No Dia Mundial das Abelhas, dados do Ibama mostram que o estado comprou 2,4 mil toneladas de fipronil e neonicotinoides em 2024; o consumo de fipronil cresceu mesmo depois da restrição à pulverização do produto contra polinizadores
No Dia Mundial das Abelhas, celebrado nesta quarta-feira, 20 de maio, Mato Grosso aparece como um dos maiores mercados do país para os agrotóxicos mais associados à morte de polinizadores. O estado comercializou 2.416 toneladas dos quatro ingredientes ativos mais ligados à mortandade de abelhas em 2024, fipronil e os neonicotinoides imidacloprido, tiametoxam e clotianidina, segundo os boletins anuais de comercialização do Ibama. O volume equivale a cerca de um quinto de tudo o que foi vendido desses produtos no Brasil no mesmo ano.
A data foi instituída pela Organização das Nações Unidas para chamar atenção para a importância das abelhas e o declínio de suas populações. No Brasil, os episódios de mortandade mais visíveis e o maior consumo desses produtos se concentram nas regiões de agricultura de larga escala. Mato Grosso, maior produtor nacional de soja, algodão e milho, lidera as vendas de vários dos agrotóxicos ligados à morte de abelhas.
Os números do Ibama
Os boletins de comercialização do Ibama detalham, a cada ano, quanto de cada ingrediente ativo foi vendido em cada estado, em toneladas de produto formulado. Os dados de 2024 deixam claro o peso de Mato Grosso no consumo nacional desses produtos.
Em 2024, o estado respondeu por 21,1% de todo o fipronil vendido no Brasil, 19,9% do imidacloprido, 18% do tiametoxam e 16% da clotianidina. Em todos os quatro casos, Mato Grosso figura entre os maiores compradores da federação para substâncias que laudos de universidades e órgãos estaduais apontam como causa recorrente da morte em massa de abelhas.

Somados, os quatro ingredientes movimentaram 2.416,25 toneladas no estado em 2024, ante 2.949,66 toneladas no ano anterior, uma queda de 18,1%. A retração esconde movimentos opostos: três dos quatro produtos recuaram, mas o fipronil subiu.

O fipronil na contramão
Entre 2023 e 2024, enquanto os três neonicotinoides recuaram em Mato Grosso, o fipronil avançou. O estado passou de 382,38 para 456,74 toneladas do ingrediente, aumento de 19,4% em um único ano.
O movimento ganha peso pelo contexto regulatório. Em 2023, o governo federal restringiu a pulverização foliar do fipronil justamente para reduzir o contato do produto com polinizadores. A medida, porém, não alcança o tratamento de sementes, que é a principal porta de entrada do fipronil na lavoura. O resultado aparece nos números: a restrição mirou um modo de aplicação, e o consumo total seguiu crescendo por outro caminho.

Entre os neonicotinoides, o recuo foi expressivo. A clotianidina caiu quase 60%, de 275,87 para 111,87 toneladas. O tiametoxam recuou 36,3%, de 944,60 para 601,49 toneladas, a maior retração absoluta entre os quatro produtos. O imidacloprido teve a menor variação, com queda de 7,5%, mas permaneceu como o ingrediente de maior volume na conta, com 1.246,15 toneladas em 2024, mais do que o triplo do fipronil.
A diferença de comportamento importa porque o fipronil é o ingrediente que aparece com mais frequência nos laudos de abelhas mortas no Brasil. A queda dos neonicotinoides puxa o total do estado para baixo, mas o avanço do fipronil mantém a pressão sobre as colmeias.
A economia invisível que está em risco
Para entender por que a morte de abelhas é também um problema econômico, é preciso olhar o que elas fazem de graça. A polinização animal sustenta boa parte da agricultura brasileira, e as abelhas são as principais responsáveis por esse serviço.
O relatório temático sobre polinização e produção de alimentos no Brasil, conduzido pela Rede Brasileira de Interações Planta-Polinizador e pela plataforma BPBES, mostra que, das 191 plantas usadas para alimentação no país com polinização conhecida, 114 dependem de visitas de polinizadores. As abelhas respondem por 66,3% das espécies de polinizadores identificadas e são as únicas a polinizar dezenas dessas culturas.
Em dinheiro, o valor desse trabalho é alto. Para 2018, o serviço de polinização para a produção de alimentos no país foi estimado em cerca de R$ 43 bilhões por ano, com 80% concentrados em soja, café, laranja e maçã. Estimativas mais recentes, que abrangem 52 cultivos, calculam o serviço em quase US$ 42 bilhões anuais, dos quais aproximadamente US$ 32 bilhões vêm da soja, US$ 3 bilhões do café, cerca de US$ 1 bilhão de laranjas e demais cítricos, US$ 738 milhões do açaí e US$ 737 milhões do cacau.

No mundo todo, a dependência é estrutural. O painel científico IPBES estima que 75% das culturas alimentares e quase 90% das plantas com flor dependem, em alguma medida, da polinização animal, com valor econômico anual entre US$ 235 bilhões e US$ 577 bilhões. A Embrapa calcula que cerca de 80% das plantas silvestres e cultivadas usadas na alimentação no Brasil dependem de abelhas.
A conta não cai igual para todos
A crise dos polinizadores não atinge a todos da mesma forma. Pesquisadores que assinam um estudo publicado em 2025 no periódico PLoS One, com dados de 5.499 municípios brasileiros, concluíram que 58% das 60 principais culturas do país dependem de polinizadores e que 96,8% dos municípios são, em algum grau, vulneráveis à falha desse serviço.
Entre os autores está a bióloga Blandina Felipe Viana, da Universidade Federal da Bahia. O trabalho identificou que soja, café, algodão, tomate e cacau concentram 84% do valor econômico da polinização. Quando a soja é retirada da conta, a vulnerabilidade cresce justamente nos municípios de baixa renda, sobretudo na Mata Atlântica, no Cerrado e na Caatinga.
Esse recorte mostra quem está mais exposto: os pequenos agricultores que produzem frutas, hortaliças e sementes em sistemas diversificados, e que dependem diretamente das abelhas para colher. A agricultura familiar responde por 76,8% dos estabelecimentos rurais do país e por boa parte dos alimentos frescos que chegam à mesa.
Sobre a produção, os efeitos potenciais são severos. Cenários de crise de polinização no Brasil projetam queda de 13,5% a 41,6% na produção de cultivos dependentes de polinizadores, o que significaria perdas anuais estimadas entre US$ 4,86 bilhões e US$ 14,56 bilhões.
Mortandades em massa: o caso de Mato Grosso
A ligação entre agrotóxicos e morte de abelhas está documentada em campo. Em 2023, mais de 100 milhões de abelhas morreram em cerca de 600 colmeias em municípios de Mato Grosso, depois da aplicação inadequada de fipronil. Quatro das cinco espécies de abelhas ameaçadas de extinção no Brasil foram afetadas no episódio.
O caso de Mato Grosso não foi isolado. Levantamentos divulgados em 2023, de órgãos estaduais e de entidades ambientais, estimam que o fipronil matou ao menos 180 milhões de abelhas no país naquele ano, com ocorrências também na Bahia, em Minas Gerais e no Mato Grosso do Sul. Em São Paulo, das 62 notificações de morte de abelhas registradas entre 2020 e 2022, 49 foram ligadas a pesticidas, e o fipronil apareceu em 63% dos casos.
O padrão se repete na ciência. Estudos toxicológicos recentes mostram que o inseticida tiametoxam, o herbicida glifosato em dose recomendada e o fungicida mancozeb têm alta letalidade ou efeitos subletais severos sobre a abelha nativa Melipona capixaba e sobre a Apis mellifera. Exposições que não matam de imediato afetam asas, órgãos internos, sistema nervoso e capacidade de voo e orientação, reduzindo a sobrevivência das colônias.
O Brasil no topo do consumo de inseticidas
No plano nacional, a situação de Mato Grosso não é exceção. O Brasil é hoje o maior consumidor mundial de inseticidas em toneladas de ingrediente ativo. Entre 2000 e 2015, o uso de inseticidas no país cresceu 152%, saltando de 28.382 para 71.663 toneladas, enquanto a área agrícola aumentou apenas 8,1% no mesmo período.

Cerca de 30% dos agrotóxicos usados no Brasil contêm ingredientes ativos banidos na União Europeia, segundo comparações regulatórias baseadas em registros do próprio Ibama. Em 2021, o país recebeu 6.272 toneladas de neonicotinoides exportados pela União Europeia, classe de produtos vetada no bloco por risco aos polinizadores.
A Fiocruz alerta que a exposição a agrotóxicos provoca intoxicações agudas e crônicas em humanos, além de danos a espécies essenciais ao equilíbrio dos ecossistemas, entre elas as abelhas. Pesquisadoras da fundação criticam alterações regulatórias que tendem a atenuar a classificação de toxicidade de vários produtos.
Política no papel, lacuna no campo
A resposta institucional existe, mas avança devagar. O Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Insetos Polinizadores, coordenado pelo ICMBio para o ciclo de 2022 a 2027, reúne 71 ações e tem 107 espécies-alvo de abelhas e borboletas polinizadoras, das quais 56 estão nacionalmente ameaçadas. O documento cobre todos os biomas e lista o uso abusivo de agrotóxicos, a perda de habitat, os incêndios, as mudanças climáticas e o manejo inadequado como ameaças prioritárias.
Mesmo com plano em vigor, pesquisadores que revisaram as políticas públicas brasileiras voltadas a polinizadores, em trabalho publicado em 2026, concluíram que o país ainda não conta com legislação específica e consistente para a manutenção desses insetos, e que as políticas existentes são insuficientes para enfrentar o problema. O descompasso entre o ritmo de liberação de novos agrotóxicos e os mecanismos de proteção dos polinizadores está no centro dessa avaliação.
As nativas como saída
As abelhas nativas sem ferrão aparecem como alternativa concreta a esse quadro de pressão. O Brasil abriga ao menos 3.000 espécies de abelhas, das quais 259 são abelhas sem ferrão documentadas, distribuídas por todas as regiões do país. Essa diversidade, a maior do planeta no grupo, é também uma reserva de serviços de polinização e de renda.
A meliponicultura, criação de abelhas nativas sem ferrão, tem mostrado que é possível conciliar produção, conservação e renda. Na Amazônia, o programa Abelhas da Amazônia, do Instituto Peabiru, envolve mais de 120 produtores em 20 comunidades do Pará e do Amapá, com a criação funcionando como alternativa de renda e estímulo à manutenção da floresta em pé.
A meliponicultura, porém, não resolve sozinha o conflito de fundo. Enquanto a paisagem agrícola seguir dominada por monoculturas e pelo uso intensivo de agrotóxicos tóxicos a polinizadores, as abelhas nativas continuam expostas aos mesmos riscos, ainda mais porque vários estudos as apontam como mais sensíveis a certos produtos do que a Apis mellifera.
O que vem pela frente
O Plano de Ação Nacional dos Insetos Polinizadores segue em execução até 2027, quando deverá passar por nova avaliação de metas. No campo regulatório, a reavaliação do fipronil e dos neonicotinoides pelo Ibama permanece como ponto de atenção, sobretudo diante do crescimento do fipronil em Mato Grosso mesmo após a restrição de 2023. Os próximos boletins de comercialização do órgão, referentes a 2025, vão indicar se o avanço do ingrediente no estado foi episódio isolado ou início de tendência.
Fontes:
As informações desta reportagem têm como base os Boletins anuais de comercialização de agrotóxicos do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), referentes a 2023 e 2024, em especial as planilhas “Vendas por Unidade da Federação”, que detalham, por estado e por ingrediente ativo, as quantidades vendidas em toneladas de produto formulado (dados públicos e autodeclaratórios, sujeitos a retificação). O contexto sobre polinização, economia e impactos ambientais foi apurado a partir do Relatório Temático sobre Polinização, Polinizadores e Produção de Alimentos no Brasil (BPBES/REBIPP, 2019), da avaliação do IPBES sobre polinizadores e produção de alimentos (2016), dos estudos “Yield vulnerability of low-income smallholders to pollinator declines in Brazil is biome-dependent” (PLoS One, 2025) e “The dilemma of agricultural pollination in Brazil” (PLoS One, 2018), da revisão “Pollinator-Friendly Policies in Brazil” (Neotropical Entomology, 2026), do Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Insetos Polinizadores (ICMBio, ciclo 2022–2027) e de materiais da Embrapa, da Fiocruz, do Greenpeace/Public Eye, da A.B.E.L.H.A e do Instituto Peabiru. Os episódios de mortandade de abelhas de 2023 foram reconstituídos com apoio de registros publicados por G1, Terra, Estado de Minas, CNN Brasil e Mongabay Brasil.
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