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Conferência em Istambul aposta no lixo zero rumo à COP31

O Zero Waste Forum 2026 reuniu governos, cidades e organizações em Istambul, entre 5 e 7 de junho, para enquadrar o lixo zero como ação climática rumo à COP31. O evento previa seis documentos de resultado, mas a declaração final não havia sido publicada até o fechamento desta reportagem.
lixo zero

Fórum debateu o combate ao desperdício de alimentos e à emissão de metano e previa documentos para orientar cidades e governos, mas a declaração final não havia sido publicada até o fechamento desta reportagem.

O Zero Waste Forum 2026 aconteceu em Istambul entre os dias 5 e 7 de junho com um objetivo claro: transformar o lixo zero em ferramenta de combate à crise do clima na preparação para a COP31. Organizado pela Zero Waste Foundation sob o tema “Road to Antalya: Zero Waste as Climate Action”, o encontro reuniu governos, cidades, organismos internacionais, empresas, pesquisadores e entidades da sociedade civil. No centro das discussões estiveram a economia circular, o metano, o desperdício de alimentos e os compromissos voluntários das cidades. O fórum foi tratado como etapa preparatória para a cúpula do clima que os organizadores esperam realizar em Antalya, na Türkiye, em novembro de 2026.

Do caminhão de lixo à mesa de negociação

A ideia central do fórum foi tirar o lixo zero do território da coleta seletiva e da reciclagem para colocá-lo no debate sobre clima, economia, segurança alimentar e produção industrial. O Concept Note, documento oficial que serviu de base ao evento, define a conferência como um espaço de alto nível voltado a transformar a redução de resíduos em política climática concreta.

O encontro não foi pensado para fechar acordos internacionais. O próprio documento conceitual deixa claro que a função era criar um ambiente de cooperação, identificar barreiras à execução das medidas e formar parcerias antes e depois da COP31. Os resultados, segundo os organizadores, não têm caráter obrigatório, o que evita exagerar o peso jurídico do que foi discutido em Istambul.

Houve, portanto, conversa política, diplomática e técnica, mas nenhuma obrigação legal saiu dali. O argumento defendido foi o de que uma economia que reduz emissões não pode continuar consumindo tanto material, e que cortar resíduos é cortar as emissões geradas na extração, na produção, no transporte, no consumo e no descarte.

O caminho até Antalya e a vitrine turca

Com a COP31 marcada para Antalya, na Turquia, o fórum entrou no roteiro de preparação da cúpula. O formato deu à Turquia a chance de mostrar protagonismo na agenda ambiental, usando a Istanbul Zero Waste Week e o percurso até a conferência como instrumentos de diplomacia e de influência política.

Essa agenda turca já vinha de antes. O Conselho Consultivo de Alto Nível sobre Lixo Zero do Secretário-Geral da ONU é presidido por Emine Erdoğan, e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Unep) e o ONU-Habitat trabalham juntos como secretaria, dentro de suas atribuições. A primeira edição do fórum havia ocorrido em outubro de 2025, também em Istambul, e a Assembleia Geral da ONU já tinha criado o Dia Internacional do Lixo Zero pela resolução A/RES/77/161, aprovada em 2022.

A edição de 2026 disse querer avançar para uma fase de execução, com foco em cidades, alimentos, metano, inovação, financiamento, indústria, agricultura, energia e dados. A programação oficial foi dividida em três sessões ministeriais de alto nível: uma sobre indústria e tecnologia, outra sobre agricultura e florestas e uma terceira sobre energia e recursos naturais.

A declaração final ainda não veio

O fórum previa terminar com um pacote de seis documentos: a Road to Antalya Outcome Statement, o City Action Pledges Package, o Food Waste and Methane Action Playbook, o Partnership and Projects Pipeline, a Measurement and Accountability Note e o Zero Waste Forum 2026 Summary Report.

Até o fechamento desta reportagem, nenhum desses textos havia sido encontrado em fonte aberta, com link direto para o arquivo final. A busca passou pelo site oficial do evento, pela pasta pública de PDFs, pelas páginas da fundação e por termos como “Outcome Statement”, “City Action Pledges” e “Outcome Document”, em inglês e em turco, sem chegar à versão final.

Ou seja, o que foi prometido ainda não foi entregue. Os documentos estavam previstos e, em parte, em preparação, mas a existência de uma declaração final assinada, com lista de signatários, metas e prazos, depende de uma publicação que não foi confirmada. Só o acompanhamento dessa divulgação vai mostrar se os compromissos anunciados saem do papel.

Comida e metano, a frente mais concreta

Entre os temas do evento, o do desperdício de alimentos e do metano é o que se apoia em dados mais sólidos. O fórum dedicou um dia inteiro ao assunto, que liga resíduos orgânicos, cidades e clima de forma direta: alimentos que apodrecem em aterros e lixões liberam metano, um gás de efeito estufa que aquece o planeta com força no curto prazo.

Os números dão a dimensão do desperdício. O mundo jogou fora 1,05 bilhão de toneladas de alimentos em 2022. Desse total, 19% foram perdidos na casa do consumidor e outros 13% ao longo das cadeias de fornecimento, antes mesmo de chegar às lojas. A perda e o desperdício de comida respondem por algo entre 8% e 10% das emissões anuais de gases de efeito estufa no mundo, segundo dados ligados ao Unep e à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima.

O tema junta crise climática, fome e desperdício de dinheiro. Além do lado ambiental, envolve logística, varejo, consumo, agricultura, saneamento, coleta de orgânicos, compostagem e bioeconomia, com medidas que cidades de qualquer tamanho podem copiar.

Cidades e parcerias para colocar em prática

Os compromissos urbanos previstos mostram que os organizadores veem as cidades como o lugar onde o discurso vira ação. O City Action Pledges Package foi montado como um pacote de compromissos de curto prazo, e o futuro da pauta depende de saber se ele será publicado e se virá com metas que dá para medir.

O fórum foi desenhado como um modelo de execução, não como uma conferência só de declarações. A cooperação foi organizada em cinco frentes: as condições que os países precisam criar, os compromissos das cidades, as parcerias com empresas e startups, as parcerias com universidades e centros de pesquisa e as parcerias com a sociedade civil e as comunidades. Mesmo assim, as metas e obrigações locais continuam voluntárias.

Os números de público, segundo os organizadores

Os números de participação divulgados precisam ser lidos com a fonte à vista. A Zero Waste Foundation informou que 183 países foram acreditados, com oito ex-chefes de Estado e mais de 200 ministros, e projetou mais de 5 mil participantes internacionais e mais de 500 instituições e organizações. Antes, a fundação havia falado em representantes de mais de 160 países, mais de 100 ministros e mais de 200 prefeitos.

O fórum foi o evento principal da Istanbul Zero Waste Week, realizada entre 1º e 7 de junho com mais de 1.500 programações espalhadas por 39 distritos da cidade. O Zero Waste Festival, a parte pública e cultural do ciclo, montada no Aeroporto Atatürk, teria passado de 400 mil visitantes até o terceiro dia. Todos esses dados vêm dos organizadores, e não foi localizada uma lista oficial completa de participantes, países, ministros e signatários que permitisse conferência independente.

A briga sobre o que é lixo zero

A presença da sociedade civil trouxe um contraponto à pauta. A Global Alliance for Incinerator Alternatives (Gaia) participou do evento para apresentar soluções comunitárias de lixo zero, com foco em reduzir o metano, fortalecer economias locais, proteger catadores e garantir justiça climática.

O conceito de lixo zero é disputado por modelos diferentes. Eles vão da prevenção e do reaproveitamento na origem à reciclagem com inclusão de catadores, e passam pela economia circular das empresas e por tecnologias que transformam resíduo em valor. No centro da discussão estão a incineração e o coprocessamento, criticados por redes como a Gaia, que defende o aproveitamento responsável do lixo sem queima e sem despejos que ameacem o ambiente ou a saúde. Aqui cabe verificar se o fórum assumiu compromissos claros contra as soluções de maior impacto climático ou se deixou a porta aberta para práticas contestadas.

O encontro tratou ainda de desenvolvimento, comércio, equidade, financiamento, capacidade industrial, urbanismo, infraestrutura, normas e uso de dados, além de incluir a participação das mulheres na agenda. Para os organizadores, o lixo zero é uma política que mexe com o sistema todo, e não um problema isolado de descarte.

Seguem em aberto a divulgação da declaração de rota para Antalya, a identificação das cidades e dos países que assinaram, a confirmação de metas e prazos e a existência de mecanismos públicos de medição e de prestação de contas até a COP31.

 

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