Operações destroem R$ 226 milhões em equipamentos, mas facção se entrincheira com bunkers e fuzis, transformando território Nambikwara em zona de guerra.
Uma terra rasgada por escavadeiras, silenciada por fuzis e controlada por uma das maiores facções do país. A Terra Indígena Sararé, no oeste de Mato Grosso, tornou-se o epicentro de uma guerra financiada pelo ouro, onde o Estado tenta, com operações sucessivas, retomar um território que hoje funciona sob a lógica do crime organizado. Desde o início de agosto de 2025, a megaoperação Xapiri-Sararé aplicou um prejuízo superior a R$ 226 milhões aos invasores, mas encontrou uma resistência inédita: bunkers subterrâneos, armamento de guerra e uma estrutura criminosa que se recusa a recuar.
Enquanto as forças de segurança avançam, a comunidade indígena Nambikwara, com cerca de 250 pessoas, vive acuada. O barulho dos motores não cessa, os peixes morrem contaminados por mercúrio e a floresta, que garantia seu sustento e sua medicina, desaparece a um ritmo alarmante. O garimpo já devorou uma área equivalente a mais de mil campos de futebol apenas no primeiro semestre de 2025, colocando a TI Sararé no topo do vergonhoso ranking nacional de alertas de garimpo.
O avanço da serpente dourada
A escalada da violência e da destruição não é recente, mas ganhou contornos de guerra nos últimos dois anos com a chegada do Comando Vermelho. O que antes era uma invasão desordenada de garimpeiros se transformou em uma operação empresarial do crime. A facção controla a maioria das “currutelas”, pequenos acampamentos que se espalham pelo território, impondo sua lei com mão de ferro. “Acreditou, deixou entrar. Minha comunidade, ela acreditou nesses garimpeiros”, confessou uma indígena que, por medo, preferiu não se identificar.
Essa cooptação, movida a promessas de dinheiro fácil, dividiu as aldeias. Lideranças que se opõem à exploração vivem sob ameaça. Pelo menos 10 indígenas estão marcados para morrer, e a Polícia Civil estima que mais de 60 assassinatos já ocorreram desde 2023 em disputas pelo controle da extração. O delegado regional João Paulo Berté explica que a facção primeiro vendia drogas e, ao perceber o potencial do ouro, passou a dominar a área com extrema violência.
O resultado é um cenário de terror. “Os garimpeiros, toda hora, ameaça. Todo dia… que ele vai matar, matar. Se você não deixar trabalhar aqui, ele te mata tudo. Mata”, relatou outro indígena. A insegurança alimentar é uma realidade. Tainá Katitaurlu, filha do cacique, descreve a situação com angústia: “Nós ainda temos mandiocas, milho e banana, e vários tipos de alimentos, mas não temos carne. Os garimpeiros espantaram os animais ou mataram eles, como os peixes nos rios que morrem pela poluição.”
A resposta do estado: força contra força
Diante do colapso da segurança e em cumprimento a uma determinação da Justiça Federal, uma força-tarefa monumental foi mobilizada. A Operação Xapiri-Sararé, coordenada pelo Ibama, reúne 15 órgãos de segurança e inteligência, incluindo a Polícia Federal, Força Nacional e até a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN).
Os números da operação impressionam. Apenas entre agosto e outubro de 2025, mais de 170 escavadeiras hidráulicas foram destruídas. O balanço consolidado até o final de agosto revela a inutilização de 490 acampamentos, 361 motores de garimpo e a apreensão de mais de 14 quilos de mercúrio. Contudo, foi no final de setembro, durante a incursão no “Garimpo do Cururu”, que os agentes entenderam a real dimensão do poderio inimigo.
Ao avançarem sobre a área, foram recebidos com disparos de fuzil. Durante os confrontos, que deixaram dois criminosos feridos, as equipes descobriram 14 bunkers subterrâneos. Escondidos sob alçapões camuflados, os abrigos guardavam estoques de alimentos, bebidas, equipamentos e um arsenal que incluía um fuzil 5.56 mm e espingardas calibre 12. Essas estruturas, projetadas para resistir a fiscalizações, mostram que o crime organizado não estava ali de passagem, mas para fincar raízes.
Apesar da destruição de mais de 470 escavadeiras desde 2023, a atividade ilegal persiste e se sofistica. Os criminosos usam lonas para camuflar maquinário, enterram motores em trincheiras e utilizam uma rede de internet via satélite e rádios para monitorar as forças de segurança.
Para entender melhor:
- Desintrusão: É o processo de retirada compulsória de não indígenas de uma Terra Indígena homologada. A medida é determinada pela Justiça e executada por órgãos federais para garantir a posse exclusiva do território aos povos originários, como previsto na Constituição.
- Currutela: Termo usado na região amazônica para designar pequenos acampamentos ou vilarejos de garimpeiros, geralmente com estrutura precária e estabelecidos próximos às áreas de extração de minério.
- Mercúrio: Metal pesado e tóxico usado no garimpo ilegal para separar o ouro de outros sedimentos. Seu descarte incorreto contamina rios, solo e peixes, causando graves danos neurológicos e ambientais. A contaminação se acumula na cadeia alimentar, chegando aos seres humanos.
Uma ferida que não fecha
Por que a TI Sararé se tornou o alvo principal? A resposta está em uma combinação de fatores. A intensificação da fiscalização em outras áreas, como as terras Yanomami e Kayapó, provocou uma migração de garimpeiros. A localização estratégica de Sararé, às margens da BR-174 e na fronteira com a Bolívia, facilita a logística para a entrada de maquinário pesado e o escoamento do ouro.
A Defensoria Pública da União (DPU), em abril de 2025, já havia recomendado a desintrusão imediata, alertando que operações pontuais produziam “apenas resultados temporários”. O documento enviado a ministérios e órgãos de segurança ressaltava a necessidade de um plano de atuação “mais complexo, com estruturas e ações integradas a longo prazo”.
A realidade confirma a análise. Acampamentos destruídos são reocupados semanas depois. A contaminação do Rio Guaporé já ultrapassou a fronteira, afetando o Parque Noel Kempff, na Bolívia, um patrimônio mundial da Unesco. A TI Sararé é a prova de que a destruição de equipamentos, por mais vultosa que seja, é insuficiente para desarticular redes criminosas que lucram com a devastação ambiental e a violação de direitos humanos.
A Operação Xapiri-Sararé continua sem prazo para terminar, mas a questão que permanece é o que acontecerá quando as forças de segurança deixarem o local. Sem uma presença permanente do Estado e sem atacar os financiadores do garimpo, a terra dos Nambikwara corre o risco de continuar sendo um território onde a única lei é a do mais forte.












