Levantamento feito com exclusividade pela Lupa MT mapeou a propaganda falada de Bet Nacional, Bet365 e KTO. O aviso de “18+” e de responsabilidade apareceu em quase todas as inserções, mas o alerta sobre o risco de vício não apareceu nenhuma vez.
Em três transmissões da Copa do Mundo de 2026 (Brasil x Marrocos, Alemanha x Curaçao e Estados Unidos x Austrália), que somaram cerca de 226 milhões de visualizações no YouTube, a CazéTV veiculou 139 inserções de publicidade de apostas na narração dos jogos. Dessas, 66 aconteceram durante as partidas. As casas de aposta citadas foram três: Bet Nacional, Bet365 e KTO.
Uma propaganda atrás da outra
A propaganda não veio na mesma medida em cada jogo. Foram 20 inserções em Brasil x Marrocos, no dia 13 de junho. Subiram para 70 em Alemanha x Curaçao, em 14 de junho. E ficaram em 49 em Estados Unidos x Austrália, em 19 de junho, o jogo mais visto, aberto mais de 103 milhões de vezes. As duas últimas transmissões são longas, de quase 12 horas, e cada uma cobre mais de um jogo. A do Brasil durou cerca de 5 horas e meia.

A divisão entre as marcas ficou quase igual: 50 vezes a Bet Nacional, 45 a Bet365 e 44 a KTO.
Das 139 aparições, 66 foram com a bola rolando. As outras 73 ficaram fora do jogo, no pré-jogo, no pós-jogo ou em outra partida da mesma transmissão. Em Brasil x Marrocos, quase tudo foi durante a partida: 17 das 20.

O que era cada propaganda
Nem toda aparição era um comercial inteiro. Das 139 inserções, 109 foram só a citação do nome da marca, cerca de oito em cada dez. Outras 24 eram ofertas de promoção.

O selo apareceu. O alerta de vício, não
A propaganda de aposta no Brasil tem regras. Uma delas, a Portaria SPA/MF nº 1.231/2024, manda que cada anúncio dê dois avisos. O primeiro é o mais conhecido: que apostar é proibido para menores de 18 anos e o “jogue com responsabilidade”. O segundo é mais duro. Fala do risco de o hábito virar doença, o chamado transtorno do jogo.
O primeiro aviso, a CazéTV deu. Na narração, ele entrou em 127 das 139 inserções, quase nove em cada dez, sempre em até dois minutos: o “jogue com responsabilidade” ou o aviso dos 18 anos.
Na tela, a checagem foi por amostra. A reportagem capturou seis propagandas, duas de cada patrocinador: duas da Bet Nacional, duas da Bet365 e duas da KTO. Nas seis, apareciam o selo “18+”, a frase de responsabilidade e o número da portaria que autoriza a empresa. A KTO mostrava a Portaria SPA/MF nº 2.093/2024, e a Bet Nacional, a de número 2.092/24. Nessas peças, no aviso básico, a emissora cumpriu o que a regra pede.



O segundo aviso não veio. Na fala, o alerta sobre o risco de dependência ficou de fora das 139 inserções. Nas seis peças vistas na tela, também não apareceu. As frases mais duras que a norma permite, como “apostar pode levar à perda” ou “aposta não é investimento”, não foram ao ar.

Pelo CONAR, órgão em que o próprio setor publicitário fiscaliza os anúncios, a advertência deve ser “legível, ostensiva e destacada”. Nessas seis peças, o selo aparece pequeno, ao lado de chamadas grandes como “ATÉ R$ 50” e “BAIXE O APP”. É uma questão de proporção, não uma acusação de descumprimento.
“Baixe o app” e a odd turbinada
Parte das inserções não parava no nome da marca. Em 56 das 139, cerca de quatro em cada dez, vinha junto um convite para agir na hora: “baixe o app”, “corre pro app”, “procura as setinhas no app”. Junto vinha também a “odd turbinada”, quando a casa avisa que uma aposta vai pagar mais que o normal por tempo limitado.
A mesma Portaria nº 1.231/2024 proíbe, no artigo 12, anúncio que empurre o apostador a agir na hora. E o CONAR proíbe ligar a aposta a ganho fácil. O selo “18+” não resolve esse ponto, porque o convite e a odd turbinada aparecem na mesma peça que traz o selo.
Dois exemplos foram ao ar na narração. Da Bet365: “Na Bet 365 você tem super aumentada em todo dia de jogo… Baixe o app Bet 365. Jogue com responsabilidade.” Da Bet Nacional: “Brasileiro é apaixonado por você. Bota essa paixão para jogo. Bet Nacional. A bet dos brasileiros. Jogue com responsabilidade. Proibido para menores de 18 anos.”
As ofertas são outro ponto relevante encontrado. A KTO anunciou “ATÉ R$ 50 EM APOSTA GRÁTIS PARA VOCÊ” e um recurso chamado “Chance Extra”. Uma portaria de 2024, a de número 615, proíbe bônus e vantagens para atrair apostador. Se essas ofertas entram na proibição é algo que os órgãos de controle precisam examinar.
Publicidade de apostas no ar sob fiscalização
Toda essa publicidade foi ao ar num período de fiscalização reforçada. Em 3 de junho, a Secretaria de Prêmios e Apostas, ligada ao Ministério da Fazenda, anunciou uma fiscalização conjunta da publicidade de apostas durante a Copa, de 11 de junho a 19 de julho. Entraram nela a própria secretaria, o Ministério Público, os Procons, as Defensorias e o CONAR. Os três jogos analisados estão dentro desse período.
Um ponto pesa a favor das empresas. As três marcas têm autorização da Secretaria de Prêmios e Apostas para funcionar no país. Ou seja, não há, nos três jogos analisados, propaganda de casa de aposta ilegal, o que a Lei nº 15.358, de 2026, proibiu de forma expressa. A discussão é sobre o conteúdo dos anúncios, não sobre a legalidade de quem anuncia.
Quem transmite a Copa pela CazéTV
A CazéTV é operada pela LiveMode, uma empresa de mídia e tecnologia, em parceria com o streamer Casimiro Miguel. A LiveMode foi fundada em 2017 por Edgar Diniz e Sergio Lopes. É ela que cuida do canal que exibiu as inserções de bets.
No papel, a dona da CazéTV tem mais de um nome. Pelo registro na Receita Federal de 21 de junho de 2026, a empresa CAZETV PRODUCOES LTDA. (CNPJ 51.783.387/0001-30) tem três sócias: a LiveMode Serviços Digitais S.A., a CMiguel Produções, que é a empresa de Casimiro, e a LiveMode LLC, sediada no exterior.
A mesma empresa vende e transmite a Copa
Um ponto está no centro do debate sobre o modelo. A LiveMode faz dois papéis ao mesmo tempo. É a empresa contratada pela FIFA para vender no Brasil os direitos de transmissão da Copa de 2026. E é quem opera o canal que transmite o torneio. Na prática, quem vende os direitos em nome da FIFA é também quem os exibe. Esse acúmulo de papéis está no comunicado de abril de 2024 da General Atlantic, fundo que investiu na LiveMode ao lado da XP.
Pela CazéTV, a Copa de 2026 vai ao ar de graça no YouTube, com os 104 jogos do torneio no Brasil.
O dono da vitrine também tem regra para aposta
A Copa da CazéTV vai ao ar dentro do YouTube, e o YouTube tem regra própria para jogo de azar, à parte da lei brasileira. Pelas diretrizes da comunidade da plataforma, consultadas em 22 de junho de 2026, não se pode publicar conteúdo que venda, direcione ou facilite o acesso a sites de aposta esportiva ou jogo de azar sem certificação. A regra vale para vídeo, descrição, comentário e transmissão ao vivo, e alcança até o direcionamento falado dentro do vídeo.
A certificação que o YouTube cobra é a do Google Ads, e não se confunde com a autorização da Secretaria de Prêmios e Apostas, embora dependa dela. Desde janeiro de 2025, o Google só mantém o certificado de quem anuncia aposta no Brasil se a casa tiver licença válida do Ministério da Fazenda. Bet Nacional, Bet365 e KTO têm essa licença. O certificado em si, porém, não é público: o Google trata a certificação por conta, por tipo de aposta e por site, sem divulgar quem está liberado. E há um detalhe que muda o jogo. A propaganda falada na narração não é um anúncio do sistema do Google. É patrocínio direto, posto no ar pelo próprio canal. Quem coloca a bet na transmissão e responde por ela é a CazéTV, não o filtro automático da plataforma.
Um trecho da política pesa mesmo para a marca já certificada. O YouTube proíbe conteúdo que prometa retorno ao apostador, com site certificado ou não. E coloca atrás de uma trava de idade, longe de menores de 18 anos e de quem não está logado, o conteúdo que promove ou facilita o acesso a jogo de azar on-line, inclusive o de sites certificados. As três transmissões foram abertas, sem barreira de idade nem de login. Os convites “baixe o app” e “corre pro app”, que entraram em 56 das 139 inserções, aproximam a propaganda do que a regra chama de facilitar o acesso.
A leitura tem limites. A política do YouTube foi escrita pensando no criador que promove uma bet, não na publicidade de um patrocinador dentro de uma transmissão esportiva, e a plataforma ainda abre exceção para conteúdo de interesse público. Se as inserções caem na regra de restrição de idade, ou se escapam por serem publicidade de marca num evento esportivo, é uma zona que a norma não resolve. O ponto a examinar é direto: a mesma empresa que vende os direitos da Copa em nome da FIFA e opera o canal exibe, sem trava de idade, a propaganda das bets justamente na plataforma que diz restringir esse tipo de conteúdo.
Bets patrocinam o canal, não o administram
Vale uma distinção, para não confundir. As casas de apostas aparecem na CazéTV como patrocinadoras, em cotas de publicidade, ao lado de marcas de outros setores, como Ambev, Coca-Cola, Itaú, Mercado Livre e Vivo. Patrocinar não é o mesmo que administrar ou controlar. Não há base para dizer que a CazéTV é administrada por bets.
O pano de fundo: bilhões por mês e contas que se bloqueiam
Dados públicos ajudam a medir o tamanho do mercado de apostas no país.
Um estudo do Banco Central calculou que, em 2024, os brasileiros transferiram por Pix entre 18 e 21 bilhões de reais por mês para casas de aposta. Em agosto daquele ano, foram 20,8 bilhões em um único mês. Cerca de 24 milhões de pessoas fizeram esse tipo de transferência.
Quem aposta no Brasil está, em boa parte, entre os de menor renda. Uma pesquisa do instituto Locomotiva com o Datafolha apontou que 79% dos apostadores estão nas classes C, D e E. São quase quatro em cada cinco.
Há também quem queira parar. Entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, em 40 dias, a Secretaria de Prêmios e Apostas recebeu 217 mil pedidos de autoexclusão. É quando a pessoa pede para ser bloqueada das plataformas. Dá mais de 5 mil pedidos por dia.
A fiscalização conjunta segue até 19 de julho, fim do período definido pela Secretaria de Prêmios e Apostas. No Congresso, dois projetos miram a propaganda do setor: o PL 2.989/2026, da deputada Dandara, e o PL 3.563/2024, que tem a senadora Damares como relatora e já passou na Comissão de Ciência e Tecnologia. Os dois querem proibir a publicidade de apostas, inclusive em transmissões esportivas.
Como a Lupa MT fez este levantamento
A reportagem analisou as transcrições, com marcação de horário, das três transmissões da CazéTV no YouTube. Cada vez que a narração citava uma casa de aposta, fosse o nome da marca, uma oferta ou uma cotação, o trecho foi anotado. As menções próximas umas das outras foram juntadas em blocos. Deram 139 blocos, que aqui chamamos de inserções. As falas isoladas, com o texto exato e o minuto em que entraram, somaram 211. Esse mapeamento das falas cobre as três transmissões por inteiro.
Os números de público são as visualizações informadas pelo YouTube. Visualização não é a mesma coisa que pessoa: cada vez que alguém abre o vídeo conta uma, e a mesma pessoa pode abrir várias.
A parte visual foi diferente. O selo na tela foi conferido por amostra, em 21 de junho: o autor capturou seis propagandas, duas de cada patrocinador. A leitura do selo vale para essas peças, não para todas as vezes em que a publicidade apareceu na tela.
O levantamento não mede se essa propaganda gerou cliques, cadastros, depósitos ou apostas. Nenhuma fonte usada afirma isso. Os dados de mercado vêm de fontes públicas.
A reportagem contou também com buscas nas Diretrizes da comunidade do YouTube,e a Central de Ajuda do YouTube, consultadas em 22 de junho de 2026, em support.google.com/youtube.
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