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Maio de 2026 é o segundo maio mais quente já registrado no planeta

Maio de 2026 teve média global de 15,81°C, a segunda mais alta já registrada para o mês, atrás apenas de 2024, informou o Copernicus. A temperatura do mar ficou a 0,03°C do recorde e o Pacífico entrou em transição para El Niño, com probabilidade acima de 80% no segundo semestre e risco de seca e fogo em Mato Grosso.
maio mais quente

Oceano perto do recorde e provável volta do El Niño elevam o risco de seca e fogo em Mato Grosso e podem mexer até na conta de luz

Maio deste ano foi o segundo maio mais quente já medido no planeta, informou nesta quarta-feira (10) o Copernicus, serviço europeu de monitoramento do clima. A temperatura média global ficou em 15,81°C, valor 1,42°C acima da era pré-industrial, o período de 1850 a 1900 usado como régua para medir o aquecimento global. O dado vem acompanhado de um sinal que interessa diretamente ao Brasil: o Pacífico caminha para um novo El Niño, fenômeno que costuma mudar a rota da chuva no país.

O maio mais quente segue sendo o de 2024, por pouco

Os 15,81°C parecem temperatura de um dia ameno, mas o número é outra coisa: trata-se da média do planeta inteiro, somando desertos e polos, dia e noite, os dois hemisférios. Numa cidade qualquer, o termômetro sobe e desce 10°C entre a madrugada e a tarde sem maiores consequências. Na média global, meio grau a mais representa uma quantidade gigantesca de calor extra circulando pelos oceanos e pela atmosfera. Maio ficou 0,55°C acima da média de 1991 a 2020.

A diferença para o recorde é mínima: 0,10°C abaixo de maio de 2024 e 0,02°C acima de maio de 2025, hoje o terceiro da lista. São centésimos de grau, variação que a pele humana nem percebe, e os três últimos anos ocupam o topo da série de maios da reanálise ERA5, mantida pelo Copernicus. Na janela de 12 meses encerrada em maio, a temperatura ficou 0,55°C acima da média recente e 1,43°C acima do período de 1850 a 1900.

Oceano quase no recorde

A água do mar bateu na trave do recorde. A temperatura média da superfície dos oceanos, medida entre as latitudes 60°S e 60°N, chegou a 20,90°C, apenas 0,03°C abaixo da marca de maio de 2024, que foi de 20,93°C.

Pense no oceano como uma panela enorme que guarda calor. Quanto mais quente a água, mais vapor sobe para a atmosfera, e esse vapor é o combustível da chuva: alimenta temporais em uma região e deixa faltar água em outra.

No Pacífico tropical, a água esquentou tanto desde o fim de abril que superou os valores vistos em 2016 e 2024, nas fases finais de eventos fortes de El Niño.

A régua de 1,5°C, explicada

O 1,42°C acima da era pré-industrial deixa o planeta encostado no limiar de 1,5°C do Acordo de Paris. Uma comparação ajuda a entender a escala: no corpo humano, 1,5°C acima da temperatura normal é a diferença entre estar bem e estar de cama, com febre.

O limite de Paris, porém, vale para a média de longo prazo, não para um mês isolado. Funciona como radar de velocidade média na estrada: ultrapassar o limite por alguns metros não gera multa, porque o que conta é a média do trecho inteiro. Um maio a 1,42°C não rompe o acordo, mas mostra a média rodando cada vez mais perto do teto.

E a tendência é de repetição. Segundo a Organização Meteorológica Mundial (WMO), há nove chances em dez (91% de probabilidade) de que pelo menos um ano entre 2026 e 2030 ultrapasse temporariamente o 1,5°C, e 86% de chance de que um ano nesse intervalo tome de 2024 o posto de mais quente já registrado. A projeção decadal da entidade coloca a média anual do período entre 1,3°C e 1,9°C acima de 1850 a 1900.

El Niño: oito chances em dez

El Niño é o nome do aquecimento anormal das águas do Pacífico tropical. Quando o fenômeno se forma, os ventos mudam de comportamento e a chuva muda de endereço: no Brasil, o padrão típico é menos água no Norte e no norte do Nordeste e mais água no Sul.

A atualização divulgada pela WMO em junho traz 80% de probabilidade, oito chances em dez, de o fenômeno se formar entre junho e agosto. Nos três trimestres seguintes, o percentual se aproxima de 90% ou o supera. A La Niña, a fase fria do Pacífico, é considerada improvável no período.

No Brasil, nota técnica conjunta de INMET, INPE, FUNCEME e CENSIPAM aponta mais de 80% de chance de El Niño no segundo semestre, com possibilidade de durar até o início de 2027. As águas do Pacífico equatorial, que vinham mais frias que o normal, esquentaram depressa em abril: a anomalia passou de 0,5°C na superfície e de 3°C perto da costa oeste da América do Sul.

O que muda para Mato Grosso

Para Mato Grosso, que reúne Amazônia, Cerrado e Pantanal, o ponto sensível é o fogo. A nota indica primavera mais seca em áreas do Centro-Oeste e risco maior de incêndios florestais. A referência histórica dá a dimensão: na seca de 2015, associada a El Niño, a incidência de incêndios cresceu cerca de 36%. Em termos práticos, onde aconteciam 100 incêndios em um ano comum, passaram a acontecer 136.

A estiagem prolongada também derruba o nível dos rios, e o efeito chega ao cotidiano: o barco encalha, a pesca diminui e as comunidades ribeirinhas ficam mais isoladas de água, comida e atendimento de saúde. Quem vive em Cuiabá e Várzea Grande conhece a outra ponta: ar seco e cheiro de fumaça no auge da estiagem, com piora da qualidade do ar.

No Sul do país, o sinal se inverte. A expectativa é de chuva acima da média no inverno e na primavera, com risco de cheias e deslizamentos em áreas vulneráveis.

Da chuva à conta de luz

De cada dez lâmpadas acesas no Brasil, quase seis funcionam com a força da água. No Balanço Energético Nacional 2025, da Empresa de Pesquisa Energética, a fonte hidráulica respondeu por 56,1% da eletricidade gerada em 2024, dentro de uma matriz 88,2% renovável. Menos chuva nas bacias certas pode significar menos água nas turbinas, mais termelétricas ligadas e geração mais cara.

Chuva em excesso no Sul não resolve. O excedente de lá não compensa a falta d’água nas bacias do Norte, do Sudeste ou do Centro-Oeste.

Gelo a menos nos dois polos

O gelo do mar ficou abaixo da média em maio nas duas pontas do planeta. No Ártico, faltaram 0,6 milhão de km² para alcançar a média de 1991 a 2020, queda de 4,4% e quarta menor marca em 48 anos de medições. Na Antártica, o déficit foi de 0,9 milhão de km², recuo de 8,7% e sétimo menor valor da série. Para visualizar o tamanho da perda antártica: é uma área de gelo próxima à de Mato Grosso inteiro, que tem cerca de 900 mil km².

O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima já reuniu em 2026 a Sala de Situação Federal de controle de incêndios florestais para organizar a prevenção antes do pico da seca. Daqui em diante, os boletins mensais do Copernicus e as previsões sazonais dos órgãos brasileiros de meteorologia vão mostrar se o El Niño se confirma e com que força. O comportamento do Atlântico Tropical, capaz de aliviar ou agravar os efeitos sobre a Amazônia, também entra nesse acompanhamento.

 

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