Dissertação de mestrado analisa como a combinação de fronteiras porosas, pobreza e crime organizado transforma a região em território de exploração humana
A Amazônia Legal brasileira concentra 723 dos 1.907 casos de tráfico de pessoas notificados pelo Sistema Nacional de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) entre 2010 e 2022 — quase 38% do total nacional. A constatação é da dissertação de mestrado de Karla Larissa Rodrigues Schoemberger, defendida em fevereiro de 2026 no Programa de Pós-graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (Unesp/Unicamp/PUC-SP), sob orientação da professora Marina Gisela Vitelli. O trabalho examina o fenômeno sob a ótica da segurança humana — abordagem que desloca o foco da proteção do Estado para a proteção do indivíduo.
Pará lidera com folga
Entre os nove estados que compõem a Amazônia Legal, o Pará registrou 281 notificações no período, o maior número absoluto. Em seguida aparecem Amazonas (119), Maranhão (99), Mato Grosso (77), Tocantins (54), Rondônia (25), Roraima (23) e Amapá (16). Os números, porém, são considerados subestimados pela própria pesquisa, em razão da dificuldade de acesso a áreas remotas, da ausência de um sistema unificado de coleta de dados e do medo que impede muitas vítimas de denunciar.

O Brasil possui mais de 15 mil quilômetros de fronteiras terrestres; cerca de 12 mil ficam na região amazônica. A extensão, somada à precariedade da fiscalização fluvial e à escassez de efetivo estatal, facilita a movimentação de redes criminosas. A Polícia Federal investiga atualmente 110 casos de tráfico de pessoas e 216 de contrabando de migrantes em todo o território nacional, segundo dados da OIM de 2024.
Trabalho forçado ultrapassa exploração sexual
No plano global, o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) identificou, em seu relatório de 2023, que o trabalho forçado responde por 38,8% das vítimas detectadas, seguido de perto pela exploração sexual (38,7%). Formas mistas de exploração somam 10,3%, e atividades criminosas forçadas, 10,2%.

No Brasil, a tendência se confirma. A exploração laboral tornou-se a modalidade mais recorrente nos últimos anos. A mudança de perfil é parcialmente explicada pela inclusão do trabalho análogo à escravidão como finalidade do tráfico apenas com a Lei nº 13.344/2016 — antes, os registros contabilizavam quase exclusivamente a exploração sexual. Entre 2018 e 2020, 63,5% das vítimas resgatadas pela Polícia Federal eram homens, segundo a OIM. Quando o recorte é feito por gênero, porém, 83% das mulheres traficadas são destinadas à exploração sexual.
Pobreza e desemprego como combustíveis
O III Relatório Nacional sobre Tráfico de Pessoas, elaborado pelo UNODC e pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) em 2021, apurou que 95% dos profissionais que atuam no enfrentamento ao crime apontam a pobreza como principal fator de vulnerabilidade. O desemprego aparece em 91,5% das respostas, e a condição migratória em 71%.

A Amazônia Legal ilustra bem essa correlação. A proporção de habitantes em situação de pobreza na região saltou de 37,8% em 2013 para 42,2% em 2021, superando a média nacional. Segundo o Cadastro Único, 11,8 milhões de pessoas na região estavam em extrema pobreza naquele ano. O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) nos anos finais do ensino fundamental é de 4,6 na Amazônia, contra 5,1 no restante do país. A expectativa de vida varia entre 73,3 e 76,6 anos — abaixo da média brasileira. Nos últimos dez anos, mais de 15 mil pessoas foram libertadas de situações de trabalho análogo à escravidão só na região amazônica, segundo o Imazon.
O Observatório da Erradicação do Trabalho Escravo e do Tráfico de Pessoas (SMARTLAB) constatou que 91% dos trabalhadores resgatados entre 2003 e 2017 nasceram em municípios com IDH-M classificado como “muito baixo” pelos padrões da ONU.
Garimpo, drogas e a convergência criminal
A pesquisa identifica a Amazônia como espaço de convergência entre crimes distintos que se reforçam. Garimpo ilegal, tráfico de drogas, desmatamento e contrabando de fauna compartilham rotas, pistas de pouso clandestinas, embarcações fluviais e redes de corrupção. Nesse cenário, o tráfico de pessoas não opera como crime isolado, mas como componente funcional de uma economia predatória.
Na bacia do Tapajós, no Pará, um estudo específico da UNODC publicado em 2024 estima que até 40% dos garimpeiros podem ser vítimas de tráfico para trabalho forçado. O recrutamento segue um padrão: promessas de bons salários e alojamento que não se concretizam. A “servidão por dívida” aparece quando o trabalhador é induzido a contrair custos com transporte, alimentação e moradia, valores descontados de salários que nunca chegam a cobrir o débito.

No mesmo estado, a Polícia Rodoviária Federal mapeou seis pontos críticos de exploração sexual de crianças e adolescentes ao longo da BR-163, rodovia que conecta áreas de garimpo ao restante do país.
Casos emblemáticos
A dissertação detalha dois casos que expõem o modus operandi das redes na Amazônia. No Amazonas, a Associação Solidária Humanitária do Amazonas (ASHAM), criada em 2019, recrutou adolescentes indígenas de São Gabriel da Cachoeira com promessas de educação gratuita na Turquia. Os jovens eram deslocados para Manaus e São Paulo, onde recebiam aulas de árabe, turco e instrução religiosa islâmica. Familiares perderam contato com os jovens enviados ao exterior. A investigação revelou vínculos da ASHAM com o Movimento Gülen, rede transnacional turca. O caso chegou à Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados.
Em Rondônia, a Operação Hope Fake da Polícia Federal desarticulou uma agência de turismo de fachada em Ji-Paraná que enviava brasileiros ilegalmente aos Estados Unidos. Cerca de 150 pessoas foram encaminhadas para a travessia da fronteira México-EUA. A investigação começou quando uma mulher apresentou documentos falsos numa delegacia. O caso se conecta à morte de Lenilda dos Santos, rondoniense abandonada no deserto durante uma travessia irregular em 2021.
Vítimas invisíveis
A pesquisa destaca a subnotificação como um dos obstáculos centrais ao enfrentamento do problema. A ausência de sistema unificado para coleta de dados obriga o governo a compilar informações fragmentadas do Disque 100, do Ligue 180, dos Núcleos de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, da Defensoria Pública da União e da Polícia Federal. Cada canal oferece apenas uma visão parcial.
Populações indígenas, ribeirinhas, pessoas negras e migrantes compõem os grupos mais vulneráveis. Entre trabalhadoras resgatadas de exploração laboral entre 2003 e 2018, 53% eram negras, 62% não tinham ensino fundamental completo e 71,3% foram encontradas em atividades rurais. Mulheres pretas representam 39,8% do total de pessoas em pobreza extrema no Brasil.
O que vem pela frente
A próxima edição do Relatório Nacional sobre Tráfico de Pessoas, com dados do período 2024-2026, deve incorporar indicadores mais detalhados sobre a Amazônia Legal. O governo federal trabalha na implantação de um sistema integrado de dados, reivindicação recorrente de organizações que atuam no enfrentamento. A UNODC prevê novos estudos sobre a interseção entre garimpo e tráfico humano em outros estados amazônicos, além do Pará. A efetividade dessas iniciativas dependerá da capacidade do Estado de expandir sua presença em áreas remotas e de articular respostas que conectem segurança pública, proteção social e cooperação internacional.
FONTE: Dissertação “O tráfico de pessoas e contrabando de migrantes na região amazônica à luz da segurança humana”. Schoemberger, K. L. R. Programa de Pós-graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp, PUC-SP), São Paulo, 2026. Pesquisa qualitativa/descritiva com análise documental de relatórios do MJSP, OIM, UNODC e SMARTLAB, período 2010–2024. Orientadora: Profa. Dra. Marina Gisela Vitelli. Financiamento: CAPES (processo nº 88887.877054/2023-00). Licença: acadêmica.
- A imagem que ilustra esta matéria foi criada utilizando IA.
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