Investigação do Greenpeace expõe a lavagem de ouro ilegal por 98 Permissões de Lavra Garimpeira, que declararam 25,3 toneladas de ouro, cerca de R$ 18,4 bilhões, enquanto a destruição migra de uma Terra Indígena para outra
Uma investigação do Greenpeace Brasil detalhou como a Permissão de Lavra Garimpeira (PLG), criada em 1989 para regular o garimpo artesanal, virou a principal fachada da lavagem de ouro ilegal na Amazônia. Ao examinar 187 processos minerários no Pará, em Mato Grosso e em Rondônia entre 2018 e 2026, o relatório encontrou 98 PLGs com irregularidades graves, responsáveis por 25,3 toneladas de ouro, cerca de R$ 18,4 bilhões em valores de maio de 2026. O estudo Lavagem de ouro na Amazônia: anatomia de uma fraude foi divulgado em 29 de maio de 2026.
A licença que vira fachada
A Permissão de Lavra Garimpeira é um regime de extração mineral outorgado pela Agência Nacional de Mineração (ANM), criado para organizar o garimpo de pequena escala. Como a lei não exige pesquisa mineral prévia, qualquer declaração de quantidade de ouro extraído pode ser aceita como verdadeira, mesmo sem dados geológicos que a contestem. É essa folga que permite registrar como legal o metal tirado de Terras Indígenas e de Unidades de Conservação.
As 98 PLGs com irregularidades graves concentraram 97% de todo o ouro declarado na amostra. Delas saíram as 25,3 toneladas, e 94% foram classificadas como garimpos fantasmas ou operações em escala industrial. São as duas táticas centrais da fraude.

As duas manobras têm desenhos distintos. Nos garimpos fantasmas, a permissão declara toneladas de ouro, mas imagens de satélite e sobrevoos mostram a floresta intacta ou com pouca atividade, incompatível com o volume informado. Esse tipo responde por 29,6% das 98 PLGs irregulares e por 48,5% das 25,3 toneladas. Na escala industrial, vários processos minerários concedidos no mesmo recorte de território são explorados como se fossem uma única operação, o que escapa do licenciamento ambiental mais rígido. Esse arranjo é 66,3% das permissões irregulares e responde por 49,2% do ouro declarado.
A fraude se apoia em brechas antigas de fiscalização. Por anos, a venda no primeiro elo da cadeia oficial dependeu apenas da palavra do vendedor: uma nota manuscrita bastava como prova de origem, no chamado princípio da boa-fé. No Brasil, só as distribuidoras de títulos e valores mobiliários, as DTVMs, podem comercializar minério recém-extraído, e deveriam ser o primeiro ponto de controle da origem do ouro. Os primeiros reparos vieram em 2023, quando o governo federal adotou a nota fiscal eletrônica e cancelou esse princípio.
Sararé, o novo epicentro do garimpo em Mato Grosso
A papelada fraudada tem destino físico, e ele muda de lugar. Em Mato Grosso, a Terra Indígena Sararé tornou-se o caso mais grave do monitoramento mais recente. Território do povo Nambikwara, com 67.719 hectares e apenas 201 habitantes, a área foi incluída no acompanhamento do Greenpeace depois de um avanço rápido do garimpo.
Os números explicam a entrada na lista. Em 2024, a Sararé bateu seu próprio recorde de destruição, com 1.197 hectares abertos, contra 619 no ano anterior, uma alta de 93%. Somados, os dois anos respondem por 1.816 hectares destruídos, o que faz do território o mais afetado entre os monitorados no período. O passivo acumulado já passa de 2.164 hectares.
Há crime organizado por trás do avanço. Lideranças indígenas relatam que facções ligadas ao Comando Vermelho atuam em garimpos ao longo da fronteira oeste do território, com violência e ameaças de morte. Desde 2020, a ofensiva sobre a Sararé destruiu rios e matas do entorno e impôs danos sociais às comunidades da região, num estado que costuma figurar entre os maiores exportadores de ouro do país.
O garimpo troca de endereço
O caso da Sararé não é isolado. Ele faz parte de um padrão nacional: a repressão em um território empurra a atividade para o seguinte. Entre 2023 e 2024, o garimpo ilegal destruiu 4.219 hectares em quatro das maiores Terras Indígenas da Amazônia brasileira, área maior que o Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro.
A leitura por território mostra o deslocamento com clareza. A destruição caiu na Terra Indígena Yanomami (-7%), na Munduruku (-57%) e na Kayapó (-31%) de 2023 para 2024, justamente onde as operações federais foram mais intensas. No mesmo intervalo, disparou na Sararé (+93%). A atividade não diminuiu, apenas mudou de lugar.

Olhando a década inteira, o rastro é fundo. O garimpo já abriu 16.132 hectares na Kayapó, 7.161 na Munduruku, 4.149 na Yanomami e 2.164 na Sararé. Juntas, Kayapó, Munduruku e Yanomami concentram mais de 90% do garimpo ilegal encontrado dentro de territórios indígenas na Amazônia brasileira.
O salto recente tem origem política e tecnológica. Entre 2018 e 2022, a área garimpada dentro de Terras Indígenas cresceu 265%, com 16 mil hectares abertos. Entre 2019 e 2022, o garimpo ultrapassou a mineração industrial de ouro no país. A mecanização explica boa parte do estrago: uma escavadeira hidráulica faz em 24 horas o trabalho que três homens levariam 40 dias para concluir, o que multiplicou a capacidade de destruição de cada frente.
As operações federais provaram que a reversão é possível onde há presença contínua do Estado. Na Terra Indígena Yanomami, os garimpos consolidados e as novas frentes recuaram mais de 90% depois de dois anos de ação, com melhora na qualidade da água dos rios. O problema é a permanência: à medida que o preço do ouro sobe, as frentes reaparecem e migram.
Mercúrio nas aldeias e nos peixes
O custo do garimpo vai além dos hectares destruídos. O mercúrio usado para separar o metal é altamente tóxico ao sistema nervoso central e se acumula na cadeia alimentar. Em 2024, a Fundação Oswaldo Cruz constatou que 84% da população de nove aldeias Yanomami estava contaminada pelo metal. Entre os Munduruku, pesquisa anterior da mesma instituição encontrou seis em cada dez indígenas analisados com níveis acima do limite da Organização Mundial da Saúde.
A contaminação não fica restrita às aldeias. Um levantamento de 2023 em mercados de 17 cidades amazônicas achou um em cada cinco peixes com mercúrio acima do teto seguro, num estudo que reuniu Fiocruz, WWF-Brasil, Instituto Socioambiental, Iepé, Universidade Federal do Pará e Greenpeace. Aves que vivem perto de áreas de garimpo chegam a apresentar concentrações até seis vezes mais altas.
O custo humano já tem números. Na Terra Indígena Yanomami, onde a crise sanitária ganhou repercussão mundial no início de 2023, 570 crianças com menos de 4 anos morreram por causas evitáveis entre 2019 e 2022, o que levou o governo a decretar estado de emergência. A floresta também é atingida: o Brasil é o segundo país do mundo que mais perde área de floresta para a mineração, embora o desmatamento na Amazônia tenha caído 30% entre agosto de 2023 e julho de 2024.
O rastro que termina na Suíça
Depois de esquentado, o ouro brasileiro entra num fluxo internacional difícil de rastrear. Em 2024, a extração global do metal bateu recorde, com 5.031 toneladas, em um ano de alta de 44% no preço, o melhor desempenho desde a virada do milênio. A valorização puxa a demanda e, com ela, a pressão sobre a floresta.
As estatísticas de comércio exterior expõem o descompasso. Em 2022, a Suíça registrou importação de ouro do Brasil 67% maior do que o país declarou ter exportado para lá; em 2023, a diferença foi de 62%, lacunas de 9,7 e 8,7 toneladas. Padrão parecido aparece nos Emirados Árabes Unidos, com importações 48% maiores em 2022 e 138% maiores em 2023 do que os registros brasileiros de exportação.

A Suíça concentra o problema. Quatro das sete maiores refinarias de ouro do mundo ficam em seu território, onde o metal importado é reprocessado e reexportado sob o rótulo de ouro suíço, qualquer que seja a origem. Em 2024, 4,5 toneladas de ouro da Amazônia foram para o país, 23% de tudo o que ele importou do Brasil naquele ano, ainda que refinarias suíças tivessem assinado, em 2022, uma declaração de que não aceitariam ouro ilegal da região. Das importações de ouro brasileiro feitas pela União Europeia em 2023, 94% carregavam alto risco de ilegalidade.
No fim da cadeia, o ouro vira reserva. Os bancos centrais detêm mais de 35 mil toneladas de ouro, um quinto de tudo o que já foi extraído no mundo, e voltaram a comprar com força na última década. Essa demanda global sustenta a pressão sobre territórios como o Sararé e o Yanomami.
O que falta à ANM
Para romper o ciclo, o Greenpeace cobra das autoridades brasileiras um programa permanente de desintrusão, a proibição do mercúrio no garimpo, uma auditoria das PLGs ativas e o reaproveitamento do ouro confiscado para recuperar áreas degradadas. No plano internacional, as exigências incluem transparência da Suíça sobre toda a cadeia de fornecimento e a inclusão de riscos ambientais nas regras europeias de diligência. Mesmo depois da COP30, realizada em Belém em novembro de 2025, a fraude das PLGs seguiu ativa, como mostram os dados de 2026.
O relatório completo, com os casos mais emblemáticos da investigação e recomendações para a ANM, está previsto para 1º de junho de 2026. A organização também lançou a campanha Amazônia Livre de Garimpo, que pede mais transparência e fiscalização.
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