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Amazônia seca, planalto seco e cone sul quente: OMM coloca o agro do Brasil em zona de pressão tripla em relatório

Relatório da OMM coloca o Brasil entre as áreas de seca e calor anômalos de 2025, com impacto direto na safra 2025/26 e no trabalho rural.
impacto do aquecimento global no agronegócio brasileiro / safra 2025 2026 clima

Relatório anual da agência climática da ONU confirma seca persistente na bacia amazônica e no planalto brasileiro, anomalia de calor no cone sul, oceano em recorde de temperatura pelo nono ano seguido e Dipolo do Índico em fase negativa pronunciada. Para o agro concentrado em Mato Grosso e no Matopiba, a leitura é de calendário hídrico mais instável e risco ocupacional crescente. No mundo, 1,2 bilhão de trabalhadores já operam sob calor, e a dengue bateu recorde de casos.

A nova edição do relatório State of the Global Climate, publicada em Genebra pela Organização Meteorológica Mundial (OMM, agência climática da ONU), confirma que a seca de longo prazo ainda não cedeu na bacia amazônica. O planalto brasileiro fechou 2025 mais seco que a média, e o cone sul da América do Sul, que inclui o Rio Grande do Sul, aparece entre as áreas com anomalia significativa de calor.

A OMM não cita Mato Grosso nominalmente. Ainda assim, o maior produtor de grãos do país está no meio dessa geografia. Parte da umidade que alimenta o calendário da soja e do milho-safrinha no Centro-Oeste vem do corredor que sai da bacia amazônica. E o planalto brasileiro, categoria usada pela OMM, cobre extensões de Mato Grosso, Goiás, Tocantins, Maranhão e Bahia — inclui o Matopiba. Mato Grosso também divide fronteira com a Amazônia, bioma que terminou 2025 ainda em déficit hídrico segundo a OMM.

O ano de 2025 ficou em segundo ou terceiro lugar na lista dos anos mais quentes já registrados, com anomalia de 1,43 °C acima do período pré-industrial (1850-1900). Segundo o relatório, “os últimos onze anos, entre 2015 e 2025, foram os onze anos mais quentes já registrados, e os três últimos — 2023, 2024 e 2025 — figuram como os três mais quentes em todas as nove bases de dados utilizadas” (tradução livre da reportagem).

Para o produtor rural, isso significa calendário de chuvas mais instável e safra mais exposta a estresse hídrico e térmico. A pressão chega também no custo: seguro agrícola e insumos respondem ao risco climático crescente. No mundo, 1,2 bilhão de trabalhadores já operam sob risco de calor, e a dengue bateu recorde em 2024, com 14 milhões de infecções e 9 mil mortes.

A CONTA NO AGRO

Amazônia ainda seca: o que isso significa para as chuvas do Centro-Oeste

O relatório da OMM é direto sobre a Amazônia: “a seca de longo prazo continuou a persistir em muitas partes da América do Sul, particularmente na bacia amazônica, apesar de as chuvas em 2025 terem ficado mais próximas da média do que nos dois anos anteriores” (tradução livre da reportagem). Níveis em pontos-chave da bacia, como o Rio Negro em Manaus, subiram em relação aos mínimos de 2024 e voltaram à média no fim do ano. O alívio não desfaz o déficit. Dois anos seguidos de chuva abaixo da média deixam marca no armazenamento subterrâneo, nas cabeceiras de rios e na vegetação, e esse déficit se recupera lentamente.

Essa informação importa para quem planta em Mato Grosso, Tocantins e oeste da Bahia por um motivo objetivo. Boa parte da umidade que gera chuva no Centro-Oeste entre outubro e abril vem do fluxo de ar que atravessa a bacia amazônica — o que pesquisadores costumam chamar de “rios voadores”. Uma bacia em estresse hídrico crônico tende a exportar menos umidade. O relatório não faz essa ponte com MT de forma nominal, mas ao mesmo tempo classifica o “planalto brasileiro” (que inclui o Cerrado do Centro-Oeste e do Matopiba) como uma das regiões mais secas que o normal em 2025.

Cone sul mais quente: pressão sobre soja e milho gaúcho

Na outra ponta do mapa, o relatório lista a América do Sul meridional entre as áreas com anomalia significativa de calor em 2025. A faixa inclui o Sul do Brasil, Uruguai, Argentina e Paraguai — região que divide com Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Paraná o grosso da produção nacional de soja, milho e trigo.

A La Niña voltou a se formar no fim de 2025 — configuração que historicamente reduz chuva no Sul do Brasil e aumenta precipitação no Norte e no Nordeste. O Dipolo do Oceano Índico, segundo fator climático destacado pelo relatório, ficou na fase negativa durante a maior parte do ano. Em novembro, o índice marcou o terceiro valor mais baixo da série desde 1993.

Oceano em recorde pelo nono ano seguido: de onde vem o calor

O capítulo central do relatório trata do oceano. Em 2025, o conteúdo de calor dos mares bateu recorde pelo nono ano seguido. Segundo a OMM, 91% do excesso de energia acumulado no sistema climático está no oceano. Outros 5% aquecem o continente, 3% derretem gelo e apenas 1% aparece no termômetro do ar.

Mesmo com La Niña em fases do ano, 90% da superfície oceânica passou por ao menos uma onda de calor marinha em 2025. O Atlântico Norte, cuja temperatura influencia a posição das bandas de chuva que cruzam o Brasil, manteve anomalia positiva. A velocidade do aquecimento oceânico nas duas últimas décadas é mais do que o dobro da registrada entre 1960 e 2005.

Oceano mais quente significa ciclone tropical mais intenso em outras latitudes — e com ciclone vem porto paralisado, rota desviada e preço de fertilizante no teto. A OMM descreve assim: “eventos extremos têm impactos em cascata sobre os sistemas agroalimentares. Recentemente, altas temperaturas, seca, enchentes e volatilidade de preços minaram a produção agrícola e o acesso a dietas saudáveis, especialmente em países de baixa e média renda” (tradução livre da reportagem).

Pragas, ferrugem e fronteiras: o que o calor move na lavoura

Diz o relatório: “a insegurança alimentar induzida pelo clima é hoje vista como um risco, com efeitos em cascata sobre a estabilidade social, a migração e a biossegurança, por meio da disseminação de pragas vegetais e doenças animais” (tradução livre da reportagem). Para o agro exportador brasileiro, em especial a pecuária de Mato Grosso e o complexo soja, o impacto já aparece no dia a dia. Pragas como a cigarrinha-do-milho e doenças como a ferrugem-asiática da soja exigem revisão periódica do calendário de manejo. Clima mais quente tende a empurrar o problema para regiões antes menos afetadas.

Custos e extremos de 2025 que chegam ao bolso

O ano teve eventos cuja conta recaiu sobre cadeias que o Brasil ajuda a abastecer. A Turquia teve o ano mais seco desde 1964. O Irã registrou precipitação 50% abaixo da média em 12 meses até junho e produção de cereais bem abaixo da normal. Japão, China e Coreia tiveram o verão mais quente da história. Ciclones no sul da Ásia (Senyar e Ditwah) mataram mais de 2 mil pessoas e somaram US$ 20 bilhões em prejuízos em novembro. Cada um desses episódios pressiona mercados de trigo, arroz, óleos vegetais e fertilizantes — variáveis com peso direto no custo da safra brasileira.

Além da Amazônia e do planalto brasileiro mais secos, o relatório registra “precipitação anormalmente alta” no Gran Chaco central e no Pampa meridional — sinal que afeta o calendário do trigo e do arroz no cone sul.

A CONTA NA SAÚDE

1,2 bilhão de trabalhadores sob calor, com agricultura entre os setores mais afetados

O relatório separa um estudo de caso só para a saúde, com dois blocos: estresse térmico e dengue. Diz a OMM: “mais de um terço da força de trabalho global (1,2 bilhão de pessoas) está exposta a risco de calor no trabalho em algum momento do ano, com maior impacto nos setores da agricultura e construção” (tradução livre da reportagem). E emenda: “as temperaturas crescentes aumentam fadiga, lesões, desidratação, sobrecarga renal e mental, além de perdas de produtividade e de meios de subsistência” (tradução livre da reportagem).

A OMM e a OMS publicaram em agosto de 2025 um guia técnico conjunto sobre estresse térmico no trabalho, com recomendações para governos, empregadores e organizações de trabalhadores. Entre as recomendações: revisar jornadas, garantir sombra e água no posto de trabalho e integrar boletins meteorológicos às decisões operacionais do campo.

No Brasil, o tema tem efeito direto na colheita da soja, do milho, do café, da laranja e na produção pecuária. Em Mato Grosso, o plantio e a colheita acontecem em janelas de calor elevado; em boa parte do estado, as temperaturas máximas no fim da primavera e no início do verão já operam acima de 35 °C com frequência.

Dengue em recorde, e o Aedes em novas áreas

O segundo eixo do estudo de caso é a dengue. Segundo o relatório, “cerca de metade da população mundial está em risco de dengue, com uma estimativa de 100 a 400 milhões de infecções ocorrendo a cada ano” (tradução livre da reportagem). Segundo a OMM, “os casos notificados [de dengue] estão atualmente no maior nível já registrado” (tradução livre da reportagem). Um artigo publicado em 2025 no International Journal of Infectious Diseases, citado pela OMM, aponta 14 milhões de casos e 9 mil mortes em 2024 — recorde da série histórica.

Segundo o relatório, temperaturas mais altas aumentam a taxa de picadas e encurtam o período de incubação do vírus. A chuva irregular cria novos criadouros e expande o alcance geográfico do Aedes aegypti, alongando a janela de transmissão nas áreas onde a doença já é endêmica.

No Brasil, dengue e calor chegam juntos onde o sistema de saúde é mais fraco: no campo. A força de trabalho é mais exposta, e os postos de atendimento são mais escassos.

Alertas de calor: metade do mundo ainda no escuro

A OMM registra uma lacuna operacional: segundo dados de 2023 citados no relatório, apenas cerca de metade dos países oferece sistemas de alerta precoce de calor voltados para o setor de saúde. E um número ainda menor integra informação climática aos processos de decisão do sistema público de saúde. A agência recomenda: “a vigilância de doenças informada pelo clima, os sistemas de alerta precoce e a modelagem preditiva são, portanto, ferramentas essenciais para antecipar riscos à saúde e apoiar uma ação tempestiva de saúde pública” (tradução livre da reportagem).

Em Mato Grosso e em boa parte do Brasil rural, o aviso ainda chega tarde para quem está no trator, no caminhão e no galpão. O relatório chama esse passo seguinte de “early action”: tirar o alerta do boletim e transformar em decisão operacional.

Os grandes extremos de 2025

O relatório registra: “a mudança climática provocada pelo ser humano já afeta muitos extremos meteorológicos e climáticos em todas as regiões do planeta” (tradução livre da reportagem). O Texas registrou 135 mortes em enchentes em julho. Espanha fechou com 390 mil hectares queimados, cinco vezes a média 2006-2024. O furacão Melissa atingiu a Jamaica em 28 de outubro com ventos sustentados de 298 km/h, empatado como o landfall mais intenso já registrado no Atlântico Norte. Nas Filipinas, o tufão Kalmaegi deixou 253 mortos em novembro.

Diz ainda o relatório: “essas mudanças rápidas e de grande escala no sistema terrestre têm impactos em cascata sobre os sistemas humanos e naturais, contribuindo para insegurança alimentar e deslocamento onde as ameaças se somam a alta vulnerabilidade e capacidade adaptativa limitada” (tradução livre da reportagem).

Fonte: World Meteorological Organization (WMO). State of the Global Climate 2025 (WMO-No. 1391). Genebra, 2026. DOI: https://doi.org/10.59327/WMO/S/CRI/SOC/1. Lead author: John Kennedy (WMO). Contribuições brasileiras: INMET, UNESP/CEMADEN e UFRJ.

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