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Pecuária responde por metade das emissões de carbono ligadas ao desmatamento global e Brasil lidera ranking, aponta estudo

Estudo publicado na Nature Food mapeou o desmatamento associado a 184 commodities em 179 países entre 2001 e 2022. A pecuária responde por 42% da área desmatada e 52% das emissões de CO₂, e o Brasil lidera o ranking global com 32% do total. Culturas básicas como milho, arroz e mandioca somam 11% do desmatamento, mas ficam fora de regulações como o EUDR.
desmatamento por commodities agrícolas

Modelo inédito mapeou a pegada florestal de 184 commodities em 179 países entre 2001 e 2022; milho, arroz e mandioca superam cacau e café em área desmatada, mas ficam fora de regulações internacionais

O desmatamento impulsionado pela produção agropecuária gerou 41,2 bilhões de toneladas de CO₂ entre 2001 e 2022, e a pecuária bovina, sozinha, foi responsável por 52% dessas emissões. Os dados foram publicados em fevereiro de 2026 na revista Nature Food por pesquisadores da Universidade de Tecnologia Chalmers, na Suécia, que desenvolveram o modelo DeDuCE para rastrear a conversão de florestas em áreas de produção agrícola em escala planetária.

A expansão de lavouras, pastagens e plantações florestais corresponde a 26% de toda a perda de cobertura arbórea registrada no período — uma média de 5,5 milhões de hectares por ano. O número é menor do que as estimativas anteriores da FAO, que apontavam de 8 a 10 milhões de hectares anuais, porque o modelo usa dados de sensoriamento remoto em alta resolução e separa queimadas naturais de desmatamento para fins produtivos.

Brasil lidera o ranking

O Brasil concentra 32% do desmatamento global vinculado a commodities. A Indonésia aparece em segundo, com 9%, seguida pela República Democrática do Congo (6%). Dois países de fora dos trópicos — China (6%) e Estados Unidos (5%) — completam os cinco primeiros.

A América do Sul responde por 46% da área desmatada e 54% das emissões de carbono. O Sudeste Asiático contribui com 21% das emissões, e a África, com 19%. Juntas, as três regiões concentram 82% do desmatamento e 94% das emissões atribuídas à expansão agropecuária e florestal.

Boi na frente, soja logo atrás

A expansão de pastagens para criação de gado foi o principal motor do desmatamento: 42% da área total convertida e 52% das emissões de CO₂. O cultivo de oleaginosas — com destaque para o dendê e a soja — representou 16% do desmatamento e 14% das emissões. O dendê, concentrado no Sudeste Asiático, sozinho respondeu por 55% das emissões globais ligadas à drenagem de turfeiras.

Plantações florestais ficaram com 14% da área desmatada. Cacau e café, juntos, somaram 3%, e a borracha, 2%.

Além do desmatamento direto, emissões por drenagem de turfeiras em áreas convertidas desde 2001 chegaram a 2,9 bilhões de toneladas de CO₂. Essa drenagem é particularmente grave no Sudeste Asiático, onde a conversão de solos turfosos para dendê libera carbono de forma contínua por décadas.

Alimentos básicos fora do radar

O dado que mais chama atenção é o peso das culturas alimentares de base. Milho, arroz e mandioca, somados, responderam por 11% de todo o desmatamento global — mais do que cacau, café e borracha juntos. A diferença é que esses três produtos ficam fora do escopo do Regulamento da União Europeia contra o Desmatamento (EUDR), que cobre apenas as commodities de maior risco comercial.

Enquanto o dendê se concentra na Indonésia e a soja na América do Sul, o desmatamento ligado a milho, arroz e mandioca se espalha por dezenas de países, da África Subsaariana ao Sudeste Asiático. Quase metade da dieta humana média é composta por essas culturas, e a área plantada tende a crescer junto com a população mundial.

Na África, a qualidade dos dados espaciais e das estatísticas agrícolas é consistentemente mais baixa do que nas demais regiões, o que torna as estimativas para commodities como mandioca, milho e feijão menos confiáveis. O modelo criou um índice de qualidade integrado para cada par país-commodity, de modo a sinalizar onde os dados precisam melhorar.

Comércio internacional carrega 30% do impacto

Em 2022, cerca de 30% do desmatamento agrícola estava embutido em mercadorias comercializadas internacionalmente. América do Sul e Sudeste Asiático são os principais polos exportadores. China, União Europeia, Estados Unidos, Índia e Japão lideram as importações.

A UE absorve 14% do comércio global de commodities com risco de desmatamento. Alemanha, Espanha, Itália, França e Países Baixos estão no topo da lista europeia, com importações concentradas em cacau, café, dendê, soja e carne bovina.

A seguir

O EUDR — previsto para entrar em vigor até o final de 2026 — exigirá que empresas europeias demonstrem que suas cadeias de suprimento não estão associadas ao desmatamento. O modelo DeDuCE pode fornecer subsídios para o sistema de classificação de risco do regulamento, que até o fechamento desta reportagem ainda carecia de dados espaço-temporais em escala global para categorizar os países exportadores. A inclusão de culturas básicas como milho e arroz nos marcos regulatórios será necessária para conter a expansão agrícola sobre florestas nas próximas décadas.

Fonte: Artigo “Global patterns of commodity-driven deforestation and associated carbon emissions”. Singh, C. & Persson, U. M. Chalmers University of Technology, Gotemburgo, 2026. Modelo DeDuCE com dados de sensoriamento remoto (Global Forest Change) e estatísticas agrícolas (FAOSTAT), período 2001–2022, cobrindo 179 países e 184 commodities. Nature Food, v. 7, n. 2, p. 138–151. Disponível em: https://doi.org/10.1038/s43016-026-01305-4. Licença: Creative Commons Attribution 4.0 International.

-A imagem que ilustra esta matéria foi criada utilizando IA.

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