Revisão de 109 estudos mostra que práticas sobre resíduos sólidos ficam presas na técnica e deixam de lado as causas sociais e econômicas do descarte inadequado
A educação ambiental sobre resíduos sólidos chegou às escolas brasileiras. Mas parou no básico: separar o lixo nas cores certas, reciclar papel, montar composteira. Uma revisão integrativa de 109 publicações científicas produzidas entre 2018 e 2022 mostra que a maioria das práticas escolares trata o problema do lixo como questão técnica e individual, sem debater quem produz, quem descarta e quem paga a conta ambiental. O trabalho é de pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), publicado em 2026 na revista Educação em Revista, da UFMG.
Um país que produz 81,8 milhões de toneladas
Em 2022, o Brasil gerou 81,8 milhões de toneladas de resíduos sólidos, segundo a Abrelpe. Quase 39% desse total foi descartado em locais inadequados, afetando 77,5 milhões de pessoas. No plano global, o Banco Mundial estimou, em 2018, que a produção mundial de resíduos chegou a 2,01 bilhões de toneladas naquele ano — com projeção de crescimento de 60% até 2030.
A escola entrou nesse debate como aposta pedagógica: se crianças aprenderem a lidar com o lixo, o problema diminui. A revisão da Fiocruz e da UFRJ mapeou o que efetivamente foi ensinado nesse campo entre 2018 e 2022, consultando o Portal de Periódicos da Capes, o Catálogo de Teses e Dissertações, a Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações e os anais do Enpec e do Conedu.
Metade das pesquisas no Nordeste
Dos 931 estudos inicialmente localizados, 109 foram selecionados. A distribuição geográfica é desigual: 42% das publicações se concentraram no Nordeste, com 27% no Sul. O Centro-Oeste aparece com apenas dois estudos — 2% do total.
O ensino fundamental foi o espaço mais frequente dessas experiências: 60% dos estudos. As escolas públicas dominam o campo — 84% das instituições investigadas, com maioria estadual (50%) e municipal (37%).
Aulas sem continuidade, pesquisadores de fora
A modalidade mais comum foi a aula expositiva, presente em 79 dos 109 trabalhos. Aulas práticas apareceram em 49, e projetos em 46. Nove em cada dez atividades foram pontuais — duração média de 3,13 meses. Apenas 10% dos estudos mencionaram ações prévias de educação ambiental ou coleta seletiva nas escolas analisadas.
Um dado que explica muito: 88% das ações foram conduzidas por pesquisadores externos à escola, com somente cinco estudos realizados em parceria com professores da própria instituição. A educação ambiental chega como visita, não como rotina.
Os temas centrais identificados foram gestão de resíduos (82 estudos, 75% do total) e consumo (31 estudos, 28%). Na gestão, a coleta seletiva liderou com 47 publicações, seguida por reutilização (32) e reciclagem (29).
Separar o lixo sem entender de onde ele vem
Esse é o ponto mais crítico da revisão. A maioria das práticas abordou resíduos de forma técnica — como separar o lixo nas cores corretas, como produzir sabão com óleo descartado, como construir uma composteira. O que ficou sistematicamente de fora: por que tanto lixo é produzido, quem decide isso e quem arca com as consequências.
A análise registra que 41% das práticas sobre coleta seletiva tiveram foco predominantemente técnico. Um exemplo da revisão: crianças da educação infantil pintaram lixeiras coloridas e aprenderam a identificar onde descartar cada resíduo. Sem qualquer debate sobre a cadeia produtiva que gera aquele material descartado.
Esse padrão é o que o campo acadêmico chama de educação ambiental pragmática — “cada um faz a sua parte”, enquanto o sistema permanece intacto. A educação ambiental crítica, referencial adotado pelos autores, propõe o contrário: entender a dimensão política da crise ambiental, questionar estruturas econômicas e responsabilizar empresas e poder público, não apenas o consumidor.
Consumismo: tema quase ausente
O consumo apareceu em 28% dos estudos. Consumo consciente foi o subtema dominante, com 26 trabalhos. Já o consumismo — que exige questionar o modelo econômico, não apenas o comportamento individual — apareceu em apenas sete publicações.
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) enquadra o consumo consciente como tema transversal contemporâneo, com foco no indivíduo. Para os autores da revisão, esse recorte é insuficiente para tratar o conflito socioambiental dos resíduos em sociedades capitalistas, onde a desigualdade econômica limita as próprias escolhas de consumo.
Somente 32 dos 109 estudos realizaram algum tipo de avaliação após as ações educativas. Nenhum avaliou impacto de longo prazo.
Crianças pequenas e jovens adultos, dois esquecidos
Educação infantil e Educação de Jovens e Adultos (EJA) tiveram apenas cinco estudos cada — 4% do total em cada segmento. A revisão indica que esse déficit aparece também em pesquisas internacionais, o que aponta para um padrão global, não apenas uma lacuna brasileira.
Próximos passos
Os autores recomendam que pesquisas futuras testem metodologias ativas, como ensino por investigação e aprendizagem baseada em problemas, como alternativas às intervenções pontuais que dominam o campo. Também indicam a necessidade de estudos voltados à educação infantil e à EJA e de investigações sobre os obstáculos à implementação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) no ambiente escolar. O projeto Escolas Lixo Zero é citado como exemplo de iniciativa com potencial de integração da gestão de resíduos ao cotidiano escolar.
Fonte:
ISIDORO-GONÇALVES, Lorrayne; UNGER, Roberto José Gervásio; CARVALHO, Anna Cristina Calçada. Resíduos sólidos na educação básica brasileira à luz da educação ambiental crítica: uma revisão integrativa. Educação em Revista, Belo Horizonte, v. 42, e54644, 2026. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/0102-469854644
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