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Guerra em Sararé: Ibama intensifica cerco ao garimpo ilegal em terra indígena

Ibama realiza a Operação Xapiri-Sararé para combater o garimpo ilegal na Terra Indígena Sararé (MT), território do povo Nambikwara. A ação destrói dezenas de máquinas e acampamentos, enfrentando a violência do crime organizado e a devastação ambiental que ameaça aldeias.
Equipamentos de garimpo, como escavadeiras, são inutilizados pelo Ibama durante operação de combate à mineração ilegal na TI Sararé (MT).

Operações contínuas destroem centenas de máquinas e expõem a violência do crime organizado contra o povo Nambikwara, que vê a devastação chegar a 200 metros de suas aldeias.

A Terra Indígena Sararé, em Mato Grosso, vive sob a sombra de uma guerra não declarada. Com 1.814 alertas de exploração clandestina só em 2025, o território do povo Nambikwara se tornou o epicentro do garimpo ilegal no Brasil. Em resposta, uma ofensiva ininterrupta do Ibama, batizada de Operação Xapiri-Sararé, tenta frear a destruição que já consumiu mais de 740 hectares de floresta e encurralou aldeias, um conflito marcado pela violência extrema e pela presença ostensiva do crime organizado.

As ações são permanentes desde agosto. Elas combatem uma praga que migrou para a região após operações federais sufocarem a atividade em outras áreas da Amazônia. O resultado dessa migração é um cenário de devastação e confronto direto.

 

A dimensão da ofensiva

 

O saldo da Operação Xapiri-Sararé, iniciada em 1º de agosto, mostra o tamanho da estrutura criminosa. Até a última terça-feira (12), as equipes de fiscalização já haviam inutilizado 73 escavadeiras, 10 caminhões, 8 caminhonetes, 17 motocicletas e 66 motores de garimpo. Nada menos que 148 acampamentos foram completamente desmantelados.

A logística que sustentava o crime também foi atingida. Os agentes apreenderam 33 mil litros de combustível e mais de 10 quilos de mercúrio, metal altamente tóxico que envenena rios, solos e a vida selvagem. Em fazendas vizinhas, que serviam de base de apoio, o Ibama destruiu depósitos clandestinos de diesel e oficinas usadas para a manutenção do maquinário pesado.

 

Um rastro de violência

 

O confronto não é apenas material. Ele é sangrento. A tensão explodiu em setembro de 2024, quando cinco garimpeiros morreram ao atacar uma equipe do Ibama e da Polícia Rodoviária Federal. No mesmo período, uma disputa interna entre facções rivais terminou em uma chacina, com outros quatro mortos na área de exploração.

A violência se tornou rotina. Em um novo confronto em agosto de 2025, um garimpeiro foi morto após avançar com uma caminhonete contra os agentes federais. O episódio ilustra o nível de perigo que as equipes de fiscalização enfrentam diariamente, com o apoio da Força Nacional de Segurança Pública.

 

O dinheiro por trás da lama

 

Enquanto o Ibama atua no terreno, a Polícia Federal busca cortar o fluxo financeiro que alimenta a destruição. A Operação Ita Yubá, deflagrada em paralelo, investiga um esquema que teria movimentado R$ 200 milhões com a venda de ouro e pedras preciosas extraídos ilegalmente.

A ação resultou na apreensão de barras de ouro, dinheiro em espécie e no sequestro de um patrimônio vasto. Foram bloqueados apartamentos, casas, fazendas e até duas aeronaves, mostrando que a atividade criminosa é financiada por uma organização robusta e capitalizada.

 

Nambikwara, um povo refém

 

Para os cerca de 250 indígenas Nambikwara que vivem nas sete aldeias da TI Sararé, a realidade é de medo e perda. O território, homologado em 1985, está sitiado. As crateras abertas pelas escavadeiras avançam e já estão a menos de 200 metros de suas casas.

O impacto ambiental é devastador e talvez irreversível. Rios contaminados por mercúrio e óleo, assoreamento, desmatamento em larga escala e a destruição do habitat da fauna local são apenas parte do problema. Lideranças indígenas relatam que facções ligadas ao Comando Vermelho controlam a maioria dos garimpos, e mais de dez indígenas vivem sob ameaça de morte.

 

Um desafio que se move

 

Apesar da intensificação das operações, que desde 2023 já destruíram mais de 300 escavadeiras na região, o desafio persiste. O garimpo ilegal funciona como uma mancha de óleo: quando a pressão aumenta em um ponto, ele simplesmente se espalha para outro. A devastação saltou de menos de um hectare em 2019 para quase 1.200 hectares em 2024, um crescimento exponencial que expõe a resiliência do crime.

O maior obstáculo, segundo relatório do Greenpeace, continua sendo a dificuldade em rastrear os verdadeiros donos das máquinas. “As autoridades não conseguem identificar seus proprietários, o que dificulta a responsabilização das organizações criminosas que financiam e lucram com os garimpos”, aponta o documento. Sem cortar a cabeça da serpente, a luta do Ibama, ainda que heroica, corre o risco de ser uma batalha sem fim.

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