A pesquisadora Luciane Lanser, da UNINTER, analisou evidências sobre nove Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs) que crescem em solos pobres e com pouca água. Para ela, a maior parte da população não reconhece as espécies como alimento e a lista federal de comercialização ainda não cobre todas.
Plantas que nascem quase sem ajuda em quintais, muros e canteiros abandonados, muitas vezes arrancadas como mato, têm teor de proteína e ômega-3 acima do encontrado em boa parte das hortaliças comuns. Para a pesquisadora Luciane Lanser, do Centro Universitário Internacional (UNINTER), essas espécies, chamadas de Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs), podem contribuir para reduzir a insegurança alimentar nas cidades brasileiras. Lanser chegou à conclusão em revisão científica publicada no volume 2 da coletânea “Estratégias Inovadoras para o Sucesso na Agropecuária”. Ela analisou trabalhos dos últimos 15 anos em seis bases indexadas — Scopus, Web of Science, SciELO, ScienceDirect, PubMed e Google Scholar.
Das 30 mil espécies comestíveis no planeta, 100 dominam 90% da produção
As PANCs formam um grupo de espécies vegetais nativas ou naturalizadas com partes comestíveis que saíram da dieta cotidiana de grande parte dos brasileiros. Segundo Lanser, muitas já integravam a alimentação de agricultores familiares e de comunidades indígenas. Existem cerca de 30 mil espécies vegetais com potencial para consumo humano no planeta, segundo dados reunidos pela pesquisadora. Apenas cerca de 100 respondem por quase 90% da produção global de alimentos.

Proteína na folha e ômega-3 no canteiro
A ora-pro-nóbis (Pereskia aculeata) chega a 25% de proteína em matéria seca. Segundo Milião e colaboradores, citados por Lanser, o teor é suficiente para tornar a espécie uma alternativa de suplementação proteica em dietas vegetarianas. A beldroega (Portulaca oleracea) tem concentração de ácidos graxos ômega-3 acima da encontrada em boa parte das hortaliças convencionais, conforme Böhm e Cecatto. A taioba (Xanthosoma sagittifolium) concentra ferro e cálcio, segundo Silva e colaboradores (2022).

Rústicas, aceitam solo ruim e pouca água
A maioria das PANCs estudadas é rústica: dispensa irrigação frequente e produz em solos que não sustentariam hortaliças convencionais. Lanser afirma que essas plantas se adaptam a quintais e hortas escolares.
Desconhecimento popular e regulação incompleta
Boa parte da população não sabe identificar estas plantas, e várias delas carregam estigma de erva daninha ou mato impróprio para consumo. A Portaria Interministerial MAPA/MMA nº 10, de 21 de julho de 2021, listou espécies nativas da sociobiodiversidade autorizadas para comercialização in natura ou em produtos derivados, mas não cobre todas as PANCs reconhecidas pela literatura científica. Lanser defende que programas de extensão rural passem a treinar agricultores no cultivo e na comercialização das espécies.

Fonte:
LANSER, L. Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs) e sua contribuição para o desenvolvimento da agricultura urbana sustentável. In: Estratégias Inovadoras para o Sucesso na Agropecuária, Vol 2, Capítulo 22, p. 234-242.
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