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Processos minerários em Mato Grosso crescem 130% em sete anos, diz estudo

Processos minerários em Mato Grosso cresceram 130% entre 2018 e 2025, alcançando 13.627 requerimentos que cobrem quase 25% do território do estado. Um total de 69 das 74 terras indígenas tem atividade minerária num raio de 10 km. A TI Sararé registrou 1.814 alertas de garimpo ilegal em 2025, o maior número do país. Na contramão, a sobreposição direta a territórios indígenas caiu 60%.
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Boletim da OPAN mostra avanço de 5.926 para 13.627 requerimentos entre 2018 e 2025; área total vinculada à mineração equivale ao território do Reino Unido

O número de processos minerários registrados em Mato Grosso saltou de 5.926, em 2018, para 13.627, em 2025 — aumento de 130% em sete anos. A área total vinculada a esses requerimentos soma 22,5 milhões de hectares, o equivalente a 24,9% do território estadual e a quase todo o Reino Unido. Os dados constam do Boletim de Pressões e Ameaças às Terras Indígenas, publicado em março de 2026 pela Operação Amazônia Nativa (OPAN). No sentido oposto, a área de processos minerários com sobreposição direta a terras indígenas diminuiu 60,27%, passando de 7.382,65 hectares para 2.784,80 hectares no mesmo período de monitoramento.

93% das terras indígenas com mineração no entorno

Dos 74 territórios indígenas existentes em Mato Grosso, 69 (93% do total na base de dados da Funai) têm processos minerários em um raio de 10 km. São 1.234 requerimentos que somam 2,56 milhões de hectares de áreas de entorno.

A Terra Indígena Vale do Guaporé concentra o maior volume: 143 processos no entorno e 237 mil hectares requeridos. Na sequência estão a TI Tadarimana (75 processos), as TIs Escondido e Sararé (72 cada) e a TI Areões (62).

O ouro é a substância predominante. A área de requerimentos para extração aurífera no entorno das terras indígenas soma 1,33 milhão de hectares, valor três vezes superior ao do segundo colocado, o cobre (471,9 mil hectares). Diamante (156,1 mil hectares) e manganês (106,7 mil hectares) aparecem em seguida.

Sararé: recorde de garimpo ilegal

Em 2025, a TI Sararé acumulou 1.814 alertas de garimpo ilegal, o maior registro entre todas as terras indígenas do Brasil, segundo monitoramento do Ibama. A supressão de vegetação causada pelas atividades de garimpo atingiu 743 hectares dentro dos limites da terra indígena.

Demarcada em 1985 e habitada por cerca de 200 indígenas do subgrupo Katitãuhlu, do povo Nambikwara, a TI Sararé tem 67.420 hectares e está localizada na fronteira oeste de Mato Grosso, às margens da BR-174. A facilidade de acesso e o escoamento do minério contribuem para a intensidade da atividade garimpeira, conforme apontou a Defensoria Pública da União (DPU).

O Ibama constatou o uso de cianeto, substância de alta toxicidade, no refino de minério no entorno da TI. Em novembro de 2024, uma fiscalização localizou bacia de cianetação em um dos garimpos. O córrego Água Suja e o rio Sararé estão contaminados por rejeitos, mercúrio e cianeto, segundo a associação indígena assistida pela DPU.

Em março de 2025, a DPU emitiu recomendação exigindo a retirada imediata de todos os invasores da terra indígena e a inclusão da área no calendário de desintrusões. As operações foram realizadas sob coordenação do Comitê Interministerial de Desintrusão, ligado ao Ministério dos Povos Indígenas (MPI), com participação de órgãos federais.

Pressão sobre povos isolados

A TI Piripkura, com registro oficial de povos indígenas isolados reconhecido pela Funai desde 1985, ocupa a terceira posição em área de processos minerários no entorno: 157.620 hectares distribuídos em 49 requerimentos. O ouro responde por 21 desses processos (79,1 mil hectares), seguido pelo cobre (9 processos, 37,1 mil hectares).

A TI Kawahiva do Rio Pardo, também com presença confirmada de povos isolados, tem 14 processos minerários num raio de 10 km, sendo 11 voltados à exploração de ouro (42,6 mil hectares).

No entorno da TI Apiaká do Pontal e Isolados, dois garimpos conhecidos na região norte do estado, Juruena e Novo Astro, operam a 12 km e 10 km do território, respectivamente. Parte desses garimpos opera desde a década de 1970 sem requerimento mineral ou licenciamento ambiental.

Bacia do Juruena sob pressão crescente

Na bacia do rio Juruena, o número de processos minerários passou de 1.261, em 2024, para 1.391, em 2025. A área sob pressão de mineração passou de 2,66 milhões de hectares para 2,85 milhões de hectares, expansão de 186,6 mil hectares em um ano, equivalente à área do município do Rio de Janeiro.

A Autorização de Pesquisa concentra 32% dos requerimentos na bacia (445 processos, 1,46 milhão de hectares). O Requerimento de Lavra Garimpeira responde por 13% (177 processos, 542,8 mil hectares). Esses dois títulos exercem as maiores pressões imediatas sobre os territórios indígenas, porque operam com licenciamento simplificado e, em muitos casos, sem consulta prévia aos povos afetados.

Sobreposição direta: queda com ressalvas

A sobreposição direta de processos minerários a terras indígenas diminuiu entre os dois períodos monitorados. Dos 14 requerimentos que ainda incidem sobre territórios, a maior concentração está na TI Kapôt Nhinore, com cinco processos. A principal mudança em relação a 2024 foi a retirada dos processos que incidiam sobre a TI Paukalirajausu, que respondia sozinha por 4.460 hectares de sobreposição.

A OPAN recomenda a substituição do Relatório de Controle Ambiental (RCA) pelo Estudo de Impacto Ambiental (EIA/RIMA) para todas as atividades de mineração num raio de 10 km das terras indígenas. Outra recomendação do documento é a criação de um grupo de trabalho interinstitucional, com ANM, Funai, Ibama, MPI e DPU, para acompanhar a tramitação dos 14 processos sobrepostos.

O Comitê Interministerial de Desintrusão deve manter operações na TI Sararé ao longo de 2025. A tramitação dos processos minerários em fase de Autorização de Pesquisa, que representam 29% do total estadual (3.918 requerimentos), pode resultar em pedidos de concessão de lavra nos próximos anos, caso as pesquisas confirmem viabilidade econômica.

Fonte: Boletim “Pressões e Ameaças às Terras Indígenas em Mato Grosso — Mineração 2024/2025”. Série Boletim de Pressões e Ameaças. Pereira, C.F.R. et al. Operação Amazônia Nativa (OPAN), Cuiabá, 2026. Dados do Sigmine/ANM cruzados com delimitações de TIs da Funai via análise espacial no QGIS, período 2018–2025.

-Transparência: a imagem que ilustra esta matéria foi criada utilizando IA.

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