Nos territórios onde o bioma queima e os rios secam, moradoras de comunidades tradicionais assumem o peso das crises climáticas e da ausência do Estado, reinventando a vida sobre cinzas e lama.
O Pantanal sul-mato-grossense não é apenas um santuário de biodiversidade. Ele é, antes de tudo, um território habitado, moldado e defendido por gente. Nesse cenário, as mulheres das comunidades ribeirinhas e tradicionais emergem como as protagonistas silenciosas de uma luta diária pela existência. Elas enfrentam uma realidade onde desastres ambientais não são eventos isolados, mas parte da rotina. Entre 2020 e 2024, o ciclo natural das águas foi rompido por incêndios devastadores e secas históricas.
A pesquisa de Simone Principe Rondon, desenvolvida na região, revela como essas mulheres sustentam suas famílias e protegem o bioma. Elas o fazem mesmo quando o entorno colapsa sob a pressão de mineradoras e da crise climática. A resiliência aqui não é uma metáfora romântica. É uma tática de sobrevivência física e mental.
Onde a terra queima e a renda vira fumaça
Em Porto da Manga, comunidade às margens do Rio Paraguai, a vida segue o ritmo das águas e do fogo. As queimadas de 2020 não destruíram apenas a paisagem. Elas levaram embora a base econômica de muitas famílias. Os pés de laranjinha-de-pacu, fruto nativo usado na produção de geleias e polpas, foram consumidos pelas chamas. Sem essa fonte de renda, restou às mulheres uma alternativa perigosa: a coleta de iscas vivas.
Essa atividade exige que elas entrem em águas turvas, muitas vezes durante a madrugada. Elas enfrentam correntezas, arraias, cobras e jacarés para capturar tuviras e caranguejos, essenciais para o turismo de pesca. O risco é real e constante. Em um relato que mistura medo e o humor típico da sobrevivência, três pescadoras contaram sobre o encontro com uma onça-pintada. Uma delas, em pânico, caiu na água. Ao relembrarem o episódio, riram, comentando que “a sorte foi a onça estar de barriga cheia”.
A recepção a quem vem de fora nem sempre é calorosa, fruto de um histórico de abandono. Ao ser abordada sobre a pesquisa, uma moradora disparou uma verdade incômoda sobre a relação com a academia e o poder público: “Participar, a gente participa, o problema é que vocês vêm aqui, retiram o que querem, vão embora e nunca mais retornam”. Essa fala resume a exaustão de quem é objeto de estudo, mas raramente sujeito de políticas públicas efetivas.
A sombra vermelha da mineração
Se em Porto da Manga o inimigo é o fogo, nas comunidades de Antônio Maria Coelho e Porto Esperança o adversário tem cor de ferro. A extração mineral na região de Corumbá e Ladário impõe uma rotina insalubre aos moradores. O pó de minério é onipresente. Ele cobre as plantas, tinge as casas de vermelho e invade os pulmões.
Em Antônio Maria Coelho, encravada na Morraria do Urucum, a situação é crítica. O córrego Piraputangas, antiga fonte de água limpa e lazer, está assoreado. A comunidade sofre com a escassez hídrica, dependendo de caminhões-pipa de qualidade duvidosa. As mulheres relatam problemas respiratórios crônicos e doenças de pele, agravados pela poeira constante.
Além da saúde física, a saúde mental é corroída. Há relatos de pressão por parte de empresas para que moradores vendam suas terras e deixem o local. O transporte de minério por trens, que operam dia e noite, gera ruído incessante e rachaduras nas casas. Nesse cenário de tensão, a percepção sobre a própria identidade feminina se esfacela. Uma moradora de Antônio Maria Coelho desabafou, em um tom que denota o esgotamento extremo: “não me lembro mais de como é ser mulher”. Ela completou dizendo: “hoje perdi minha autoestima e não me cuido mais”.
Relações de gênero e a divisão do trabalho
A estrutura social nessas comunidades ainda carrega fortes traços patriarcais. Em Antônio Maria Coelho, muitas mulheres veem o homem como o provedor principal. Uma das entrevistadas afirmou: “eles trabalham muito para trazer o alimento todos os dias; ele é o provedor da casa”. Essa visão muitas vezes invisibiliza a dupla ou tripla jornada feminina, que inclui o trabalho doméstico, o cuidado com os filhos e a geração de renda complementar.
Já em Porto Esperança, o tom é mais crítico. Isolada e acessível apenas por barco em épocas de cheia, a comunidade vive sob a vibração dos trilhos do trem de minério. Lá, as mulheres apontam o machismo como uma barreira econômica. Elas expressam frustração por serem excluídas de atividades mais rentáveis no turismo. Uma moradora resumiu o sentimento de muitas: “infelizmente, é uma relação machista, os homens sempre se acham na razão”.
Ainda assim, há orgulho. Em Porto Esperança, a identidade feminina está atrelada à força. Para elas, “ser mulher é ser sempre capaz de se reinventar como esposa, mãe, profissional, etc.; sempre superamos os obstáculos e recomeçamos quantas vezes for necessário”.
A resistência sustentável na Baía Negra
Na APA Baía Negra, a narrativa ganha contornos de esperança e organização. Primeira Unidade de Conservação de Uso Sustentável do Pantanal, o local é um exemplo de gestão comunitária onde as mulheres têm papel central. Elas lideram a produção de derivados do jaracatiá e atuam como guardiãs do território.
A memória de lideranças femininas, como Júlia Gonçalves, a “Dona Julinha”, permeia a resistência local. O cuidado com o ambiente não é apenas econômico, é cultural e místico. As moradoras contam que a Baía é “viva” e “não gosta de barulho”. Elas relatam histórias de quem desrespeitou o silêncio das águas e foi “expulso” pela natureza.
Essas mulheres realizam rondas para recolher lixo deixado por turistas e atuam como brigadistas voluntárias no combate aos incêndios. Elas provam que a conservação ambiental no Pantanal depende intrinsecamente do saber e da ação feminina.
O abismo das políticas públicas
O denominador comum entre todas essas comunidades é a ausência do Estado. Falta água potável, falta saneamento, falta transporte digno. Em Antônio Maria Coelho, há apenas um ônibus semanal. Em Porto Esperança, não há posto de saúde. Quando adoecem, os moradores dependem de deslocamentos caros e difíceis até Corumbá.
O impacto disso na saúde mental é devastador. Relatos de ansiedade, depressão e uso de medicação controlada são frequentes. Uma mulher, vítima de violência doméstica por anos, contou que hoje a dinâmica mudou apenas pela velhice do marido: “hoje em dia meu marido já é velho e, se ele levantar a mão para mim, é ele quem apanha”.
As mulheres do Pantanal vivem na linha de frente da crise climática. Elas sentem na pele o calor das chamas e a poeira do minério. No entanto, resistem. Seja coletando iscas, processando bocaiuva ou protegendo a Baía Negra, elas sustentam a vida em um bioma sob ataque. Como disseram sobre a qualidade de vida, mesmo diante de tudo: “temos a natureza”, e para elas, “acordar com os passarinhos cantando não tem preço”.
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