Dossiê publicado pela Unesp analisa a crise ecológica sob a ótica do racismo ambiental e destaca casos de vulnerabilidade em territórios urbanos, ribeirinhos e quilombolas.
A emergência climática deixou de ser um risco para o futuro e já se consolidou como uma realidade material e territorial que atinge o Brasil de forma profundamente desigual. Os danos ambientais não se distribuem ao acaso na sociedade, mas seguem marcadores estruturais baseados em raça, classe, gênero e localização geográfica.
O diagnóstico integra o dossiê “Desigualdades ambientais no Brasil: a lente da justiça climática e do racismo ambiental” , publicado na Revista Cadernos de Campo, da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Conduzido pelos pesquisadores Pedro Henrique Campello Torres e Gabriel Pires de Araújo , o levantamento evidencia como populações negras, indígenas e periféricas são historicamente submetidas aos maiores riscos e recebem a menor parcela de investimentos do Estado.
A seletividade da degradação
O estudo defende que o conceito de justiça climática está em constante disputa. Enquanto atores estatais e corporativos muitas vezes limitam o tema a métricas e soluções tecnocráticas , o dossiê argumenta que a resposta à crise deve funcionar como uma plataforma de resistência antirracista e anticolonial.
A pesquisa articula as dinâmicas de degradação ambiental com a manutenção de hierarquias históricas. O Estado é apontado como um agente que atua ativamente — ou por omissão — na produção dessas desigualdades. A fragmentação das políticas ambientais e o conflito de interesses com grandes empreendimentos econômicos acabam, em muitos casos, reforçando assimetrias estruturais ao invés de solucioná-las.
Casos concretos de vulnerabilidade
Para materializar o debate, o levantamento analisa diferentes regiões do país onde o racismo ambiental atua como camada estruturante. Em centros urbanos como o Recife (PE), a segregação espacial e a urbanização precária transformam territórios específicos nos principais alvos de eventos climáticos extremos.
Dinâmicas semelhantes ocorrem no ambiente rural e costeiro. No Quilombo do Cumbe, no Ceará, projetos de energia eólica e carcinicultura (criação de camarões em cativeiro) são citados não apenas como vetores de degradação física do território, mas como causadores de divisões comunitárias e violência simbólica. Na Amazônia, comunidades ribeirinhas veem suas vulnerabilidades históricas potencializadas pelas alterações no clima. Já no Sul do país, etnografias apontam que as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul atualizaram uma “catástrofe ancestral”, fundindo negligência institucional e desigualdade urbana.
O mito das “falsas soluções”
Um dos pontos centrais da análise é a crítica à chamada colonialidade climática. Os pesquisadores alertam que iniciativas hegemônicas baseadas na compensação de carbono, energia limpa e financeirização da natureza, quando aplicadas sem levar em conta a justiça territorial, tendem a agravar o problema.
Essas saídas operam como variantes contemporâneas do extrativismo, deslocando os passivos ambientais para áreas historicamente vulneráveis e isentando de responsabilidade os agentes econômicos globais. Segundo o documento, superar a atual catástrofe exige o abandono de soluções estritamente técnicas que ignoram a base das desigualdades. A justiça climática plena, conclui o dossiê, só pode ser alcançada por meio do enfrentamento direto ao racismo ambiental e com o reconhecimento das pessoas que vivem e resistem nos territórios afetados.
A imagem que ilustra essa matéria foi criada utilizando IA.
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