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Enchente do RS foi risco construído ao longo de décadas, conclui estudo do WRI Brasil

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Levantamento aplica metodologia de Investigação Forense de Desastres e identifica 11 causas raiz, 20 pressões dinâmicas e a fragilidade de uma governança presa às fronteiras municipais

Dois anos depois das chuvas que devastaram o Rio Grande do Sul em 2024, o WRI Brasil divulgou nesta quinta-feira, 7 de maio de 2026, um estudo com uma conclusão direta. Para os autores, a tragédia foi resultado de décadas de decisões de planejamento urbano, ocupação do solo, política habitacional e governança que ampliaram a vulnerabilidade do estado antes que a chuva chegasse. Assinada por Andressa Ribeiro, Pâmela Herrmann, Clara Strack, Henrique Evers, Lara Caccia e Luis Antonio Lindau, a publicação mapeou 11 causas raiz, 20 pressões dinâmicas e ouviu 30 especialistas em duas oficinas, com foco nas quatro regiões mais atingidas: Metropolitana, Santa Maria, Lajeado e Caxias do Sul.

A pesquisa, intitulada Entendendo a construção do risco: causas raiz do desastre climático de 2024 no Rio Grande do Sul, parte de uma frase categórica. Segundo os autores, “em 2024, o Rio Grande do Sul enfrentou o maior evento hidrometeorológico em magnitude já registrado no Brasil, com graves impactos sobre a população, a infraestrutura e a economia”. Os números do balanço mais recente da Defesa Civil estadual, atualizado em 19 de agosto de 2025, dão o tamanho dessa magnitude: 478 municípios atingidos, 2.398.255 pessoas afetadas, 806 feridos, pico de 581.638 desalojados em 19 de maio de 2024, 185 mortes confirmadas e 23 desaparecidos.

FORIN: a metodologia retrospectiva aplicada ao desastre

“O desastre, embora desencadeado por um evento hidrometeorológico extremo, foi produto de um processo histórico de construção do risco”, afirmam Ribeiro e demais autores na conclusão central do estudo. A metodologia adotada, conhecida pela sigla FORIN, ou Investigação Forense de Desastres, faz o caminho inverso da resposta emergencial: parte das perdas e retroage no tempo até as decisões humanas e institucionais que tornaram cada perda possível.

Para os pesquisadores do WRI Brasil, “reduzir o risco de desastres ao longo do tempo requer compreendê-los para além do evento físico-climático, identificando fatores sociais, econômicos e de governança, moldados por decisões humanas e institucionais, que contribuem para sua ocorrência”. A vulnerabilidade que a chuva encontrou foi produzida antes, em planos diretores aprovados sem mapa de risco, em loteamentos vendidos em áreas de várzea, em comportas que não receberam manutenção, em verbas de prevenção que sumiram no orçamento.

As 11 causas raiz cobrem quatro grandes categorias: desenvolvimento urbano e rural; condições físicas e ambientais; condições socioeconômicas; e governança. As 20 pressões dinâmicas que conectam essas causas vão da expansão urbana descontrolada à flexibilização da legislação de licenciamento ambiental em áreas de risco, passando por especulação imobiliária, baixo investimento em infraestrutura, falta de fiscalização e desatualização de mapeamentos.

A casa do seu Antônio e o lote regularizado

Em ruas paralelas ao Arroio Dilúvio, em Porto Alegre, e às margens do Taquari, em Roca Sales, há famílias que pagam IPTU em dia, têm escritura registrada e moram em lotes regularizados há mais de duas décadas. Para a equipe do WRI Brasil, esse tipo de regularização foi formal, mas não corrigiu a exposição da gleba. “A predominância de mecanismos de regularização fundiária focados apenas no lote permite a continuidade de construções em locais expostos, a prejuízo do risco coletivo e da visão de planejamento em escalas mais abrangentes”, registram os autores.

Em maio de 2024, segundo a Confederação Nacional de Municípios, 96,2 mil casas foram danificadas e 9,2 mil destruídas no estado, com prejuízo de R$ 4,6 bilhões no setor habitacional. Cada eletrodoméstico arrastado para a calçada e cada parede com marca de água acima do batente entrou nessa conta registrada pela CNM.

No setor agropecuário, estufas de fumo erguidas no Vale do Taquari após cinco anos de financiamento bancário foram destruídas pelas enxurradas de maio de 2024. Levantamento da Emater registra 18.548 unidades de infraestrutura agropecuária afetadas, 1,2 milhão de aves perdidas, cerca de 30 mil bovinos e suínos mortos, mais de 16 mil colmeias destruídas, 2,7 milhões de hectares com erosão e perda de fertilidade em 405 municípios. Em 4.548 comunidades, o escoamento da produção parou porque a estrada vicinal tinha desaparecido.

ANA: 35% a 40% das vítimas estavam em áreas oficialmente protegidas

A infraestrutura de proteção da Região Metropolitana de Porto Alegre concentra um dos exemplos centrais dessa cadeia. Para os pesquisadores do WRI Brasil, “o papel das decisões humanas e institucionais na produção e na disseminação social do risco ao longo do tempo é tão significativo quanto a própria ocorrência do evento físico-climático”.

Estudo técnico coordenado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, citado na cronologia da tragédia, registra que o nível do Guaíba chegou a 5,37 metros em Porto Alegre, mais de 60 centímetros acima do recorde anterior, de 4,76 metros, de 1941. O sistema de proteção contra cheias da capital, projetado entre as décadas de 1960 e 1980, falhou em vários pontos: rupturas em comportas, refluxo em galerias, diques abaixo da cota de projeto e fragilização da infraestrutura.

Segundo a ANA, 35% a 40% da população atingida pelas enchentes na Região Metropolitana de Porto Alegre estava, no papel, em áreas protegidas por esses sistemas. Os parâmetros de chuva e vazão usados na concepção do sistema na década de 1960 não foram revisados para incorporar a recorrência dos eventos extremos das últimas duas décadas, conforme a mesma publicação.

A publicação da ANA também cita estudos de atribuição climática segundo os quais a mudança do clima induzida pelo ser humano pode ter tornado as chuvas intensas de abril e maio de 2024 duas vezes mais prováveis, com intensidade entre 6% e 9% maior. As projeções para o Sul do Brasil indicam aumento de cerca de 20% na magnitude das vazões máximas e enchentes extremas até cinco vezes mais frequentes. Eventos antes esperados a cada 50 anos podem voltar em intervalos próximos de 10 anos.

Capacidade municipal não dá conta de desastre multirregional, diz WRI

No campo institucional, o estudo do WRI Brasil registra que “a escala multirregional do desastre extrapolou as capacidades municipais para gestão de riscos, evidenciando a importância de instâncias supramunicipais, especialmente associadas às bacias hidrográficas”. Em outro trecho, os autores reforçam: “tais estruturas administrativas, quando isoladas, são insuficientes diante de desastres multirregionais, apontando a necessidade de arranjos de planejamento e governança supramunicipais, especialmente associados às bacias hidrográficas”.

A constatação aparece em números do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul. Levantamento concluído em março de 2025 mostra que, dos 497 municípios gaúchos, apenas 180 possuíam plano de contingência em Defesa Civil atualizado no último ano. Outros 215 tinham plano vencido, e 87 não tinham plano nenhum. Apenas 60% dos municípios (298) declararam dispor de dotação orçamentária para ações de prevenção e preparação em 2024. Outros 94 não possuem servidor designado para o tema, e 160 contam com um ou dois servidores na área.

Numa cidade pequena, isso significa que, na hora do alerta, a Defesa Civil municipal pode operar em uma sala única, com um servidor que acumula a função com outra pasta e um plano que não é revisto desde a gestão anterior. Levantamento citado pelos autores, conduzido pelo Cemaden e pela Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil em 2021, já apontava essa fragilidade nos órgãos municipais antes do desastre de 2024.

A insuficiência da agenda preventiva também aparece no mapeamento de risco. Conforme apuração dos autores, até abril de 2026 apenas 26 municípios do Rio Grande do Sul tinham Cartas de Suscetibilidade a Movimentos Gravitacionais de Massa e Inundações elaboradas pelo Serviço Geológico Brasileiro, e 132 dos 497 contavam com Cartas de Risco Geológico, parte delas produzida depois do desastre, e não antes.

A bacia que ninguém manda

Para os pesquisadores do WRI Brasil, o eixo de planejamento precisa mudar do município para a bacia hidrográfica, com instâncias regionais dotadas de mandato executivo. Hoje, comitês e conselhos de bacia existem no papel, mas, conforme o levantamento, expõem-se a uma “ausência de mandato executivo para estruturas regionais”, o que limita sua capacidade de decidir sobre obras, alertas e planos diretores.

Pesquisa de Tonetto et al., citada pelo WRI Brasil, dá a dimensão do desafio fiscal. Apenas 10% dos municípios severamente afetados pelas enchentes possuem alguma margem orçamentária para ações de adaptação e mitigação. O estado precisaria entre 1% e 5% do seu PIB para responder a desastres na escala de 2024, valores que ultrapassam os cerca de 5% de investimentos anuais da receita corrente líquida.

Soma-se a isso a fragilidade do arcabouço legal. A Política Nacional de Proteção e Defesa Civil (Lei 12.608/2012) atribui responsabilidades de forma ampla a União, estados e municípios, sem hierarquias claras. O Fundo Nacional para Calamidades Públicas, Proteção e Defesa Civil concentra recursos no pós-desastre, e não na prevenção. Para os autores, há “uma lacuna persistente entre a formulação normativa e sua efetiva implementação multissetorial”.

Memória curta, alertas subutilizados

O estudo dedica capítulo próprio ao negacionismo climático e à percepção pública do risco. Para os pesquisadores, “a baixa memória social e o negacionismo climático emergiram como influências transversais, tanto na prevenção quanto na resposta ao desastre”. Em setembro de 2023, oito meses antes da tragédia de 2024, municípios do Alto Taquari já haviam sofrido com inundações que mataram 54 pessoas e atingiram 400 mil habitantes. A reocupação dos mesmos pontos críticos seguiu nos meses seguintes.

Na rotina das prefeituras e dos moradores afetados, isso se traduz em alertas pouco levados a sério, em evacuações tardias e em recusas de abrigo justificadas com a frase “a água nunca chegou aqui”. Em outro trecho, os autores são diretos: “A baixa memória social, a subestimação dos alertas e o negacionismo climático revelam dimensões socioculturais que dificultam a ação preventiva e a capacidade de resposta, agravando os impactos”.

A comunicação de risco também falhou. Mensagens chegaram tarde, com inconsistências entre fontes oficiais, e em alguns casos foram engolidas por boatos em redes sociais. A Defesa Civil estadual emite alertas baseados em informações do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), mas a maior parte dos municípios não tem sistema próprio de monitoramento que traduza esses alertas em rotas de fuga, abrigos e horários de evacuação.

A face social: quem perdeu mais

O capítulo final do estudo trata de quem mais perdeu na enchente. Mortes, desabrigamentos, afogamentos, traumas e perdas de renda recaíram de forma concentrada sobre os mesmos grupos. Para o WRI Brasil, “a população de baixa renda, trabalhadores informais, pequenos agricultores e grupos tradicionais foram desproporcionalmente afetados, evidenciando a consequência direta da sobreposição de vulnerabilidades”.

Marceneiros autônomos que mantinham oficinas no fundo de casa em Eldorado do Sul e Canoas perderam estoque, máquinas e a base de clientes que sustentava o negócio. Sem nota fiscal nem cadastro formal, demoraram a acessar o auxílio emergencial federal de R$ 5,1 mil, pago a cerca de 412 mil famílias gaúchas. Segundo dados de Collischonn et al. citados no levantamento, foram registrados 4.570 episódios de contaminação no abastecimento rural, com pelo menos 34.519 famílias afetadas. A leptospirose somou 788 casos confirmados e 25 mortes diretamente ligados às inundações, conforme balanço do Governo do Estado.

Mulheres e crianças sofreram episódios de assédio e abuso em abrigos emergenciais montados sem planejamento prévio. O acolhimento, na maior parte das cidades, ficou nas mãos da sociedade civil organizada e de voluntários, sem profissionais especializados em proteção a grupos vulnerabilizados.

WRI defende justiça climática como eixo de plano diretor e investimento público

Para os autores, “diante da desigualdade socioeconômica, negligenciar a justiça climática e a adaptação com foco nos grupos mais vulnerabilizados perpetua a produção social do risco e a ocorrência de novos desastres”. Em outro trecho, alertam: “a falta de visibilidade da justiça climática, expressa na causa raiz da desigualdade socioeconômica e da concentração de riqueza, perpetua a produção social do risco em processos de expansão urbana descontrolados, na desassistência à demanda por habitação segura e na ausência de integração entre políticas de adaptação, proteção social e planejamento territorial”.

Os pesquisadores recomendam quatro medidas no plano federativo. Incorporar o mapa de áreas de risco ao plano diretor de cada município; condicionar o licenciamento ambiental a estudos de impacto cumulativo na bacia hidrográfica; assegurar orçamento permanente para mapeamento, monitoramento e alerta, fora da disputa anual; e estruturar programas de habitação que removam famílias de áreas de risco antes do próximo evento extremo, em vez de depois.

O total de prejuízos calculado por Banco Interamericano de Desenvolvimento, Banco Mundial e Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) chegou a R$ 88,9 bilhões. Para os autores, “esses números representam a magnitude de um desastre climático, socioambiental e multirregional sem precedentes no Brasil, com poucos paralelos no mundo”.

O que vem depois

A reconstrução do Rio Grande do Sul ainda não passou da fase de recomposição emergencial em parte das cidades atingidas. Há comportas em obras na capital, planos diretores em revisão em municípios do Vale do Taquari e da Serra e uma agenda federal de financiamento por meio da Secretaria Extraordinária de Apoio à Reconstrução, criada em 15 de maio de 2024. O fim do reconhecimento federal do estado de calamidade pública aconteceu em 31 de dezembro de 2024.

Para o WRI Brasil, o levantamento será debatido em audiências públicas e oficinas regionais ao longo do segundo semestre de 2026, com previsão de incidência sobre o ProClima 2050 e sobre a revisão de planos de contingência municipais. Em discussão no Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, há proposta de financiamento permanente para gestão de riscos, com fundo específico para mapeamento e monitoramento. A flexibilização do licenciamento ambiental em áreas de risco, apontada pelos autores como uma das pressões dinâmicas mais persistentes, segue como ponto de atrito entre Ministério Público estadual, prefeituras e setor produtivo.

A próxima estação chuvosa no Sul do país, segundo prognóstico do Inmet de abril de 2026, deve concentrar volumes acima da média histórica entre setembro e novembro, com possibilidade de novos eventos extremos.

 

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