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Exclusivo: Cuiabá fica 1,76°C mais quente em duas décadas e dias de calor extremo quase dobram no arco agro de Mato Grosso

clima no arco agro de Mato Grosso

Pesquisa exclusiva feita pelo site LupaMT reuniu série de 23 anos do INMET para nove estações da faixa da soja, algodão e boi mostra salto térmico, alongamento da seca e anos recentes entre os mais quentes já registrados

A temperatura média anual de Cuiabá subiu de 26,27°C, na média do período 2003–2007, para 28,03°C na média 2020–2025. O dado, extraído das séries horárias da estação automática A901 do Instituto Nacional de Meteorologia, resulta em aquecimento de 1,76°C em pouco mais de quinze anos. Nas outras oito estações que cobrem o arco do agronegócio mato-grossense, a alta também aparece nos números. Em Guarantã do Norte, a média passou de 25,4°C para 26,3°C. Em Sinop, foi de 25,5°C para 25,9°C. Em Sorriso, de 25,8°C para 26,3°C. Os anos de 2020, 2023 e 2024 aparecem entre os cinco mais quentes de todas as estações analisadas.

Os dados vêm do Banco de Dados Meteorológicos do INMET (BDMEP) e cobrem nove estações automáticas escolhidas pela cobertura territorial e pela extensão da série: Cuiabá (A901), Tangará da Serra (A902), São José do Rio Claro (A903), Sorriso (A904), Campo Novo dos Parecis (A905), Guarantã do Norte (A906), Rondonópolis (A907), Sinop (A917) e Alta Floresta (A924). Juntas, as nove cobrem o cinturão que vai do cerrado da região de Cuiabá até o arco de transição para a Amazônia, onde se concentra a produção de soja, milho, algodão e gado de corte que responde por boa parte do PIB do estado.

Médias anuais sobem a partir de 2020

Entre 2003 e 2019, a média anual de Cuiabá ficou dentro da faixa de 26,1°C a 27,4°C, com apenas 2015 e 2019 passando dos 27°C. A partir de 2020, os valores anuais são outros: 28,58°C em 2020, 27,78°C em 2021, 27,39°C em 2022, 28,60°C em 2023 e 28,63°C em 2024, este último o maior valor de toda a série histórica. O ano de 2025 fechou em 27,20°C, ainda acima de qualquer ano anterior a 2019.

As outras estações do arco mostram movimento semelhante. Em Guarantã do Norte, a média anual de 2020 ficou em 27,22°C, mais de 1,3°C acima de qualquer ano anterior. Em Sinop, os valores mais altos foram 26,36°C em 2019 e 26,24°C em 2024. Em Rondonópolis, a média passou de 25,5°C em 2018 para 26,74°C em 2020. Em Sorriso, o ano de 2024 fechou em 26,79°C, o maior valor em 19 anos de registros.

Dias de 35°C dobram em Cuiabá

Outro indicador disponível na mesma série é o número de dias por ano com máxima igual ou superior a 35°C. Em Cuiabá, a média ficou em 86 dias por ano no período 2003–2019. Entre 2020 e 2025, passou para 169 dias, alta de 96%. Em 2024, a A901 registrou máxima igual ou superior a 35°C em 219 dias, dois terços do ano.

Em Rondonópolis, a média passou de 80 dias/ano (2003–2019) para 115 (2020–2025), alta de 44%. Em São José do Rio Claro, no norte do estado, a média quase dobrou: de 56 para 105 dias (+88%). Em Guarantã do Norte, foi de 56 para 83 (+49%). A única estação com leve redução foi a de Campo Novo dos Parecis, município em altitude mais elevada, cuja média caiu de 24 para 19 dias por ano. Em Sinop, Alta Floresta e Sorriso, os valores ficaram estáveis ou com leve queda, o que aponta para uma concentração do calor extremo no eixo sul e centro-oeste de Mato Grosso, fora das estações do arco norte.

45°C em Rondonópolis: máxima absoluta é de 2008

A máxima absoluta do arco agro foi registrada em 2 de outubro de 2008, em Rondonópolis: 45,0°C. O valor, anterior ao período de alta das médias anuais, continua como a maior temperatura já medida pelas nove estações analisadas e aparece em diferentes sensores do mesmo horário. Em Cuiabá, a máxima foi 43,7°C, em 2020. Em São José do Rio Claro, 42,4°C, também em 2020. Em Guarantã do Norte, 40,8°C, em 2024. Das nove estações, sete marcaram suas máximas absolutas em 2019 ou depois. As exceções são Rondonópolis (2008) e Sinop (40,0°C em 2015).

Chuva: 2.451 mm em Sorriso, 661 em Cuiabá no mesmo ano

Em 2024, a estação A901 de Cuiabá acumulou 661 mm de chuva, o menor total de toda a sua série. No mesmo ano, a A904 de Sorriso, 420 quilômetros ao norte, acumulou 2.451,8 mm, o maior total já registrado por aquela estação. Em 2023, as duas cidades também tiveram volumes opostos: 1.012 mm em Cuiabá, abaixo da média climatológica de 1.300 mm, contra 1.690 mm em Sorriso. No mesmo ano de 2023, Guarantã do Norte aparece com 141 mm, valor dentro da faixa considerada falha de sensor e excluído do painel principal.

O total médio de chuva do arco, considerando apenas as estações com cobertura consistente, não mostra tendência clara de aumento ou redução nos 23 anos da série. O que muda é a dispersão: a diferença entre o máximo e o mínimo anual cresce. Em 2010, a mediana anual do arco ficou em 740 mm. Em 2020, a mediana foi de 364 mm, o menor valor da série. Em 2024, a mediana voltou para 1.356 mm, com diferença de mais de 1.800 mm entre a estação mais seca e a mais chuvosa.

Cuiabá e a seca de 161 dias

A maior estiagem contínua da série em Cuiabá ocorreu em 2024: 161 dias consecutivos sem chuva mensurável, entre maio e outubro. O padrão de inverno seco na cidade já aparecia em séries anteriores, mas a ampliação de mais de três semanas sobre os anos mais secos do início do intervalo ocorre no mesmo período em que os totais mensais de chuva diminuem. A comparação mês a mês da A901 entre 2003 e 2025 aponta junho, julho e agosto próximos de zero em quase todos os anos recentes, março, abril e outubro com volumes menores em relação à primeira metade da série, e janeiro, fevereiro e dezembro com mais chuva concentrada em episódios isolados.

Noites tropicais: Cuiabá passa de 208 para 263 por ano

A mesma série traz um segundo indicador relevante para a lavoura e para o rebanho: o número de noites tropicais, ou seja, dias em que a temperatura mínima não cai abaixo de 22°C. Em Cuiabá, a média anual de noites tropicais passou de 208 para 263 entre os períodos 2003–2019 e 2020–2025, mais 55 dias por ano. Em Tangará da Serra, a média foi de 61 para 107 (+46). Em Sorriso, de 116 para 147 (+31). Em Sinop, de 84 para 98 (+14).

A temperatura mínima alta durante a madrugada afeta a respiração das plantas, processo pelo qual o vegetal consome parte da energia acumulada durante o dia. Noites quentes também aceleram a decomposição de grãos armazenados em silos sem controle de temperatura e elevam o estresse térmico em gado de corte confinado, o que reduz o ganho diário de peso.

Umidade mínima do ar cai em Cuiabá e em São José do Rio Claro

A umidade relativa mínima, medida em tardes de agosto e setembro nas estações do sul de Mato Grosso, ficou menor nos anos recentes. Em Cuiabá, o número de dias com umidade igual ou inferior a 20%, faixa na qual o Ministério da Saúde orienta suspensão de atividades ao ar livre, cresceu 41 dias na comparação entre os dois períodos. Em São José do Rio Claro, o aumento foi de 34 dias. Nas estações do arco norte (Alta Floresta, Guarantã do Norte e Sinop), o mesmo fenômeno aparece em intensidade menor.

A lacuna de 2021

Cinco das nove estações do arco agro (Sorriso, Sinop, Guarantã do Norte, Alta Floresta e Tangará da Serra) têm o ano de 2021 praticamente vazio na série automática do INMET. Os arquivos existem, mas as linhas horárias de temperatura, chuva e umidade aparecem em branco no ano imediatamente posterior ao recorde de 2020. Apenas Cuiabá, São José do Rio Claro e Rondonópolis mantiveram séries utilizáveis em 2021. Quem recorre ao BDMEP para cruzar dados de clima e safra naquele ano encontra a mesma lacuna.

Os quatro indicadores na mesma direção

Os quatro indicadores considerados na reportagem, média anual mais alta, mais dias acima de 35°C, mais noites tropicais e janelas secas mais longas, aparecem em oito das nove estações analisadas pelos 23 anos da série automática do INMET no arco do agronegócio mato-grossense. A maior parte da variação se concentra no intervalo 2020–2024. A exceção entre as nove é Campo Novo dos Parecis, em altitude mais elevada, sem elevação clara nos dias acima de 35°C.

O próximo ano climatológico completo disponível será 2026, que terminará em dezembro e cujas primeiras leituras, até o fechamento desta reportagem, ficam dentro da mesma faixa dos anos recentes: janeiro de 2026 fechou em 28,04°C na média de Cuiabá, valor acima de qualquer janeiro do período 2003–2019.

O que os 23 anos da série permitem afirmar

Os números desta reportagem cobrem 23 anos de dados horários de nove estações automáticas do INMET. O intervalo é mais curto do que os 30 anos usados pela Organização Meteorológica Mundial para definir normais climatológicas e não substitui uma série climatológica formal. Dentro desses 23 anos, os registros apontam temperaturas mais altas na média anual, mais dias com máxima igual ou superior a 35°C, mais noites com mínima igual ou superior a 22°C e janelas de seca mais longas em oito das nove estações analisadas: Cuiabá, Rondonópolis, Tangará da Serra, São José do Rio Claro, Sorriso, Guarantã do Norte, Sinop e Alta Floresta. A exceção é Campo Novo dos Parecis, a mais de 600 metros de altitude, sem alta nos dias acima de 35°C.

A série do BDMEP, considerada de forma isolada, não permite separar a variabilidade natural do clima regional, que já incluía verões quentes e invernos secos antes de 2003, do sinal atribuível a mudanças de uso do solo, desmatamento e emissões globais. Esse tipo de atribuição depende de cruzamentos com dados de satélite, séries convencionais mais antigas e modelos climáticos, trabalho feito por institutos como o INPE e a Embrapa.

Nas nove estações analisadas, a maior parte dos valores mais altos dos quatro indicadores aparece entre 2020 e 2024. O ano climatológico de 2026 termina em dezembro e será o 24º da série automática do arco agro de Mato Grosso.

Por que isso te afeta?

A série de 23 anos do INMET tem efeito direto sobre decisões tomadas todo ano por quem vive e trabalha no arco agro.

Para quem planta soja, milho e algodão, mais dias com máxima acima de 35°C, mais noites tropicais e janelas de seca mais longas alteram a janela de plantio, a escolha de cultivar, o volume de irrigação e o cálculo do seguro de safra. No confinamento de gado de corte, noite com mínima alta reduz o ganho de peso do animal e eleva o custo com sombreamento, ventilação e água. Cooperativas e escritórios de assistência técnica do arco agro ajustam ano a ano a base de recomendação entregue ao produtor.

Para o trabalhador que passa o dia no campo ou na construção civil, a combinação de calor diurno e umidade relativa baixa altera a hora de iniciar e encerrar o expediente. A Norma Regulamentadora 31 do Ministério do Trabalho prevê pausas em função do índice de calor, critério diretamente afetado pelo número de dias em que a máxima passa de 35°C.

Para o morador de Cuiabá, Sinop, Rondonópolis e das outras cidades do arco, o efeito aparece na fatura de energia, com ar-condicionado ligado por mais meses no ano; no racionamento de água durante a estiagem; no número de dias com alerta de fumaça de queimada; e na oscilação de preço dos produtos que dependem da safra regional.

Para a prefeitura, o governo estadual, a defesa civil e os centros de pesquisa, a série de 23 anos serve de insumo para planos de contingência, captação hídrica, combate a incêndios em unidades de conservação e estudos de atribuição climática, estes últimos a cargo do INPE, da Embrapa e de universidades.

Para quem decide safra, crédito, pausa de trabalho, captação de água ou plano de contingência, esses dados formam uma base comum medida, hora a hora, em nove pontos do arco agro ao longo de quase um quarto de século.

Nota metodológica

Os números da matéria vêm de séries horárias do Banco de Dados Meteorológicos do INMET (BDMEP) para nove estações automáticas: A901 (Cuiabá), A902 (Tangará da Serra), A903 (São José do Rio Claro), A904 (Sorriso), A905 (Campo Novo dos Parecis), A906 (Guarantã do Norte), A907 (Rondonópolis), A917 (Sinop) e A924 (Alta Floresta). O período de análise vai de 2003 a 2025, com dados parciais de 2026 incluídos no gráfico 1.

A comparação entre “antes” e “depois” usa duas janelas de cinco anos nas pontas da série: 2003–2007 como linha de base e 2020–2025 como período recente. Usar a média de toda a série como referência foi descartado porque a média de 2003–2025 contém os próprios anos quentes de 2020–2024 que se pretende medir, o que puxa a linha de base para cima e subestima o delta. Regressão linear sobre a série inteira também foi descartada, porque entregaria uma inclinação suave e apagaria o salto concentrado a partir de 2020. As janelas de cinco anos adotam a mesma lógica da convenção da Organização Meteorológica Mundial, que compara um período de referência fixo contra períodos posteriores. A diferença é que a normal climatológica formal da OMM exige 30 anos, não cinco.

Os quatro indicadores foram calculados assim: a temperatura média anual é a média das leituras horárias do ano; os dias acima de 35°C contam cada dia em que a máxima horária registrada atinge 35,0°C ou mais; as noites tropicais contam dias em que a mínima horária fica igual ou acima de 22,0°C; o comprimento da janela de seca é medido como número de dias consecutivos sem chuva mensurável.

Valores considerados falha de sensor foram excluídos caso a caso. Os 141 mm anuais de Guarantã do Norte em 2023, por exemplo, ficam abaixo do mínimo fisicamente plausível para a região e foram descartados do cálculo de média. O ano de 2021 aparece praticamente vazio em cinco das nove estações (Sorriso, Sinop, Guarantã do Norte, Alta Floresta e Tangará da Serra), lacuna documentada no próprio BDMEP, e está assinalado como ausência nos gráficos em que as estações afetadas aparecem.

Uma alternativa metodológica possível, que não foi adotada: comparar a média 2003–2019 contra a média 2020–2025 resultaria num delta menor em Cuiabá, da ordem de 1,4°C, na mesma direção do delta apresentado, e incluiria todos os anos da série sem descartar o intervalo 2008–2019. A janela de cinco anos na ponta inicial foi escolhida para reduzir o ruído de anos individuais: o efeito de eventos como o El Niño de 2015–2016 sobre uma média pequena é menor do que sobre uma janela de dezessete anos desequilibrada em favor de anos pré-2020. O leitor que reproduzir os cálculos com 2003–2019 como linha de base encontrará o mesmo sinal em intensidade levemente menor.

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