Com El Niño sob vigilância, junho mais quente que a média e decreto de emergência ambiental já em vigor, o estado monta um plano de R$ 134 milhões antes do período crítico do fogo, que historicamente se concentra entre agosto e setembro.
Mato Grosso chega ao início de junho de 2026 na fase de preparação para a temporada de incêndios florestais, com Pantanal, Cerrado e Amazônia Legal sob vigilância. O avanço da estação seca, a previsão de temperaturas acima da média, a queda gradual da umidade do solo e a alta probabilidade de formação do El Niño levaram o governo estadual a decretar emergência ambiental e a anunciar um plano de R$ 134 milhões para o segundo semestre. O momento mais crítico, porém, ainda está por vir: o monitoramento por satélite mostra que agosto e setembro concentram cerca de metade dos focos de fogo registrados no país a cada ano.
O alerta vem antes do pico
O calendário climático pesa mais do que os focos que aparecem agora. Um levantamento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), apresentado em reunião técnica do Ministério do Meio Ambiente, ajuda a entender por quê: na média entre 2010 e 2024, o primeiro semestre respondeu por apenas cerca de 10% dos focos de fogo do ano no Brasil. Agosto e setembro, sozinhos, responderam por aproximadamente metade do total anual.
Até 11 de maio de 2026, o país somava 11.365 focos de fogo, número 3% abaixo da média histórica para o período e 12% acima do registrado em 2025. A leitura é menos tranquilizadora do que parece. Que os índices ainda não estejam em patamar crítico não esvazia o tema, ao contrário: a janela de prevenção é justamente agora, antes que a vegetação seque por completo.

El Niño volta ao radar
O Climate Prediction Center, ligado à agência climática dos Estados Unidos (NOAA), mantém o status de vigilância para o El Niño. O boletim mais recente do órgão calcula 82% de probabilidade de formação do fenômeno entre maio e julho de 2026 e 96% de chance de continuidade durante o inverno do Hemisfério Norte de 2026 e 2027.
No Brasil, nota técnica conjunta de Inpe, Inmet, Funceme e Censipam pondera que o Centro-Oeste não tem correlação tão direta com o El Niño quanto outras regiões do país. Ainda assim, o documento projeta tendência de temperaturas mais altas em Mato Grosso, Goiás e no Distrito Federal, sobretudo no fim do inverno e na primavera. Calor maior puxa a umidade relativa do ar para baixo e abre espaço para o avanço das queimadas.
Junho mais quente no Centro-Oeste
A previsão climática do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) para junho prevê temperaturas médias até 1°C acima da climatologia em todos os estados do Centro-Oeste. Em áreas do noroeste e do sudoeste mato-grossense, o desvio pode chegar a 1,5°C acima da média histórica do mês.
O instituto associa esse calor a baixos volumes de chuva, combinação que tende a reduzir a umidade do solo na região e a gerar déficit hídrico. O efeito não se restringe à vegetação nativa: alcança lavouras de segunda safra, pastagens e a água disponível para os rebanhos.
Emergência ambiental e fogo proibido
Diante do risco, o Governo de Mato Grosso publicou o Decreto nº 2.015/2026, que declara situação de emergência ambiental no estado entre abril e dezembro. A norma fixa o período proibitivo de uso do fogo de 1º de julho a 30 de novembro, válido para limpeza e manejo de áreas nos três biomas presentes em território mato-grossense: Amazônia, Cerrado e Pantanal.
O decreto cita como justificativa as previsões de estiagem prolongada, altas temperaturas, ondas de calor, baixa umidade do ar e ventos intensos. Ele também cria uma Sala de Situação Central, encarregada de monitorar o cenário, deliberar sobre questões técnicas, otimizar recursos e organizar a resposta rápida a queimadas ilegais. No plano federal, a Portaria GM/MMA nº 1.623/2026 já havia declarado emergência ambiental por risco de incêndios em Mato Grosso entre março e dezembro, alinhando o calendário da União ao do estado.
Um plano de R$ 134 milhões
Para o segundo semestre, o Plano de Ação de Combate ao Desmatamento Ilegal e Incêndios Florestais reúne R$ 134 milhões em ações de proteção, repressão e prevenção. A estrutura anunciada prevê 483 bombeiros militares mobilizados por dia, a contratação de 150 brigadistas estaduais e o emprego de 72 brigadistas municipais, com apoio da Força Nacional de Segurança Pública.

A frota e o maquinário completam o desenho: 80 viaturas, 28 máquinas, duas aeronaves Air Tractor, quatro aeronaves da Defesa Civil estadual e um helicóptero do Ciopaer. O planejamento ainda prevê cerca de 1,5 mil quilômetros de aceiros, faixas sem vegetação que travam o avanço do fogo, além de queimas prescritas em áreas definidas com antecedência para reduzir o material combustível antes da fase mais perigosa. Compõem o pacote uma plataforma tecnológica com sensoriamento, estatística, meteorologia e sistema de comando de incidentes, e a implantação do Centro de Pesquisa Aplicada aos Incêndios Florestais de Mato Grosso.
O peso do histórico recente
Dados do MapBiomas registram que o Brasil teve mais de 30,8 milhões de hectares queimados em 2024, alta de 79% em relação a 2023. Mato Grosso foi o segundo estado com maior área atingida no país naquele ano, com 6,8 milhões de hectares, atrás apenas do Pará, que registrou 7,3 milhões.
No Cerrado, o fogo consumiu 10,6 milhões de hectares em 2024, o equivalente a 35% de tudo o que queimou no Brasil. No Pantanal, foram 1,9 milhão de hectares no mesmo ano, com pico em agosto, quando 648.796 hectares arderam em um único mês. A série histórica do bioma amplia o quadro: entre 1985 e 2024, 62% do território pantaneiro queimou pelo menos uma vez.

Os números de 2025 trouxeram algum alívio. Em Mato Grosso, a área queimada caiu 71% até o fim de agosto na comparação com o mesmo período de 2024, somando 859,5 mil hectares, conforme balanço do Instituto Centro de Vida (ICV). A redução, porém, não se distribuiu de forma uniforme. A Amazônia respondeu por 457,2 mil hectares e o Cerrado por 396,4 mil, o que aproxima os dois biomas no topo da lista de áreas atingidas e desfaz a ideia de que o problema se concentra apenas na floresta.

Três biomas, três estratégias
A diferença entre as paisagens mato-grossenses exige respostas distintas. No Pantanal, o risco cresce quando a seca encolhe as áreas alagadas, expõe a vegetação ressecada e dificulta o combate em regiões remotas, acessíveis muitas vezes só por água ou ar. No Cerrado, a vegetação fica altamente inflamável com a queda da umidade, e um foco isolado pode virar um incêndio de grandes proporções em questão de horas.
Já na Amazônia Legal mato-grossense, o fogo em formações florestais pede atenção redobrada porque não faz parte da dinâmica natural dessas matas. Enquanto o Cerrado tem longo histórico de convivência com o fogo, a floresta amazônica não conta com essa dinâmica natural, e o estrago tende a ser mais duradouro. Por isso, prevenir o fogo no Pantanal não é a mesma coisa que combatê-lo no Cerrado ou na floresta.
A agropecuária também na zona de atenção
O tempo firme tem dois lados para o campo. Por um lado, favorece a colheita e a logística da safra. Por outro, a redução da umidade do solo pode prejudicar lavouras de milho de segunda safra semeadas mais tarde, que ainda dependem da umidade residual.
Na pecuária, o avanço do período seco enfraquece as pastagens, eleva a necessidade de suplementação animal e obriga o produtor a vigiar de perto a água disponível para o rebanho. O calor e a baixa umidade também aumentam o risco de incêndios acidentais em propriedades rurais, o que torna ainda mais necessária a manutenção de aceiros e a cautela com qualquer fonte de chama.
O que esperar
O início de junho não representa, sozinho, o auge da temporada de incêndios em Mato Grosso. O que os dados climáticos, o histórico recente e as medidas do poder público apontam é que a fase de prevenção já começou. A proibição do fogo entra em vigor em 1º de julho e segue até 30 de novembro, com os meses de agosto e setembro no centro da preocupação. A evolução das temperaturas, da umidade do solo, dos focos de calor e da resposta operacional nas próximas semanas vai medir a capacidade do estado de evitar que o fogo volte a atingir com força o Pantanal, o Cerrado e a Amazônia Legal.
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