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El Niño no radar: Brasil precisa se preparar para calor, seca e chuva extrema

A NOAA elevou para 82% a chance de El Niño em maio-julho de 2026 e para 96% a persistência até o início de 2027. INPE, INMET, Funceme e Censipam apontam probabilidade superior a 80% e alerta para água, energia, agricultura e saúde. Em Mato Grosso, o foco recai sobre calor, baixa umidade e risco de queimadas no segundo semestre.

Probabilidade do fenômeno subiu para 82% em maio-julho de 2026; em Mato Grosso, alerta principal é para temperatura elevada e risco de queimadas

A NOAA elevou para 82% a chance de formação do fenômeno no trimestre maio-junho-julho de 2026 e para 96% a probabilidade de persistência até o início de 2027, em discussão diagnóstica divulgada em 14 de maio. No Brasil, nota técnica conjunta de INPE, INMET, Funceme e Censipam aponta probabilidade superior a 80% e alerta para impactos sobre água, energia, agricultura, saúde e defesa civil. Para Mato Grosso, a leitura mais segura é de calor mais persistente, baixa umidade e elevação do risco de incêndios florestais no segundo semestre.

El Niño no radar: o que mudou no diagnóstico americano

O Pacífico equatorial segue oficialmente em condição neutra, mas o sistema de alerta da NOAA está acionado: o El Niño Watch foi mantido no boletim de 14 de maio. A leitura de 82% para maio-junho-julho é maior que a da apresentação semanal anterior, de 11 de maio, que indicava 61% de chance de El Niño e 80% de neutralidade para abril-junho. A diferença reflete a atualização formal da discussão diagnóstica mensal, não contradição entre os documentos.

A distribuição por intensidade muda a leitura. Para o trimestre maio-junho-julho, a NOAA atribui 72% à categoria fraco e apenas 10% à moderada. A partir de julho-setembro, sobem as chances de El Niño moderado e, na virada do ano, o cenário de El Niño forte e muito forte concentra mais da metade das probabilidades. Mesmo nesse desenho, o órgão americano faz uma ressalva: a intensidade do El Niño não corresponde necessariamente à intensidade dos impactos. Eventos mais fortes aumentam o risco de determinados efeitos, mas não garantem extremos em todas as regiões.

Os sinais oceânicos sustentam a transição. As anomalias de temperatura da superfície do mar nas regiões Niño estão entre +0,4°C e +1,0°C, e o calor acumulado no oceano superior, entre 0 e 300 metros, fortaleceu-se nos últimos dois meses no Pacífico equatorial centro-leste e leste. Esse aquecimento subsuperficial importa porque pode alimentar a superfície e favorecer o acoplamento entre oceano e atmosfera.

Convergência das fontes brasileiras

A leitura americana converge com o que os órgãos brasileiros vêm registrando. A nota técnica conjunta de INPE, INMET, Funceme e Censipam, publicada em abril, já trazia probabilidade superior a 80% de configuração do El Niño no segundo semestre de 2026, com possibilidade de persistência até pelo menos o início de 2027. A Conab, no oitavo levantamento da safra 2025/26, incorporou a leitura do IRI e registrou 88% de chance de transição da neutralidade para El Niño no mesmo trimestre maio-junho-julho usado pela NOAA.

A diferença entre 82% e 88% vem do método e da data de cada síntese. Os três centros convergem para o mesmo diagnóstico: alta probabilidade de formação do El Niño, com a força máxima do evento ainda em aberto.

Repercussões regionais

Os efeitos típicos do El Niño no Brasil já estão mapeados na nota técnica brasileira. Na Região Sul, o cenário mais provável é de chuvas acima da média, com possibilidade de extremos associados a inundações. O mecanismo envolve fortalecimento da corrente de jato subtropical, transporte mais intenso de umidade da Amazônia para os subtrópicos e ciclones extratropicais mais intensos.

Na Região Norte e no norte do Nordeste, a tendência é oposta: redução das chuvas, com a Amazônia Legal exposta a aumento do risco de fogo e queda no nível dos rios. O documento federal lembra que a seca de 2015, associada ao último El Niño forte, elevou a incidência de fogo em cerca de 36% em relação à média dos 12 anos anteriores. O déficit de precipitação nas bacias amazônicas pode afetar hidrelétricas, pesca, agricultura, navegabilidade e o acesso de populações ribeirinhas a água, alimentos e atendimento de saúde.

No Sudeste, a variabilidade é maior. O fenômeno pode deslocar a Zona de Convergência do Atlântico Sul mais para o sul, favorecer chuvas acima da média no sudeste de São Paulo, centro-sul do Rio de Janeiro e em Minas Gerais e, ao mesmo tempo, reduzir os volumes em áreas mais ao norte, com episódios de calor mais prolongado.

Mato Grosso: calor, baixa umidade e queimadas

Segundo a nota técnica federal, o Centro-Oeste não tem correlação elevada com El Niño nem com La Niña, e por isso o fenômeno não permite prever isoladamente chuva ou seca no Estado. A tendência apontada é de temperaturas mais elevadas no fim do inverno e na primavera, com destaque para Mato Grosso, Goiás e Distrito Federal, redução da umidade relativa do ar e elevação do risco de queimadas.

Em vez de seca generalizada, o alerta para MT recai sobre o conjunto calor persistente, ar seco, fogo e irregularidade espacial das chuvas, especialmente no norte do Estado. No curto prazo, o INMET projeta para maio temperaturas médias até 1°C acima da climatologia em grande parte de Mato Grosso e chuva abaixo da média no extremo sudoeste. A previsão semanal de 11 a 18 de maio indica chuvas irregulares a partir de 15 de maio, mas os volumes acima de 60 milímetros estão concentrados no extremo sul de Mato Grosso do Sul, não em MT.

No monitoramento de seca, o boletim do Cemaden de abril mostra atenuação geral no país, com redução de 251 para 85 municípios em seca severa ou extrema. Mato Grosso, porém, segue como destaque do Centro-Oeste nesse recorte, mesmo com redução da área afetada. O boletim de impactos de extremos publicado em abril, com dados de março, registra atenção para a bacia do rio Paraguai, que abrange o Pantanal, com risco de intensificação da seca hidrológica.

Agro: milho segunda safra e algodão

O impacto mais imediato no agronegócio mato-grossense não recai sobre a soja, cuja colheita já foi finalizada no Estado. A atenção está concentrada na segunda safra de milho da temporada 2025/26 e nas lavouras de algodão. A Conab estima 108,455 milhões de toneladas de milho na segunda safra brasileira, com produtividade média de 6.096 quilos por hectare; o número é 4,2% inferior ao ciclo anterior, ainda que a área cultivada seja 2,1% maior.

Em Mato Grosso, o desenvolvimento das lavouras de milho está classificado como satisfatório, com plantio dentro da janela climática recomendada e perspectiva de produtividades recordes. A ressalva é que, a partir do início de abril, a redução nas precipitações afetou o potencial em áreas do Estado e em Paraná, Minas Gerais e Goiás; as próximas semanas de chuva devem confirmar ou não as estimativas. No algodão, o cenário recente foi favorável em MT, e a atenção desloca-se para a sanidade, com pressão do complexo de lagartas e do bicudo-do-algodoeiro e janelas mais restritas para aplicação de defensivos.
A próxima discussão diagnóstica mensal da NOAA está marcada para 11 de junho e deve indicar se o El Niño se consolida ou se a transição se atrasa. No mesmo intervalo, os órgãos brasileiros tendem a atualizar suas projeções para o segundo semestre. Para o agro de Mato Grosso, o ciclo decisivo de chuvas na segunda safra de milho e o monitoramento sanitário do algodão exigem atenção simultânea. A aproximação do período seco do Centro-Oeste, por sua vez, eleva o peso das ações de prevenção de incêndios no Pantanal, no Cerrado e na Amazônia mato-grossense.

 

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