017 na revista Biotropica acompanhou araras em pontos de geofagia na Amazônia peruana, onde elas também comem barro em barrancos. O uso desses locais caiu de forma acentuada quando o movimento de pessoas e barcos passou de certo limite. A arara-vermelha-grande, em particular, evitou os pontos nos períodos de maior fluxo humano e, quando tinha opção, preferiu os mais distantes da presença de gente. O efeito era mais forte nos trechos estreitos e próximos.

No Véu de Noiva, ninho e geofagia se concentram no mesmo paredão. Uma obra longa e uma estação funcionando o ano inteiro a poucas centenas de metros são, justamente, o tipo de perturbação que faz a espécie usar menos o sítio ou abandoná-lo. A luz acesa à noite, por segurança, entra como fator a mais. Um levantamento de pesquisas publicado em 2021 no periódico Environmental Evidence reúne evidências de que a iluminação artificial pode afastar aves de áreas iluminadas, e um estudo com corujas registrou menos ninhos ocupados onde havia luz. O barulho da obra e dos equipamentos soma-se a tudo isso.

O projeto de antenas no Véu de Noiva vai ao conselho

O catálogo de projetos do instituto, de março de 2026, descreve uma nova estação de rastreio, controle e recepção de satélites. Prevê a compra de até quatro antenas, que operam nas faixas S, X e Ka, mais a construção das bases, de prédios para a equipe e de pavimentação. Tudo em um terreno de 200 mil metros quadrados, de 400 por 500 metros. É o equivalente a cerca de 28 campos de futebol.

Uma estação como essa não funciona sozinha. Ela recebe os dados que os satélites enviam e devolve os comandos que os controlam. Por isso opera o tempo todo, com gente no local, energia, climatização, iluminação e veículos entrando e saindo. Para dar a dimensão das estruturas: a atual Estação Terrena de Cuiabá, do próprio INPE, usa uma antena de 11 metros e outra, multimissão, de 5,8 metros. Uma antena de rastreio parecida, operada pelo Censipam em Manaus, tem 7 metros de diâmetro.

A proposta saiu do trâmite interno e chegou ao colegiado que opina sobre o parque. No dia 18 de junho de 2026, o Conselho Consultivo do Parque Nacional da Chapada dos Guimarães se reuniu no auditório da Câmara de Vereadores de Chapada dos Guimarães, das 9h às 16h. A apresentação da proposta de instalação das antenas pelo INPE estava na pauta, marcada no documento de convocação como item “a confirmar”.

Um parque onde a lei só admite uso indireto

A primeira barreira é jurídica. O Parque Nacional da Chapada dos Guimarães é uma unidade de proteção integral. A Lei 9.985, de 2000, que criou o Sistema Nacional de Unidades de Conservação, só admite nesse tipo de área o chamado uso indireto dos recursos naturais, aquele que não consome, não danifica e não destrói nada. Uma estação permanente, com prédios e asfalto, não cabe de forma óbvia nessa definição.

A mesma lei, no artigo 28, proíbe dentro das unidades qualquer atividade em desacordo com seus objetivos e com o plano de manejo, o documento que diz o que pode e o que não pode em cada trecho do parque. A Constituição reforça a barreira. No artigo 225, ela exige lei específica para alterar ou reduzir espaços protegidos e veda qualquer uso que comprometa o que justificou a proteção.

E há os filtros do licenciamento ambiental, que funcionam em série. Uma obra de grande impacto dentro de uma unidade federal depende de uma autorização específica do Instituto Chico Mendes (ICMBio), com manifestação que vincula o processo. Projeto desse porte costuma exigir Estudo de Impacto Ambiental e o relatório que o acompanha, o EIA/Rima. O conselho consultivo precisa se manifestar. E o projeto tem de ser compatível com o plano de manejo. São barreiras que se somam, e passar por uma não dispensa as outras. Outros pontos, como a radiação de radiofrequência das antenas, teriam de ser avaliados nesse rito, embora a ciência ainda não seja conclusiva sobre eventual efeito em aves. Diante do risco a um sítio de reprodução insubstituível, vale o princípio da precaução: a dúvida pesa contra a obra, e cabe a quem propõe provar que ela é inofensiva.

No campo de visão do cartão-postal

Há ainda o impacto sobre a paisagem. O Véu de Noiva é uma queda d’água de 86 metros, mais ou menos a altura de um prédio de quase 30 andares. É o ponto mais visitado do parque e o principal cartão-postal de Mato Grosso. Preservar essa beleza é um dos objetivos legais de um parque nacional.

Antenas e prédios em cota elevada, no campo de visão do mirante mais procurado do estado, colidem com essa finalidade. E colidem também com o processo de concessão da visitação do parque, conduzido pelo ICMBio, que aposta justamente na paisagem preservada como atrativo.

O órgão que protege assinou o protocolo

O caso tem também um lado institucional. Quem deveria barrar uma obra incompatível com o parque é o próprio ICMBio. E foi o ICMBio que assinou, com o INPE, um protocolo de intenções que cita a instalação das antenas. O documento foi firmado pelo diretor do INPE, Antonio Miguel Vieira Monteiro, em maio de 2025, e pelo presidente do ICMBio, Mauro Oliveira Pires, em agosto de 2025. Entre os objetivos listados está, com todas as letras, a “instalação de Antenas de Rastreio Controle e Recepção de Satélites no Parque Nacional da Chapada dos Guimarães”.

A justificativa do INPE aparece no mesmo texto. A ideia é usar os dados de satélite para monitorar os efeitos das mudanças climáticas nas unidades de conservação, prever queimadas e acompanhar a recuperação de áreas degradadas. São objetivos ligados à própria conservação, e é nesse argumento que o projeto se apoia.

Só que o protocolo não autoriza obra nenhuma, e ele mesmo diz isso. Duas de suas cláusulas deixam claro que o documento não gera vínculo jurídico por si só, que vale por 60 meses, ou cinco anos, e que qualquer execução depende de planejamento conjunto, de aprovação institucional e de um instrumento jurídico específico, ainda por criar. É uma carta de intenções, não uma licença.

Uma articulação que vem de 2020

A ideia também não é nova. A intenção do INPE de instalar uma antena na Chapada dos Guimarães é pública desde pelo menos setembro de 2020. Naquele mês, uma equipe da Agência Espacial Brasileira (AEB) visitou a Estação Terrena de Cuiabá e conheceu a Chapada, então descrita como o local escolhido para reduzir a interferência eletromagnética que cresce junto com as cidades. Na mesma viagem, o grupo se reuniu com secretarias estaduais.

Esse movimento é anterior à abertura formal do processo do projeto, que veio só em 2021. A articulação política e institucional começou antes da papelada. Cinco anos depois, a proposta chega ao conselho do parque e esbarra nas barreiras legais e ambientais que cercam uma unidade de proteção integral.

Os próximos passos estão no rito ambiental. O conselho consultivo ainda precisa registrar sua manifestação formal sobre a proposta. Não há, até o fechamento desta reportagem, confirmação pública de licença ambiental aberta, de Estudo de Impacto Ambiental exigido ou do instrumento jurídico específico que o próprio protocolo condiciona. Seguem em aberto, pedidas por Lei de Acesso à Informação, a planta exata do terreno de 200 mil metros quadrados e a distância precisa entre a estação projetada e os ninhos ativos das araras.

O outro lado

O INPE publicou uma nota, leia na íntegra abaixo:

Nota de Esclarecimento: Projeto de Expansão da Infraestrutura de Rastreio e Controle de Satélites na Chapada dos Guimarães

INPE reafirma seu compromisso com a transparência, o diálogo e a preservação ambiental
Publicado em 19/06/2026 18h42 Atualizado em 19/06/2026 18h43

OInstituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) vem a público prestar os esclarecimentos necessários a respeito do projeto de instalação de uma nova estação de rastreio, controle e recepção de dados de satélites na Chapada dos Guimarães (MT). A Instituição reafirma seu compromisso inegociável com as estratégias de conservação e preservação do ambiente natural, com o cumprimento irrestrito e integral da legislação brasileira e com o permanente diálogo transparente com a sociedade brasileira e com os órgãos ambientais e de controle.

No dia 18 de junho de 2026, o INPE, representado pelo seu Coordenador-Geral de Infraestrutura e Pesquisas Aplicadas, Geilson Loureiro, apresentou os contornos técnicos do projeto ao Conselho Consultivo do Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, em uma reunião que representa o primeiro passo de um processo de diálogo, com espaços amplos para ajustes, avaliações e a apresentação dos argumentos técnicos que sustentam o pedido. Essa reunião é o início de um longo e necessário caminho, que incluirá várias reuniões técnicas, relatórios e a manifestação formal do Conselho, ao qual o INPE manifesta seu total respeito. O Instituto não possui qualquer intenção de “impor” seu projeto, nem possui este perfil institucional ao longo de seus 65 anos que serão completados em agosto deste ano, sendo uma das instituições de Estado mais longevas no país e com relevantes serviços prestados à sociedade brasileira e ao campo ambiental, em particular.

O INPE procurou o Conselho para expor uma questão técnica grave, qual seja o comprometimento da infraestrutura de rastreio e controle de satélites de observação da terra, situada em Cuiabá. Instalada ali há quase 40 anos e que com a chegada de áreas urbanas adensadas à sua vizinhança, tal infraestrutura enfrenta hoje um problema de ruídos nos sinais eletromagnéticos que as antenas precisam receber. Com o atual nível de  ruído, perdem-se as imagens e tudo que podemos produzir a partir delas. Esta é uma infraestrutura basilar para atender os projetos e monitoramento por satélites de florestas tropicais como Prodes, Deter, TerraClass e todo o Programa Biomas do Brasil (BiomasBR). Portanto, o que o INPE propõe é somente, neste momento, apresentar o problema, sua gravidade para o Brasil,  em especial para as políticas de monitoramento de todos os biomas brasileiros, e discutir possibilidades com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). E fazer isso através dos canais legais e transparentes, submetendo nosso problema e proposta inicial à análise criteriosa de todos os atores envolvidos, preservando o tempo necessário para que isso aconteça.

O INPE esclarece também que a localização exata das antenas não está definida. E nem poderia. A proposta inicial, que menciona uma área dentro do Parque, foi apresentada como uma sugestão a ser avaliada, pensando na proximidade com a sede do ICMBio para, inclusive, reduzir potenciais impactos. A área é delicada e requer sem dúvida uma análise multicritério à luz da preservação do capital natural como ponto de partida – portanto tudo pode ser discutido. E o INPE voltará às pranchetas e trará o melhor desenho técnico que possa atender a todas as recomendações feitas. A palavra final sobre a localização mais adequada caberá sempre ao ICMBio, gestor da unidade de conservação.

Nesse sentido, é importante reafirmar que o INPE seguirá integralmente as orientações do órgão ambiental, que indicará o local tecnicamente mais viável e com menor impacto ambiental. A preservação do Parque, de sua rica biodiversidade e de suas belezas naturais, é uma prioridade absoluta que será rigorosamente observada e respeitada em todas as fases do projeto.

Quanto à operação, as antenas previstas terão até 14 metros de altura e 11 metros de diâmetro, e seu funcionamento será majoritariamente automático, sem a necessidade de equipes em tempo integral no local. A infraestrutura planejada é essencial para a modernização da capacidade nacional de recepção de imagens e dados, sendo fundamental para o monitoramento ambiental realizado pelo INPE, que gera informações sobre desmatamento e queimadas na Amazônia, no Cerrado e nos demais biomas brasileiros, além de ser de grande importância para o suporte a órgãos de defesa civil e outras autoridades na prevenção e no enfrentamento de desastres, bem como para o apoio às missões espaciais brasileiras atuais e futuras, como os satélites Amazonia-1B e CBERS 5 e 6. Os dados recebidos por essa infraestrutura constituem ferramentas-chave para a própria conservação ambiental, servindo a todos os órgãos de fiscalização, em especial o próprio ICMBio e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em suas atribuições de fiscalização e proteção.

Por fim, o INPE reafirma que o Protocolo de Intenções assinado com o ICMBio é, como o próprio nome indica, uma carta de intenções, que não autoriza qualquer obra e não substitui os estudos e licenças exigidos por lei. Um projeto desta magnitude, dentro de uma unidade de proteção integral, exige a observância de um rigoroso processo de licenciamento e de estudos de impacto ambiental, e o INPE cumprirá todos eles.

O Instituto está aberto ao diálogo e à participação social, e continuará a prestar todas as informações técnicas necessárias para que a sociedade possa compreender a importância estratégica deste projeto para o país e sua compatibilidade com a preservação do patrimônio natural da Chapada dos Guimarães.

 

*A imagem que ilustra esta matéria foi criada utilizando IA.

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