Proposta orçamentária dos EUA para 2027 prevê fim de programas que alimentam séries usadas pelo CEMADEN e pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico em previsões diárias de seca e vazão
Quando o Climate Prediction Center, da agência americana NOAA, atualiza pela manhã o índice de saúde da vegetação numa fazenda de soja no Centro-Oeste, ou quando o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) projeta a vazão de Sobradinho a partir de séries de precipitação distribuídas por aquele mesmo centro, opera uma infraestrutura científica que a Casa Branca quer reduzir em 26% no orçamento federal americano de 2027 — corte que põe em risco séries operacionais usadas todos os dias pelo CEMADEN e pelo CPTEC/INPE.
A proposta da administração Trump, defendida em audiência no Congresso americano em 28 de abril, prevê desligar 35 projetos e institutos da NOAA, incluindo a Office of Oceanic and Atmospheric Research (OAR), divisão que mantém laboratórios climáticos e financia bolsas de pesquisa em universidades. Análise do boletim Balanced Weather mostra corte real de cerca de 33% em relação ao nível efetivo de 2026, ou US$ 1,6 bilhão a menos no caixa da agência, segundo nota da ONG Ocean Conservancy.

O Climate Prediction Center mantém produtos específicos para o Brasil — desde o atlas de precipitação iniciado em 1961 até as previsões diárias do modelo GFS, distribuídas em grade global e em séries de chuva quase em tempo real. Boa parte desse material chega ao país via NOAAPORT, redistribuído pelo CPTEC/INPE e pelo INMET.
Soja, milho e o aviso de seca antes da safra
O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN) usa o Vegetation Health Index (VHI), produzido pelo NOAA STAR a partir de satélites polares americanos, dentro do seu Índice Integrado de Seca. Quando o VHI cai abaixo de 40%, a área é classificada como em seca agrícola. Um artigo publicado em 2025 na revista Natural Hazards and Earth System Sciences mostrou que modelos de aprendizado de máquina conseguem antecipar essa queda em cerca de um mês para áreas produtoras de soja e milho.
Outro estudo, na Remote Sensing of Environment, mostrou que o Evaporative Stress Index (ESI), também derivado de satélites da NOAA e desenvolvido pelo grupo CIMSS, captou episódios de “flash drought” no Sul e no Nordeste antes que anomalias clássicas de chuva mostrassem o problema.
Reservatórios e o efeito El Niño
Mais de 65% da geração elétrica brasileira ainda é hidrelétrica. Estudo publicado na Revista Brasileira de Recursos Hídricos mostra que os modelos hidrológicos usados em 41 bacias de interesse do setor, cobrindo 31 grandes usinas, dependem da CPC Unified Gauge-Based Analysis of Global Daily Precipitation, produto da NOAA, como uma das poucas bases globais com resolução diária e grade de até 0,5 grau disponíveis em tempo real. As diferenças entre bases já chegam a 40% na chuva anual em algumas bacias e se propagam para as simulações de vazão de usinas como Tapajós, distorcendo indicadores de desempenho usados no planejamento do sistema elétrico.
No Nordeste, artigo publicado na PLoS One examinou a vazão do São Francisco e da Usina de Sobradinho entre 1964 e 2017 e registrou queda média de cerca de 30%, com os índices de El Niño-Oscilação Sul (Niño 3.4 e ONI) e os de dipolo do Atlântico (TSA e TNA), todos calculados pela NOAA, como referência para o planejamento energético.
Avisos de seca e chuva extrema
O CEMADEN responde por avisos de seca no Brasil inteiro e usa, além do VHI, o Standardized Precipitation Index (SPI) na versão produzida pelo NOAA-NIDIS em conjunto com o GPCC alemão. Para o Sul do país, os produtos CMORPH e GFS da NOAA integram o conjunto consultado pelo INMET e por centros estaduais antes da emissão de alerta de chuva extrema.
Mauna Loa e a série de CO₂ desde 1958
Entre os alvos da proposta está a Global Monitoring Laboratory, em Boulder, no Colorado, que opera a rede de medição contínua de CO₂ atmosférico — a Curva de Keeling — no observatório de Mauna Loa, no Havaí, em funcionamento desde 1958. Em 16 de abril, uma interrupção em bolsas chegou a afastar temporariamente equipes do laboratório, situação revertida apenas após liberação emergencial de recursos.
O embate em Washington
A defesa do corte foi feita pelo administrador da NOAA, Neil Jacobs, em audiência da Câmara americana no fim de abril. Ele argumentou que a pesquisa interna seria realocada para os escritórios operacionais, o National Weather Service e o National Ocean Service, e que o foco do corte seria a pesquisa extramuros, financiada por bolsas competitivas. Deputados democratas e ao menos um republicano questionaram o argumento. A Ocean Conservancy divulgou nota em 3 de abril chamando a proposta de “imprudente e míope”. O diretor do Office of Management and Budget americano, Russell Vought, afirma em declarações públicas que dotações aprovadas pelo Congresso são “teto, não piso”, e o Executivo tem atrasado a liberação de bolsas mesmo após aprovação legislativa. Dados do USASpending mostram que, até o fim de março de 2026, a NOAA havia concedido apenas 7 novas bolsas, ante 379 no mesmo período de 2025.

ECMWF registra queda de 10% nas observações dos EUA
As observações da NOAA entram no sistema global coordenado pela Organização Meteorológica Mundial e são processadas por centros como o europeu ECMWF, que já registrou queda de cerca de 10% nas observações americanas, inclusive balões meteorológicos que medem o perfil vertical da atmosfera. O CPTEC/INPE usa saídas da NOAA e do ECMWF em suas previsões diárias.
Não existe, até agora, estimativa numérica oficial brasileira do impacto desses cortes sobre os sistemas que usam os dados da NOAA.
Transparência: a imagem que ilustra esta matéria foi criada utilizando IA com prompt de Rogério Florentino.
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