Pesquisar
Close this search box.

Norte e Nordeste ficam para trás em saneamento; Amazônia lidera piores índices climáticos

Pesquisa apresentada no maior simpósio brasileiro de recursos hídricos revela que o acesso à água e ao saneamento é pior no Norte e no Nordeste, enquanto a Amazônia lidera os piores índices de ação climática. O Nordeste surpreende com desempenho acima do esperado no ODS 13, resultado de décadas de adaptação ao semiárido.
desigualdade hídrica e climática nos municípios brasileiros

Mapeamento de todos os municípios brasileiros mostra que acesso à água e ação contra o aquecimento global seguem lógicas regionais opostas no país

Um estudo apresentado no XXVI Simpósio Brasileiro de Recursos Hídricos, realizado em Vitória (ES) em novembro de 2025, mapeou o desempenho de todos os 5.570 municípios brasileiros em dois compromissos assumidos pelo Brasil perante a ONU: garantir água potável e saneamento para toda a população, e adotar medidas concretas contra as mudanças climáticas. O resultado é um retrato de dois Brasis que raramente se sobrepõem: o Sul e o Sudeste concentram os melhores índices de saneamento, enquanto a Amazônia reúne as piores notas em clima — e o Nordeste, de forma inesperada, se sai melhor no quesito climático do que no hídrico.

O que são os ODS 6 e 13 — e por que importam

Em 2015, os 193 países membros da ONU aprovaram a Agenda 2030, um plano global com 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) — metas mensuráveis que cada país se comprometeu a cumprir até o final desta década. Cada objetivo tem indicadores próprios, monitorados por agências internacionais e institutos nacionais de estatística.

O ODS 6 trata de água e saneamento. Na prática, mede se a população tem acesso à rede de abastecimento de água, se o esgoto é coletado e tratado, e qual é a incidência de doenças causadas por saneamento inadequado — como diarreias, hepatite A e leptospirose. É um indicador direto de saúde pública e qualidade de vida.

O ODS 13 trata de clima. Para os municípios brasileiros, isso se traduz em quatro medidas: emissões de CO₂ por habitante, concentração de focos de calor (queimadas), percentual de área desmatada e existência de estratégias locais para prevenção de desastres naturais. Em outras palavras: o município queima, desmata e não se prepara para enchentes e secas — ou faz o contrário.

Os dois objetivos são inseparáveis na prática. Secas destroem sistemas de abastecimento, enchentes contaminam mananciais, queimadas afetam a qualidade da água nas bacias hidrográficas. Mas o mapeamento mostra que, no território brasileiro, eles têm geografias distintas — e isso é justamente o que o estudo veio revelar.

O mapa que confirma — e o que surpreende

A pesquisa, assinada por Tereza Margarida Xavier de Melo Lopes e colegas das universidades federais do Ceará e do Paraná, utilizou o Índice de Moran — ferramenta estatística que mede se municípios vizinhos tendem a ter desempenho parecido. Valores mais próximos de 1 indicam agrupamento: onde o saneamento vai mal, os vizinhos também vão mal. O índice chegou a 0,541 para o ODS 6 e a 0,692 para o ODS 13 — ambos estatisticamente significativos ao nível de 1%, o que descarta qualquer hipótese de aleatoriedade nos padrões encontrados.

Traduzindo para o leitor não especializado: não é coincidência que municípios pobres em saneamento se concentrem nas mesmas regiões. Há uma lógica territorial que perpetua a desigualdade — e o mapa mostra onde ela está.

Os dados vieram do Índice de Desenvolvimento Sustentável das Cidades – Brasil (IDSC-BR), plataforma do Sustainable Development Solutions Network (SDSN) que consolida informações do SNIS, IBGE, MapBiomas, SEEG Municípios e DATASUS, com referência ao ano de 2024.

Saneamento: 774 municípios no fundo do poço

No ODS 6, 967 municípios formaram o grupo de melhores desempenhos — e seus vizinhos também têm bons resultados. Esses aglomerados se concentram no Sudeste e no Centro-Oeste, especialmente em São Paulo, Minas Gerais e Goiás, onde a infraestrutura de saneamento é mais consolidada.

Do outro lado, 774 municípios estavam no grupo dos piores, rodeados por vizinhos igualmente mal avaliados. A maioria fica no Norte e no Nordeste. Os números do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), com referência a 2022, contextualizam o quadro: a cobertura de água alcançava 84,9% da população nacional, mas caía para 64,2% na região Norte e 76,9% no Nordeste. O esgotamento sanitário era ainda mais desigual — apenas 56% de cobertura no país como um todo.

Clima: a Amazônia no cluster do problema

No ODS 13, 1.233 municípios aparecem no grupo de melhor desempenho climático, concentrados sobretudo no Sudeste e no Nordeste — regiões com menor concentração de queimadas e com estrutura institucional mais consolidada para políticas de baixo carbono.

O dado que chama atenção está no outro extremo: a Amazônia se configurou como um extenso cluster de piores resultados, com estados como Amazonas, Acre e Roraima entre os mais críticos. Foram 918 municípios nessa categoria — mais do que os 774 do pior grupo no ODS 6. O padrão é explicado pela alta concentração de focos de calor e pela baixa implementação de estratégias de gestão de riscos e prevenção a desastres — dois dos quatro indicadores que compõem o ODS 13 no IDSC-BR.

Aqui mora uma das contradições do mapeamento: a Amazônia tem cobertura florestal densa, o que poderia sugerir maior resiliência climática. Mas floresta sem política de proteção não conta ponto no indicador. O Centro-Oeste também aparece mal na ação climática, ainda que por dinâmica diferente — pressão do desmatamento e da agropecuária intensiva sobre os indicadores de emissão e de queimadas.

O paradoxo nordestino

O Nordeste é o caso mais inesperado da pesquisa. No saneamento, a região aparece no grupo dos piores — padrão esperado, dadas as décadas de subinvestimento em infraestrutura hídrica. Mas no ODS 13, o desempenho é relativamente melhor do que o esperado.

A pesquisa aponta que a convivência histórica com o semiárido ajuda a explicar esse comportamento: as políticas de adaptação à seca, como cisternas e sistemas de reuso hídrico, acabaram fortalecendo a capacidade regional de resposta às mudanças climáticas. É um acúmulo de décadas que o indicador captura — não uma política recente. O mesmo histórico que gerou vulnerabilidade hídrica produziu, paradoxalmente, maior resiliência climática.

É o tipo de resultado que deveria importar mais do que importa nos debates sobre federalismo e alocação de recursos.

Por que municípios vizinhos se parecem tanto

Os correlogramas produzidos pelo estudo — gráficos que medem como a semelhança entre municípios varia conforme a distância — mostraram que até 910 quilômetros de distância a tendência de vizinhos terem desempenho parecido é mais forte para os dois ODS. A partir daí, a correlação cai. Isso confirma o que a geografia já sugere: as condições institucionais, climáticas e históricas se propagam regionalmente. Elas não saltam fronteiras estaduais com facilidade — e políticas que ignoram essa lógica territorial tendem a ser menos eficazes.

Fonte utilizada

LOPES, Tereza Margarida Xavier de Melo; SILVA, Samiria Maria Oliveira da; SOUSA FILHO, Francisco de Assis de; FERREIRA, Brenda Camila. Desigualdades hídrico-climáticas no Brasil: uma análise de autocorrelação espacial dos ODS 6 e 13. In: XXVI Simpósio Brasileiro de Recursos Hídricos (ISSN 2318-0358), Vitória (ES), novembro de 2025. Associação Brasileira de Recursos Hídricos (ABRH). 10 p.

Dados primários: IDSC-BR/SDSN (2024); SNIS (2022); IBGE (2023); MapBiomas; SEEG Municípios; DATASUS.

-A imagem que ilustra esta matéria foi criada utilizando IA.

Leia também:

Montagem falsa no BBB26 leva equipe de Juliano Floss à Justiça

Nova ‘Lei Felca’ entra em vigor e obriga redes a verificar idade de menores

Dino extingue aposentadoria compulsória como pena para juízes

Em MT uma mulher é assassinada a cada 7 dias: feminicídios disparam 11% e deserto de proteção mantém MT no topo letal pelo 5º ano

EXCLUSIVO: ex-assessor acusa deputado Dr. João de confiscar salários e manter funcionários fantasmas;VÍDEO

Glifosato aparece em 31 de 75 ultraprocessados testados pelo Idec, saiba quais

[the_ad_group id="301"]

PROPAGANDA

MAIS NOTÍCIAS

CATEGORIAS

.

SIGA-NOS

PROPAGANDA

PROPAGANDA

PROPAGANDA

PROPAGANDA