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Mundo perde 324 bilhões de metros cúbicos de água doce por ano, aponta Banco Mundial

O primeiro Relatório de Monitoramento Global da Água do Banco Mundial revela que o planeta perde 324 bilhões de metros cúbicos de água doce por ano — volume suficiente para abastecer 280 milhões de pessoas. Com base em dados de satélite de 2002 a 2024, o estudo identifica quatro mega-regiões de secagem continental, aponta efeitos em cascata sobre emprego e biodiversidade e propõe um roteiro de políticas em três pilares para enfrentar a crise.
secagem continental banco mundial

Primeiro Relatório de Monitoramento Global da Água identifica surgimento de mega-regiões de secagem em quatro áreas continentais e alerta para efeitos em cascata sobre empregos, renda e biodiversidade

O planeta está perdendo água doce a uma taxa de 324 bilhões de metros cúbicos por ano — volume suficiente para abastecer 280 milhões de pessoas durante doze meses. A constatação é do relatório “Secagem Continental: Uma ameaça ao nosso futuro em comum”, primeira edição da série de Relatórios de Monitoramento Global da Água, publicado pelo Banco Mundial em 2026 com dados de satélite coletados entre abril de 2002 e abril de 2024.

Liderado pela pesquisadora Fan Zhang e assinado por nove autores de diferentes instituições, o trabalho combina duas décadas de dados das missões GRACE e GRACE Follow-On (NASA e Centro Aeroespacial Alemão) com informações microeconômicas para mapear o que os autores chamam de “secagem continental” — a redução persistente e de longo prazo das reservas de água doce em extensas áreas terrestres.

O tamanho do problema

A perda mediana de água doce em nível de bacia hidrográfica equivale a cerca de 3% da oferta anual renovável. Em bacias áridas que já sofrem com seca, essa proporção chega a 10%. O relatório registra que as áreas secas do planeta estão ficando mais secas e as áreas úmidas continuam a ficar mais úmidas, mas a magnitude da secagem é mais ampla e mais rápida do que a da umidificação.

Quatro mega-regiões de secagem em escala continental emergiram nas últimas duas décadas: o Alasca e o oeste e norte do Canadá; o norte da Federação Russa; a América Central e o sudoeste da América do Norte; e uma faixa extensa que abrange Ásia Central, norte da China, Europa, Oriente Médio, Norte da África, Sul da Ásia (exceto a Índia Peninsular) e Sudeste da Ásia.

Com exceção dos trópicos entre as latitudes 10°S e 20°N, todas as faixas latitudinais do planeta apresentam queda líquida nas reservas de água doce — mesmo excluídas geleiras e mantos de gelo.

O que está por trás da perda

Nas regiões continentais em processo de secagem e sem geleiras, a perda anual de água doce já superou a decorrente do derretimento de geleiras e mantos de gelo (excetuados Antártica e Groenlândia). O principal fator de perda é a redução dos aquíferos subterrâneos, responsável por 68% do total. Água superficial responde por 18%, umidade do solo por 9% e água de neve por 5%.

Três causas convergem para essa tendência: o aquecimento global, o agravamento das secas e o uso insustentável da terra e da água. A análise do relatório demonstra que a mudança do uso da terra é um fator determinante. Regiões com florestas e áreas úmidas conservadas tendem a manter reservas maiores de água doce. Já as dominadas por urbanização e irrigação intensiva enfrentam esgotamento muito mais rápido. Um aumento de 1% na área de terras urbanas construídas produz uma perda de 0,74 milhão de toneladas por ano nas tendências de ATA (armazenamento terrestre de água). Em contraste, o mesmo incremento em zonas úmidas permanentes gera ganho de 0,19 milhão de toneladas por ano.

A sub-precificação da água na agricultura — que incentiva a extração excessiva de aquíferos — e a fragilidade da gestão integrada de recursos hídricos (GIRH) agravam o quadro. Nos países em que a GIRH é pouco desenvolvida (com pontuação abaixo do 30º percentil), as reservas de água doce se reduzem de duas a três vezes mais rapidamente do que nos países com gestão mais eficaz.

Empregos, renda e incêndios

Os efeitos da secagem continental se espalham em cascata pela economia. Na África Subsaariana, um choque de seca — definido como umidade do solo 1,5 desvio padrão abaixo da média de longo prazo — reduz a taxa de emprego em 2,5 pontos percentuais na média e em 7,5 pontos percentuais em áreas rurais dependentes da agricultura. Isso corresponde a entre 600 mil e 900 mil pessoas sem trabalho por ano devido à exposição a seca entre 2005 e 2018, ou uma perda de 7% a 9% dos empregos gerados anualmente na região. Mulheres, idosos, agricultores sem terra e trabalhadores pouco qualificados são os mais atingidos. O impacto sobre agricultores rurais sem terra é de 14,6 pontos percentuais negativos na probabilidade de estar empregado.

A interconexão das redes comerciais globaliza o problema. Uma simulação do relatório estima que uma queda de 100 mm na precipitação anual na Índia pode reduzir a renda real global em US$ 68 bilhões — dado baseado em cenário modelado, e não em medição direta de perdas anuais correntes.

A secagem continental também eleva o risco de incêndios florestais. O aumento de um desvio padrão na taxa de esgotamento de água doce eleva em 27% a probabilidade de ocorrência de incêndios e em 46% a área queimada. Em áreas de grande biodiversidade, a probabilidade de incêndios aumenta 50%. Pelo menos 17 dos 36 focos de biodiversidade reconhecidos globalmente enfrentam reduções sustentadas na disponibilidade de água doce.

Agricultura ineficiente em regiões que secam

O consumo global de água aumentou 25% entre 2000 e 2019. Cerca de um terço desse aumento ocorreu em regiões que já estavam secando. Parcela expressiva da produção agrícola nessas áreas é ineficiente: consome mais água por tonelada produzida do que pelo menos metade dos produtores globais sob condições climáticas e sistemas de produção similares.

Um quarto do consumo ineficiente de água na agricultura de sequeiro e um terço na agricultura irrigada estão concentrados em regiões com disponibilidade hídrica em declínio. Mais de dois terços da irrigação ineficiente nessas áreas estão associados ao cultivo de arroz, trigo, algodão, milho ou cana-de-açúcar.

Se todos os produtores de baixa eficiência em regiões em secagem atingissem ao menos os níveis medianos globais de eficiência, o consumo de água para irrigação de 35 culturas-chave poderia cair 18%. Em termos absolutos, o potencial de economia é de 137 bilhões de metros cúbicos anuais — equivalente às necessidades hídricas de 118 milhões de pessoas.

Muitos países com escassez de água realizam exportações ineficientes e insustentáveis de água virtual. Entre 2000 e 2019, cerca de 17% das exportações de água virtual provenientes de países em secagem e países áridos foram consideradas abaixo do ideal, percentual que sobe a 27% quando se consideram apenas culturas irrigadas.

Um roteiro em três pilares

O relatório propõe uma estratégia baseada em gestão da demanda, aumento da oferta de água e aprimoramento da alocação dos recursos hídricos. Cinco instrumentos transversais sustentam essa abordagem: fortalecimento institucional, reforma tarifária e reorientação de subsídios, adoção de contabilidade hídrica, uso de dados e inovações tecnológicas, e valorização da água no comércio.

Entre as medidas concretas, tecnologias como irrigação por gotejamento e alternância de alagamento e secagem podem reduzir o uso de água entre 20% e 50% sem comprometer a produtividade. A capacidade global de reuso de água atingiu 183 milhões de metros cúbicos por dia ao final de 2024, e mais de 20 mil usinas de dessalinização operam em mais de 150 países, atendendo cerca de 300 milhões de pessoas. A dessalinização, porém, ainda custa de duas a três vezes mais do que fontes convencionais.

O relatório alerta que ganhos de eficiência sozinhos não garantem economia real — sem regulamentação adequada, podem incentivar a expansão de áreas cultivadas ou a adoção de culturas mais intensivas em água, agravando a escassez. É o chamado Paradoxo de Jevons.

Próximos desdobramentos

O Banco Mundial prevê que os dados refinados do GRACE — com resolução de até 25 km, contra os 330 km originais — sejam institucionalizados como ferramenta de monitoramento por países em desenvolvimento. O roteiro de políticas estabelece ações escalonadas em curto prazo (até um ano), como auditorias de uso da água e implantação de medidores inteligentes, e em médio prazo (um a três anos), como o estabelecimento de marcos regulatórios para gestão de águas subterrâneas. Fora do setor hídrico, o relatório recomenda eliminação de barreiras comerciais, investimento em educação e capacitação profissional e melhoria do acesso a mercados e serviços financeiros como medidas para aumentar a resiliência dos empregos e dos meios de subsistência frente à secagem continental.

Fonte: Relatório “Secagem Continental: Uma ameaça ao nosso futuro em comum” — Visão Geral. Relatório de Monitoramento Global da Água. Autores: Fan Zhang et al. Banco Mundial, Washington, DC, 2026. Dados de satélite (missões GRACE/GRACE-FO, NASA e DLR), período 2002–2024. Disponível em: https://hdl.handle.net/10986/43683. Licença: CC BY 3.0 IGO.

  • A imagem que ilustra esta matéria foi ciada usando IA.

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