Water Forward, lançado em 15 de abril em Washington, quer atender um bilhão de pessoas até 2030; Brasil estava previsto na primeira leva de seis países, mas não assinou
O Banco Mundial lançou no dia 15 de abril, em Washington, o Water Forward, programa global que promete levar água potável, saneamento e irrigação a um bilhão de pessoas até 2030. O Brasil estava no planejamento original para entrar entre os seis primeiros países a firmar o pacto, mas ficou de fora da lista dos 14 que assinaram no lançamento. Sem esse pacto nacional, Mato Grosso também perde, por enquanto, a porta que o programa abre para projetos de irrigação, saneamento e proteção de nascentes, mas há alternativa.
Os 14 que assinaram, e o Brasil que ficou fora
O anúncio em Washington trouxe pactos firmados por Albânia, Angola, Bolívia, Camboja, Camarões, Costa do Marfim, Jamaica, Jordânia, Quênia, República Democrática do Congo, Senegal, Serra Leoa, Uzbequistão e Vietnã. Cada um desses países assume, no pacto, reformas de tarifa e regulação no setor de água em troca de acesso coordenado a empréstimos de bancos multilaterais, garantias contra risco político e apoio técnico.
O Brasil estava previsto para assinar nesse primeiro grupo. O documento que guiou o lançamento, o Water Strategy Implementation Plan (WSIP), fechado pelo Banco Mundial em dezembro de 2025, listou o país ao lado de Camboja, Senegal, Uzbequistão, Chade e Iêmen como os seis que fechariam pactos em abril. Só três desses cumpriram o combinado. Chade e Iêmen também ficaram de fora. O Brasil, também.
O banco não explicou publicamente o que travou cada ausência. A própria nota de rodapé onde a lista aparecia já condicionava a primeira leva à “confirmação dos governos” e ao “compromisso de alto nível”, ou seja, a decisão política tomada dentro de cada país. Até 17 de abril de 2026, o governo brasileiro não havia dito, em público, se pretende retomar a conversa.
Mais 13 países estão na fila
Além dos 14 que assinaram, o mesmo documento lista 27 países no radar do programa para os próximos anos. O Brasil está entre eles, ao lado de Chile, Peru, Filipinas, Paquistão, Turquia e outros.
O mecanismo é sempre o mesmo: cada país chega com suas prioridades, que podem ir do saneamento urbano à irrigação no agronegócio, passando por defesa contra secas ou enchentes e proteção de bacias, e apresenta um plano de reformas com metas quantificadas e prazo. O Banco Mundial e os parceiros do Water Forward coordenam, do outro lado da mesa, o financiamento e a cooperação técnica.

A jogada: organizar o dinheiro que já existe
O Water Forward não é um fundo novo. É um arranjo que reúne dez bancos multilaterais (entre eles BID, European Investment Bank, Banco Islâmico de Desenvolvimento e Novo Banco de Desenvolvimento dos Brics), doadores bilaterais, fundações filantrópicas e setor privado em torno da agenda de água. Todos esses atores já emprestam ou doam para projetos hídricos. O que faltava, segundo o banco, era coordenação e uma carteira estruturada de projetos prontos para receber o dinheiro.
A meta conjunta é beneficiar um bilhão de pessoas com ganho de segurança hídrica até 2030. Desse total, o Banco Mundial assumiu 400 milhões. O restante fica a cargo dos parceiros.
O WSIP estima que quatro bilhões de pessoas enfrentam escassez de água todo ano e que o setor precisa de mais de US$ 1 trilhão em investimento por ano, seis vezes o volume aplicado hoje. “Água é a base de como as economias funcionam”, disse o presidente do Banco Mundial, Ajay Banga, no lançamento. “Quando os sistemas de água funcionam, os agricultores produzem, as empresas operam e as cidades atraem investimento.”
Brasil é vitrine, mas não cliente
O Brasil aparece quatro vezes no WSIP como exemplo do que o Water Forward quer replicar em outros lugares.
O caso mais citado é o da Sabesp. Depois que a estatal paulista adotou tarifas que cobrem os custos reais do serviço e uma regulação previsível, atraiu US$ 13 bilhões em investimento privado, valor que o Banco Mundial registra como prova de que reforma regulatória funciona. O WSIP aponta a operação como modelo na agenda de saneamento urbano do programa.
Também entra no documento o sistema federal de combate a secas. O monitoramento coordenado pelo antigo Ministério da Integração Nacional, hoje Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, em parceria com governos estaduais, atende 27 milhões de pessoas no semiárido e é citado como referência de política pública para risco climático. Em outros dois trechos, o banco usa o Brasil como exemplo de país de renda média capaz de captar dívida no mercado interno para bancar infraestrutura hídrica, ao lado de Uruguai e Indonésia.
O que Mato Grosso ganha se o Brasil entrar
O Water Forward funciona por pacto nacional. Estados não assinam direto. Para Mato Grosso entrar no programa, o governo federal precisa primeiro fechar o pacto brasileiro.
Se isso acontecer, três das sete agendas prioritárias do programa tocam diretamente o campo mato-grossense: irrigação em pequenas propriedades, com crédito e bombas solares para o produtor; modernização de perímetros de grande porte, com contratos de desempenho que incluem agroindústria e pivôs; e restauração de bacias e proteção de nascentes no Pantanal e no Cerrado, onde nascem o Xingu, o Araguaia, o Juruena e afluentes do rio Paraguai.
Hoje, porém, Mato Grosso não aparece em nenhuma passagem da documentação do Water Forward. O único projeto do estado que o Banco Mundial tem em carteira é o Mato Grosso Resilient, Inclusive, and Sustainable Learning Project, voltado à educação, desenhado antes do Water Forward e sem relação com água.
Existe atalho, e outros estados já usaram
Há um caminho alternativo que dispensa esperar por um pacto nacional, e dois estados brasileiros já usaram. O Ceará negociou diretamente com o Banco Mundial um programa de segurança hídrica que financia adutoras ligando grandes reservatórios a cidades do semiárido. O Espírito Santo fez algo parecido com o programa Reflorestar, de pagamento por serviços ambientais a proprietários rurais que protegem nascentes da Mata Atlântica.
Em tese, Mato Grosso pode seguir o mesmo atalho e, se um dia um pacto brasileiro for firmado, enquadrar essas operações dentro dele. O pré-requisito é ter uma carteira de projetos em condição de contratação: estudos técnicos prontos, análise ambiental, modelagem financeira. Sem isso, mesmo existindo financiamento, não há operação a contratar.
O tamanho dos pactos já firmados
A República Democrática do Congo anunciou US$ 20 bilhões para atingir 60% de acesso à água potável até 2035. A Costa do Marfim mirou US$ 7,6 bilhões, com mais de US$ 1 bilhão vindos do capital privado, para alcançar 32 milhões de pessoas até 2030. A Albânia fixou 1,3 bilhão de euros para a próxima meia década.

São valores altos, mas não representam dinheiro 100% novo. Boa parte vem de empréstimos que os países já fariam ao Banco Mundial e a outros bancos multilaterais, agora reorganizados dentro de uma agenda única. O Brasil, como economia de renda média alta e cliente tradicional do BIRD, braço do Banco Mundial para países de renda intermediária, é elegível a esse mesmo pacote de instrumentos.
A decisão é política
Nada no desenho do Water Forward exclui o Brasil. O que falta é decisão do Executivo federal. Pela lógica do programa, a adesão parte do próprio governo: o país anuncia interesse em negociar, tipicamente em fórum internacional, e abre a conversa com o banco.
Essa sinalização formal ainda não havia ocorrido até 17 de abril de 2026. A decisão envolve coordenação entre ministérios com atuação sobre água, saneamento, meio ambiente e desenvolvimento regional, com a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico no papel de órgão técnico.
O Banco Mundial diz que a lista do Water Forward será atualizada em fases, com novos pactos ao longo de 2026 e 2027. Até a publicação desta reportagem, não havia pronunciamento oficial do governo federal sobre o assunto.
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