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Povos e Territórios

Mulheres do campo ensinam às crianças a roça e a cura, mostra estudo da Ufes

Pesquisa com histórias de vida de mulheres agroecológicas do Espírito Santo fala da infância no trabalho com a terra, da recusa ao veneno e do peso que fica com as mães

Rogerio FlorentinoPor Rogerio Florentino horário de Cuiabá 6 min de leitura WhatsApp
Mulher idosa de lenço estampado abraça menino entre folhagens, em imagem ilustrativa sobre mulheres do campo
Mães, avós e outras mulheres são as principais mediadoras dos saberes do campo, mostra estudo da Ufes (imagem ilustrativa). Foto: Anna Keibalo/Unsplash

Mães, avós e outras mulheres do campo são as principais responsáveis por passar às crianças o que sabem sobre plantio, plantas medicinais, práticas culturais e manutenção da identidade em comunidades rurais do Espírito Santo. É o que mostra um artigo de pesquisadoras do Departamento de Educação do Campo da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), publicado em outubro na revista Zero-a-Seis, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O estudo usa relatos de mulheres agroecológicas que vivem na zona rural de Colatina, Pancas, Vila Pavão, Santa Maria de Jetibá e Domingos Martins.

O artigo é assinado por Rosali Rauta Siller, doutora em Educação, Paloma Maciel Bonissi, licenciada em Educação do Campo, e Mayla Rutcher Araujo, mestra em Educação. Bonissi e Araujo fizeram a coleta de dados. O trabalho junta resultados de três pesquisas feitas pelo método da história oral, com foco na história de vida de cada mulher.

As pesquisadoras queriam responder a duas perguntas. Que herança essas mulheres decidem guardar e passar às crianças? E quais partes da tradição elas escolhem, nomeiam e dividem com filhos e filhas para que as comunidades do campo continuem?

Infância na roça

Nas histórias de vida, a tradição não é ensinada com aula ou plano. Ela passa no dia a dia: na convivência, na repetição, na conversa, no trabalho feito junto e na observação dos ciclos da terra.

O trabalho começa cedo. Hortênsia, entrevistada em 2024, conta que desde os 8 anos tirava leite com a mãe. Ela também limpava o quintal e a casa e ia junto para a roça plantar feijão. Rosa, ouvida no mesmo ano, também guarda uma lembrança parecida: “Com 6 anos papai já levava nois pra roça, com enxadinha pequena, capinar no meio do feijão”. Por fim, Lucimar, entrevistada em 2026, resume a própria história: “Desde criança já ajudava na lavoura também”.

As autoras leem essas experiências como um deslocamento das concepções modernas que separam infância de trabalho produtivo. Além disso, o estudo se apoia na Sociologia da Infância, de William Corsaro. Por essa leitura, brincar de roça é um jeito de a criança recriar o trabalho dos adultos. Ou seja, os adultos mostram a tradição, e as crianças a recriam entre elas até que ela vire experiência delas.

Agroecologia sem rótulo

Para as autoras, muitas entrevistadas não chamam o que fazem de agroecologia, mas seguem no dia a dia princípios dela: variedade na produção, rejeição ao veneno, guarda de sementes e organização coletiva.

Hortênsia, por exemplo, descendente de imigrantes pomeranos, lembra do tempo em que regava tudo com regador, sem energia para a bomba: “Naquela época não tinha agrotóxico, era tudo natural, hoje em dia tem veneno demais”.

Do mesmo modo, Violeta, ouvida em 2024, conta que é contra pulverizar as frutas da família: “meu filho quer pulverizar nossas frutas ali, aí eu falo pra ele, pega umas pessoas pra capinar mas não pra envenenar”. Na mesma entrevista, ela também fala do rio do lugar onde o pai morava. Quando chovia, o rio entrava na casa. Hoje, ele “é um riozinho pequenininho”.

Além disso, nas famílias de imigração pomerana, a língua materna é passada principalmente dentro de casa. Rosa conta que cobra isso: “eu falei que tem que conversar em pomerano com eles”. As mulheres pomeranas também guardam os saberes sobre plantas e chás e as práticas de benzedura, e passam esse conhecimento de mães para filhas.

A sobrecarga das mulheres do campo

As maternidades descritas no artigo são atravessadas pela divisão sexual do trabalho. Edna, entrevistada em 2025, fala das mulheres: “Elas fazem de tudo. Elas trabalham na roça, elas procuram recurso de outro jeito.” No mesmo relato, elas também trabalham nas terapias com argila e massagem e atendem grupos de pessoas.

Por outro lado, os homens quase não aparecem nessas tarefas. Eles circulam pelos comércios locais e estaduais. Cuidam das compras no supermercado, dos equipamentos da lavoura e da ração dos animais. Além disso, aos domingos, vão à igreja com a família e tiram um tempo para jogar bola ou ver algum jogo perto de casa.

Selene, por exemplo, ouvida em 2026, lembra o curso de Agente Comunitária de Saúde. Foram três meses seguidos de treinamento, todo dia. Ela levou junto o filho caçula, que hoje tem 28 anos: “eu levei junto e carreguei daqui, até no asfalto, sempre nas costas, e uma bolsa do lado”.

Maria, entrevistada em 2025, conta que perdeu um carro que usava: “Eu tinha um carro à minha disposição, que era da ACESA. Com gasolina paga por eles… tiraram. Fiquei a pé.” Por esse conjunto de situações, o artigo chama essas maternidades de (im)possíveis. São possíveis porque acontecem: educam, transmitem e sustentam territórios. São impossíveis porque acontecem com sobrecarga, invisibilização e precariedade das instituições.

Chás, cura e perseguição

Os relatos também mostram resistência à perseguição contra os saberes tradicionais. Edna lembra: “nós fomos perseguidos pela, como se diz, né? Pelo chá, pelas coisas”. No meio dessa luta, ela conta que foi colocada como coordenadora da associação.

A preferência de hoje pelo médico aparece na fala de Genita, entrevistada em 2026: “todo mundo prefere o médico, que é a coisa mais rápida”.

Mesmo assim, a transmissão continua. As entrevistadas ensinam a reconhecer ervas, a guardar sementes, a respeitar os ciclos da água e a organizar mutirões. O que chega às crianças são práticas: plantar sem veneno, dividir alimentos, cuidar dos mais velhos e respeitar o tempo da terra.

Por fim, na conclusão, as pesquisadoras sustentam que o que essas mulheres passam de uma geração para outra é produção de conhecimento, e não simples reprodução cultural.

O artigo faz parte do dossiê Maternidades (im)possíveis da Zero-a-Seis, que publica de forma contínua de janeiro a dezembro de 2026, e está disponível no Portal de Periódicos da UFSC.

Fonte da matéria: Maternidades e ecofeminismos: o cuidado coletivo de mulheres agroecológicas na transmissão da herança às infâncias do campo, artigo original do dossiê Maternidades (im) possíveis: educar, cuidar e transbordar afetos em devir-infâncias de direitos!, de Rosali Rauta Siller et al. (com Paloma Maciel Bonissi e Mayla Rutcher Araujo), Departamento de Educação do Campo da Universidade Federal do Espírito Santo, publicado na revista Zero-a-Seis, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, v. 28, 2026, p. 01-17, DOI 10.5007/1980-4512.2026.e111763

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Fontes oficiais

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