Revisão bibliográfica analisou 64 trabalhos acadêmicos e identificou ao menos três dimensões do conceito: ciência, movimento social e prática de vida
Uma revisão bibliográfica conduzida por pesquisadores da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), campus Erechim (RS), mapeou como a agroecologia vem sendo definida em publicações científicas brasileiras voltadas à Educação do Campo. O levantamento analisou 64 trabalhos recuperados do Portal de Periódicos da Capes, da Web of Science e da Scopus, e identificou 34 unidades de significado que revelam um conceito em permanente construção, atravessado por disputas políticas, saberes ancestrais e a tensão com o modelo agroindustrial.
O estudo parte de uma tese de doutorado em Ciência e Tecnologia Ambiental e utilizou a Análise Textual Discursiva (ATD) para decompor os textos em fragmentos de sentido. De 25 publicações que forneceram material para análise, emergiu um panorama no qual a agroecologia ultrapassa a condição de técnica agrícola e se consolida como projeto político e cultural dos povos do campo.
Mais do que plantar sem veneno
A primeira constatação dos pesquisadores é que reduzir a agroecologia à produção de alimentos sem agrotóxicos ignora suas raízes históricas. O termo apareceu pela primeira vez na década de 1930, como sinônimo de ecologia aplicada à agricultura, mas ganhou corpo no Brasil a partir de 1989, com a publicação do livro de Miguel Altieri. Desde então, passou a ser apropriado por movimentos sociais como o MST e a Comissão Pastoral da Terra.
Nos textos analisados, a agroecologia aparece repetidamente como contraponto ao agronegócio. Os pesquisadores identificaram que os autores a tratam como uma estrutura teórica e prática que questiona a organização hegemônica dos processos agrícolas, baseada na intensificação de insumos industriais. Não se trata apenas de trocar o veneno pela compostagem. A disputa é sobre o modelo de ocupação do território.
Resistência como matriz
A pesquisa identificou que boa parte das definições está ancorada na ideia de resistência. No Brasil, o enfoque agroecológico e a Educação do Campo compartilham a mesma base social de origem: a reorganização dos agricultores familiares camponeses a partir dos movimentos sociais.
Os textos descrevem a agroecologia como prática que rememora e anuncia a práxis camponesa em favor do direito à vida, ao mesmo tempo em que fortalece processos de confronto com o capital agroindustrial. A lógica é direta: enquanto a agricultura convencional opera em monoculturas de grande escala, integradas a cadeias globais de exportação, a agroecologia valoriza mercados locais, circuitos curtos de comercialização e a autonomia do pequeno agricultor.
Essa dimensão política se conecta com a preocupação ambiental. A pesquisa aponta que a agroecologia incentiva a diversidade de cultivos e sistemas agroflorestais, em contraposição ao esgotamento de solos e à perda de biodiversidade atribuídos à monocultura. A Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (PNAPO), lançada em 2012, já reconhecia formalmente esse viés ao vincular a produção agroecológica à segurança alimentar e nutricional.

Ciência de muitas mãos
A análise revelou que os pesquisadores tratam a agroecologia como disciplina interdisciplinar por natureza. Os autores apontam que ela integra conhecimentos de agronomia, ecologia, economia, sociologia, antropologia e história para analisar a atividade agrária em sentido amplo.
Um achado recorrente nos textos é a valorização dos saberes populares. A agroecologia é descrita como uma área do conhecimento cujo saber necessariamente provém do protagonismo conjunto de técnicos, educadores e agricultores. Essa construção coletiva a diferencia de disciplinas acadêmicas tradicionais, que costumam operar em circuitos fechados de produção de conhecimento.
A pesquisa propõe ao menos três dimensões para compreender o conceito: a agroecologia como ciência, que toma o agroecossistema como unidade de análise; como movimento, assentado na luta por reforma agrária e por um projeto popular de campo; e como prática, entendida como modo de vida.
Soberania alimentar no centro
Os autores identificaram também que a agroecologia aparece associada à soberania alimentar e à segurança alimentar e nutricional, especialmente entre comunidades campesinas, indígenas e quilombolas. O manejo dos agroecossistemas respeita os modos de vida das comunidades tradicionais, suas formas de trabalho, organização social e produção cultural.
A dependência da agricultura convencional em relação a insumos químicos externos, como os agrotóxicos, reforça a preocupação com a contaminação de solos e mananciais. A agroecologia aparece nos textos como alternativa que busca não apenas produzir alimentos ecologicamente corretos, mas garantir que sejam saudáveis para quem os consome.
Próximos passos
O estudo faz parte de uma pesquisa de doutorado em andamento na UFFS e deverá avançar para investigar como a agroecologia é efetivamente abordada em salas de aula de Escolas do Campo brasileiras, cruzando as definições acadêmicas com a prática pedagógica no chão das escolas rurais.
Fonte: Artigo “Agroecologia: algumas definições presentes nas publicações brasileiras”. Vianna, N.S. et al. Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), Erechim/RS, 2026. Revisão bibliográfica com Análise Textual Discursiva (ATD) de 64 trabalhos recuperados do Portal de Periódicos da Capes (2015–2025), Web of Science e Scopus. Publicado em: Revista Cadernos Cajuína, v.11, n.4, e2466. DOI: 10.52641/cadcajv11i4.2466. ISSN: 2448-0916.
-A imagem que ilustra esta matéria foi criada utilizando IA.
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