Boletim do Copernicus, publicado hoje (08), mostra abril como o terceiro mais quente da série, com a temperatura média do mar a 0,02°C do recorde de 2024; INMET projeta seca no Norte e Nordeste, chuva acima da média no Sul e veranicos no Centro-Oeste, e modelos colocam 2027 como candidato a superar 2024 em calor.
O retorno do El Niño deve marcar o segundo semestre de 2026 e pode tornar 2027 um dos anos mais quentes já registrados. Boletim do serviço europeu Copernicus divulgado em 8 de maio mostrou que abril foi o terceiro abril mais quente da história, com temperatura média global do ar de 14,89°C, e que a temperatura média da superfície dos oceanos extrapolares chegou a 21,00°C, a apenas 0,02°C do recorde absoluto de abril de 2024. No Brasil, o INMET projeta seca no Norte e Nordeste, chuva acima da média no Sul e veranicos no Centro-Oeste, com efeito direto sobre safra, conta de luz, abastecimento de água e queimadas em Mato Grosso.
NOAA encerra La Niña e emite El Niño Watch
A NOAA, agência oceânica e atmosférica dos Estados Unidos, encerrou em 9 de abril o aviso de La Niña e passou a operar com um El Niño Watch. A entidade calcula 80% de chance de o sistema permanecer neutro entre abril e junho de 2026 e 61% de chance de o fenômeno emergir entre maio e julho, com persistência pelo menos até o fim do ano. A possibilidade extrema, de um El Niño muito forte, com anomalia igual ou maior que +2,0°C na região de monitoramento Niño 3.4, aparece com probabilidade de 25%.
O Instituto Internacional de Pesquisa Climática da Universidade Columbia mediu, em 15 de abril, a anomalia da região Niño 3.4 em +0,5°C, contra -0,25°C na média do primeiro trimestre. Os modelos do centro indicam 70% de chance de El Niño entre abril e junho, e probabilidades entre 88% e 94% para o restante do ano. Em comunicado de 24 de abril, a Organização Meteorológica Mundial confirmou que um evento de El Niño é esperado a partir de meados de 2026 e cobrou ações antecipadas em agricultura, gestão hídrica, energia e saúde.

Probabilidade de El Niño por trimestre em 2026, segundo NOAA, IRI/Columbia, INMET e CIEX/FURG.
Abril foi o terceiro mais quente da série
O Copernicus registrou a temperatura média global do ar do mês em 14,89°C, valor 0,52°C acima da média de 1991–2020 e 1,43°C acima da média pré-industrial estimada para 1850–1900. “Abril de 2026 foi o terceiro abril mais quente já registrado globalmente”, afirma o boletim, que classifica o mês como empate técnico com abril de 2016 e abril de 2020, atrás apenas de 2024 e 2025. Em 30 de abril, a temperatura diária média da superfície do mar entre 60°S e 60°N estava a apenas 0,02°C do valor registrado para a mesma data em 2024, ano que terminou como o mais quente da história e o primeiro a romper a marca de 1,5°C de aquecimento médio anual em relação ao período pré-industrial.
A AEMET, instituto meteorológico espanhol, registrou no país o abril mais quente desde 1962. A Météo France classificou o mês como o terceiro mais quente desde 1900, empatado com 2020. O norte espanhol e o sul francês bateram o próprio recorde para o mês desde o início da série, em 1979. Vastas áreas do Pacífico equatorial central, da costa oeste dos Estados Unidos e do litoral mexicano entraram em ondas de calor marinhas classificadas como categoria 3, o nível “forte” usado pelos boletins do Copernicus Climate Change Service.

Anomalia da temperatura média global do ar em abril, série 1979–2026.
Por que 2027 pode superar 2024
Cientistas avaliam se 2027 vai superar 2024 como o ano mais quente já registrado. O efeito do El Niño sobre a temperatura média global costuma aparecer com atraso, frequentemente no ano seguinte ao pico do fenômeno. Foi isso que ajudou a explicar o salto de 2024, depois do El Niño de 2023–2024. Se o evento previsto para 2026 se confirmar com intensidade alta, parte do calor acumulado no oceano será transferida à atmosfera em 2027, e o ano poderá entrar para a lista dos mais quentes já medidos.
A previsão ainda passa pela chamada barreira de previsibilidade da primavera, fase em que os modelos perdem precisão. A NOAA e a OMM insistem que 2026 não traz, até agora, nenhuma garantia de evento muito forte, classificação oficial mais alta da categoria. “Super El Niño” não é nomenclatura adotada por esses órgãos. Ainda assim, os boletins recentes apontam que a neutralidade do ENSO deixa de ser a opção mais provável a partir do segundo semestre.
Impactos regionais no Brasil
O INMET projeta para 2026 maior risco de seca no Norte e Nordeste, com impacto sobre rios, reservatórios, abastecimento humano, navegação e agricultura familiar do semiárido. A previsão para o Sul é de chuva acima da média, com risco de enchentes, deslizamentos, perdas em cereais de inverno e doenças fúngicas em lavouras. Já no Centro-Oeste e em parte do Sudeste, o problema é a irregularidade das chuvas no início da safra, com risco de veranicos prolongados em fases sensíveis das culturas.
No semiárido nordestino, episódios anteriores de El Niño já forçaram operações de carro-pipa em centenas de municípios e elevaram o tempo de espera por abastecimento. Em obras a céu aberto e na atividade rural, exposição a temperaturas acima de 40°C aumenta o risco de insolação e de afastamento do trabalho por estresse térmico. Para o consumidor, queda na safra de soja ou de milho do Centro-Oeste eleva o preço da ração animal, o que se repercute sobre ovos, frango e óleo de soja no varejo. No Sul, chuva concentrada na janela de colheita do trigo pode atrasar a retirada do grão, encarecer a farinha e o pão e elevar prêmios do seguro rural.

Mapa-resumo dos impactos previstos do El Niño nas regiões brasileiras.
Pressão sobre conta de luz e abastecimento
Em El Niños anteriores, com calor prolongado, aparelhos de ar-condicionado ficaram ligados por mais horas e o consumo residencial e comercial bateu recordes no fim da tarde, o que elevou o preço de curto prazo da energia. Quando a seca encolhe o nível dos reservatórios, o operador precisa acionar usinas térmicas, mais caras, e o custo extra é repassado ao consumidor pela bandeira tarifária. Para uma família que paga R$ 250 por mês de luz hoje, uma bandeira vermelha sustentada por seis meses pode adicionar entre R$ 60 e R$ 100 mensais à fatura, dependendo do consumo.
No abastecimento de água, o risco é parecido. A combinação de menos chuva no semiárido com evaporação maior por causa do calor já levou a rodízios em capitais nordestinas em ciclos passados de El Niño. Onde a coleta de água da chuva não está estruturada, a vulnerabilidade aumenta.
Em Mato Grosso, órgãos monitoram safra, queimadas e Pantanal
Em Mato Grosso, soja e milho safrinha dependem de chuvas regulares no plantio e no desenvolvimento inicial, e veranicos em fases sensíveis derrubam produtividade e travam a logística de portos do arco norte. Calor, baixa umidade e estiagem ampliam o risco de fogo em áreas de Cerrado, transição Cerrado-Amazônia e Pantanal, que queimaram áreas extensas em 2024. Nas faixas amazônicas do estado, o El Niño costuma estender a estiagem, matar árvores e acelerar a degradação florestal. No Pantanal, o regime de chuva nas cabeceiras define o nível das cheias; ao fim do período seco, o excesso de biomassa eleva o risco de incêndios prolongados.
No norte do estado, pecuaristas relatam pasto que seca antes da hora e aumento da ração comprada para suplementar o gado. Em assentamentos do sul mato-grossense, hortas e pequenos açudes secam, e famílias passam a comprar água engarrafada por semanas. Brigadistas do Pantanal já se preparam para uma temporada de incêndios mais longa, em uma agenda que costuma começar em julho.
Saúde pública sob pressão de calor e fumaça
Em 2024, ano recorde de temperatura, levantamentos do Ministério da Saúde apontaram aumento de internações por desidratação e por agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias em capitais brasileiras. Crianças, idosos, gestantes e trabalhadores ao ar livre são os mais expostos, segundo a Organização Pan-Americana da Saúde. Com a fumaça das queimadas, sobem os casos de asma e bronquite, e unidades básicas de saúde em municípios da Amazônia e do Pantanal podem ficar lotadas por semanas. Em áreas inundadas, predominam leptospirose, hepatite A e doenças diarreicas, com aumento da demanda sobre a rede municipal de saúde.
Medidas e próximos boletins
Defesa civil, secretarias estaduais de saúde, agricultura e meio ambiente, operadores de energia e companhias de saneamento podem antecipar planos de contingência com base nos boletins disponíveis. Para o cidadão, recomendações da Defesa Civil em ciclos anteriores incluíram hidratação reforçada, redução de exposição ao sol no pico do calor e revisão de telhados, calhas e bueiros antes da temporada de chuvas.
A próxima atualização técnica da NOAA está prevista para 14 de maio. A OMM divulgará nova rodada de probabilidades no fim do mês. As duas datas devem ajustar a margem de erro das previsões de ENSO antes da estação seca no Brasil.
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