Ministério da Defesa anuncia 1.638 militares na Amazônia Ocidental, com apoio de Polícia Federal, PM do Amazonas, Ibama e Censipam; balanço de 2025 trouxe R$ 225 milhões em prejuízos ao crime, mas apuração independente registrou cerca de 300 dragas em rios da fronteira com a Colômbia
A Operação Ágata Amazônia 2026 está em curso na Amazônia Ocidental, com 1.638 militares em ação integrada à Polícia Federal, à Polícia Militar do Amazonas, ao Ibama e ao Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), conforme comunicado do Ministério da Defesa de 30 de abril. A nova edição volta a operar em municípios de fronteira como São Gabriel da Cachoeira e Tabatinga.
A edição anterior, encerrada em 2025 sob o Comando Conjunto Apoena, destruiu 34 estruturas de garimpo, segundo o Exército. O balanço oficial atribuiu R$ 225 milhões em prejuízos ao crime organizado, sem detalhar a metodologia do cálculo. Em 2023, contagens em campo estimaram cerca de 300 dragas em rios da fronteira com a Colômbia, das quais só 29 foram destruídas pela operação daquele ano. A diferença entre os números oficiais e a contagem independente nunca foi explicada publicamente pelo Ministério da Defesa.
Os números declarados em cada edição
Entre 2023 e 2024, o prejuízo declarado pelo Exército passou de R$ 71,3 milhões para R$ 600 milhões — aumento de 8,4 vezes em um ano.
A operação de 2023, sob o Comando Conjunto Uiara, mobilizou 1,32 mil militares, apreendeu 1,115 tonelada de drogas e destruiu 29 dragas. Já em 2024, sob o Conjunto Upiara, foram 1,5 mil militares e 56 agentes de 14 órgãos civis, em área de 600 mil km², com apreensão de 4,2 toneladas de pasta base de cocaína, 704 kg de maconha e 120 embarcações neutralizadas.
A edição de 2025, no Vale do Javari e em São Gabriel da Cachoeira, derrubou 34 estruturas de extração ilegal, apreendeu 20 embarcações, 1 tonelada de maconha skunk, 184 kg de cocaína e fez 13 prisões. A fase final incluiu ação espelhada com forças colombianas no rio Puruê, onde foram inutilizadas oito estruturas de garimpo no lado da Colômbia. A edição de 2026 segue em andamento, com balanços parciais a serem divulgados pelo Ministério da Defesa.
O que a contagem em campo mostra
Apuração jornalística independente publicada em 2023 estimou cerca de 300 dragas operando nos rios Puruê e Juami, próximos à fronteira com a Colômbia, e calculou que os 29 equipamentos destruídos pela operação daquele ano representavam cerca de 10% das dragas então em operação. A apuração registrou ainda relatos de garimpeiros que retiraram máquinas dias antes da chegada das forças, após rumor de operação iminente.
Em nenhum dos balanços oficiais das três últimas edições o Ibama ou o Comando Militar da Amazônia detalharam medidas que substituíssem a destruição de equipamentos. Em relatório de 2024, o Idesf registra divergência: sem alternativa econômica para quem vive do garimpo, a destruição de equipamentos não interrompe a atividade nas cidades onde ela é a principal fonte de renda.
O mercúrio que chega à mesa em Manaus, Cuiabá e Belém
Para extrair ouro do leito dos rios, garimpeiros usam mercúrio. O metal pesado contamina a água e o sedimento, e o peixe contaminado é vendido em feiras de Manaus, Cuiabá e Belém. Em 2024, a Ágata Amazônia apreendeu 4,1 kg do metal e estimou em 110 kg o volume que deixou de ser usado após a destruição das dragas.
O metilmercúrio acumula no organismo de quem come o peixe contaminado e está associado a danos neurológicos, principalmente em crianças e gestantes. Tucunaré, dourada e tambaqui vêm de bacias afetadas pela mineração ilegal.

Atendimento médico onde não há estrada
A edição de 2025 realizou cerca de 52 mil procedimentos de saúde em 76 localidades isoladas — quase o dobro dos 27,6 mil registrados em 2024 — e distribuiu 134 mil medicamentos. Houve resgates aeromédicos na Terra Indígena Vale do Javari, área em que o acesso depende de embarcação ou avião.
Os municípios atendidos incluem São Gabriel da Cachoeira, Japurá, Tabatinga e Atalaia do Norte. A edição de 2026 está em curso e o Ministério da Defesa não detalhou ainda o cronograma de atendimento humanitário desta fase.

Militarização da Amazônia em debate
O Idesf, em relatório de 2024 sobre defesa e segurança nas fronteiras amazônicas, aponta a ausência de consulta prévia a comunidades tradicionais como o principal problema jurídico das operações que destroem equipamentos e bens em seu entorno, e acrescenta que a presença militar crescente na região entra em conflito com a proteção dos direitos humanos em territórios indígenas e ribeirinhos. Monografia do CAEPE/ESG e estudo da Biblioteca Digital do Exército, ambos do mesmo ano, chegam a conclusão semelhante quanto à falta de consulta.
Greenpeace e Observatório do Clima criticam publicamente o garimpo ilegal e a contaminação por mercúrio, mas a reportagem não localizou em comunicados oficiais das duas organizações posição específica sobre a Ágata Amazônia como operação militar. No município de Japurá, no Amazonas, parte dos moradores descreveu o garimpo como única fonte de renda local e criticou a destruição de equipamentos.
Sem oposição parlamentar identificada
Ao apresentar o balanço de 2025, o Comandante do Comando Conjunto Apoena afirmou que o posicionamento dos meios mais próximos da fronteira permitiu um resultado efetivo contra a criminalidade e que as Forças Armadas continuarão atuando “para coibir esses crimes e contribuir com a nossa soberania”.
A reportagem não localizou em fontes públicas declarações de autoridades políticas contestando nominalmente a Ágata Amazônia, incluindo a edição de 2026. As críticas encontradas miram o Ibama, pela destruição de máquinas, e prefeituras de municípios dependentes do garimpo.
Em edições anteriores, a Defesa divulgou os balanços poucos meses após o encerramento das operações. Para a Ágata Amazônia 2026, ainda em curso, não há data anunciada.
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