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Trump dissemina fake news climática mas relatório da ONU o desmente

IPCC RCP8.5

Painel reclassificou o cenário extremo RCP8.5 como improvável de se concretizar, mas a base física do aquecimento global permanece intacta nos cinco cenários avaliados.

Donald Trump afirmou em sua rede social que o principal comitê climático da ONU admitiu que suas projeções RCP8.5 estavam “WRONG! WRONG! WRONG!”(ERRADO! ERRADO! ERRADO!). O texto do Sexto Relatório de Avaliação do IPCC, publicado em 2021, diz outra coisa: o cenário extremo RCP8.5 e sua versão atualizada SSP5-8.5 foram reclassificados como “implausíveis de se desenrolar” do ponto de vista socioeconômico, porque a queda do uso global de carvão e o avanço das energias renováveis tornaram improvável que o mundo siga aquela trilha específica de emissões. A reclassificação não invalida a base física da ciência climática nem reduz a gravidade do aquecimento projetado nos demais cenários, ou seja, Trump, mais uma vez, busca distorcer os fatos e apresentar uma versão falsa dos acontecimentos.

O que o IPCC efetivamente disse

A passagem-chave está no Capítulo 4 do Grupo de Trabalho I do AR6, dedicado a projeções globais futuras. O texto registra que cenários de alta extremidade como RCP8.5 e SSP5-8.5 “têm sido recentemente argumentados como implausíveis de se desenrolar”, citando estudo de 2020 publicado na revista PNAS. O painel acrescenta, no Capítulo 3 do Grupo de Trabalho III, que esses cenários “se tornaram consideravelmente menos prováveis desde o AR5, mas não podem ser descartados”.

A distinção é o coração da disputa. “Implausível”, no jargão dos cenários climáticos, descreve a probabilidade da combinação socioeconômica necessária para produzir aquela trajetória de emissões. Não descreve o funcionamento dos modelos físicos do clima. O cenário RCP8.5 supõe forte expansão do uso de carvão ao longo do século 21, baixo ganho de eficiência energética e ausência de políticas climáticas significativas. Hoje, com a estagnação do carvão em economias avançadas e a queda acelerada nos custos de geração solar e eólica, essa combinação de premissas perdeu probabilidade.

O IPCC não abandonou o cenário. Continua usando SSP5-8.5 no AR6 como referência para análise de risco extremo e calibração de funções de dano em modelos de impacto, além de preservar comparabilidade com estudos anteriores. O que mudou foi a forma de comunicar qual cenário é mais provável e qual cumpre o papel de extremo de baixa probabilidade e alto impacto.

Por que um cenário é chamado de “implausível”

O cenário climático mais extremo do IPCC, que durante anos serviu como referência principal no debate público, foi reclassificado pelo próprio painel da ONU como “extremo de baixa probabilidade”. A mudança foi documentada em 2021 no AR6 e vem sendo reforçada por estudos posteriores. A leitura política de que o aquecimento global era mentira não é autorizada pelo texto do relatório.

O termo “plausibilidade” tem sentido técnico específico no vocabulário dos cenários climáticos. Refere-se à probabilidade de que o conjunto de premissas socioeconômicas e tecnológicas, somado ao quadro de políticas, descreva o caminho que o mundo vai de fato seguir. Um cenário pode ser fisicamente coerente, ou seja, internamente consistente em termos de balanço de energia, ciclo do carbono e dinâmica atmosférica, e ainda assim ser considerado pouco provável de ocorrer. É essa probabilidade socioeconômica que caiu.

Hausfather e Peters, autores do estudo citado pelo IPCC, argumentaram em 2020 que RCP8.5 deixou de ser um bom indicador de “business as usual” no curto e médio prazos, porque cenários da Agência Internacional de Energia, que incorporam queda do carvão e barateamento de renováveis, alinham-se mais a trajetórias de forçamento radiativo entre 4,5 e 6,0 W/m². A réplica de Schwalm e coautores, também publicada na PNAS, sustenta que o total de emissões de CO2 acumuladas até 2050, incluindo combustíveis fósseis e mudança no uso da terra, ainda se aproxima do envelope do RCP8.5, e que o cenário segue útil para estudos de curto prazo. O IPCC sintetiza o debate dizendo que o cenário continua relevante para análise de cauda de risco.

RCP8.5 e SSP5-8.5: como o IPCC nomeia os degraus do aquecimento

Para entender o que está em jogo, é preciso separar dois conceitos que costumam aparecer misturados na cobertura pública. RCP significa “Representative Concentration Pathway”, ou caminho representativo de concentração, e foi a unidade de cenário usada no Quinto Relatório de Avaliação do IPCC, publicado em 2014. Cada RCP é definido pelo nível de forçamento radiativo adicional que atinge em 2100, medido em watts por metro quadrado. RCP8.5 indica um caminho que chega a 8,5 W/m² no fim do século, valor compatível com concentração de CO2 próxima de 1135 partes por milhão em 2100 no modelo de referência da comunidade climática.

SSP significa “Shared Socioeconomic Pathway”, ou caminho socioeconômico compartilhado. Foi introduzido no Sexto Relatório de Avaliação a partir de 2021 e combina cinco narrativas socioeconômicas distintas com diferentes níveis de forçamento radiativo. SSP1 descreve um mundo de sustentabilidade e cooperação. SSP2 descreve continuidade das tendências atuais. SSP3 descreve rivalidade regional. SSP4 descreve desigualdade. SSP5 descreve desenvolvimento intensivo em combustíveis fósseis. Quando se combina o SSP5 ao forçamento de 8,5 W/m², obtém-se o SSP5-8.5: um mundo de crescimento rápido e integração de mercados, com dependência maciça de carvão, petróleo e gás.

A metáfora mais útil para o leitor não especialista é pensar nos RCPs como degraus de altura diferente que medem o tamanho do aquecimento. E nos SSPs como estradas socioeconômicas que sobem esses degraus. RCP8.5 é o degrau mais alto. SSP5-8.5 é a estrada específica, baseada em combustíveis fósseis, que leva até ele. O que o IPCC sinalizou em 2021 é que essa estrada específica ficou improvável.

Como cientistas constroem um cenário climático

O IPCC não inventa cenários do zero. Coordena com a comunidade internacional de modelagem climática, organizada em projetos como o Coupled Model Intercomparison Project, ou CMIP, e o ScenarioMIP, que produzem matrizes de cenários combinando narrativas socioeconômicas com níveis de forçamento. O painel seleciona um subconjunto representativo dessa matriz para uso nos relatórios de avaliação.

No AR6, o Grupo de Trabalho I trabalhou com cinco SSPs centrais: SSP1-1.9, SSP1-2.6, SSP2-4.5, SSP3-7.0 e SSP5-8.5. A escolha cobre desde mitigação muito forte, com aquecimento limitado próximo a 1,5 °C, até alta emissão, com aquecimento muito provável entre 3,3 e 5,7 °C acima do período pré-industrial de 1850 a 1900 em 2100. O critério editorial do painel é cobrir a faixa de aquecimento relevante para decisões públicas, permitir comparação com relatórios anteriores e atender setores que demandam informação sobre riscos extremos.

O painel também não produz pesquisa original. A função é sintetizar literatura científica revisada por pares, com milhares de cientistas voluntários e múltiplas rodadas de revisão por pares e por governos. A estrutura institucional inclui três Grupos de Trabalho: base física do clima, impactos e adaptação, e mitigação. A função-tarefa de inventários de gases de efeito estufa completa o conjunto.

Dois números que contam outra história

O cenário apontado por Donald Trump como “errado” tem hoje probabilidade estimada em torno de 0,5% de se concretizar até 2100. O cálculo vem de estudo publicado em 2024 na revista Nature Communications, baseado em ensemble probabilístico de dez milhões de membros. O cenário considerado mais provável pelo IPCC, ancorado nas políticas climáticas implementadas até 2020, projeta aquecimento mediano entre 2,2 °C e 3,5 °C até o fim do século. É um patamar suficiente para redesenhar costas e alterar economias agrícolas, com efeitos extensos sobre ecossistemas.

O contraste de números ajuda a precisar o que mudou. Sob SSP1-1.9, o cenário de mitigação mais agressiva, o aquecimento muito provável fica entre 1 e 2 °C acima do período pré-industrial. Sob SSP5-8.5, o extremo, sobe para a faixa de 3,3 a 5,7 °C. Os três cenários intermediários (SSP1-2.6, SSP2-4.5 e SSP3-7.0) distribuem-se entre esses dois extremos, com aquecimento crescente conforme as premissas socioeconômicas se afastam do paradigma de mitigação forte. A reclassificação de plausibilidade altera onde a comunidade espera que o mundo aterrisse dentro dessa faixa, não a faixa em si.

A diferença entre o degrau mais alto e os intermediários é menos confortadora do que a leitura política sugere. Um aquecimento mediano próximo a 3 °C, hoje considerado mais provável, já está associado a perdas relevantes em pesca tropical, recuo significativo de geleiras, aumento da intensidade de eventos extremos e elevação adicional do nível do mar. A literatura do Grupo de Trabalho II do IPCC, dedicado a impactos, é explícita nesse ponto desde antes da reclassificação do cenário extremo.

O peso histórico da retórica de Trump sobre clima

A retórica de Donald Trump sobre o clima oscila desde 2012 entre “expensive hoax”, “invenção dos chineses” e, agora, a tese de que o IPCC admitiu o erro nas projeções. O documento que ele invoca para sustentar a tese mais recente diz, em linguagem própria, que o aquecimento global é consistentemente documentado sob qualquer cenário avaliado. O que mudou foi a probabilidade relativa da trajetória de maior emissão, não a base física da ciência climática.

O histórico é amplamente documentado. Em novembro de 2012, em postagem no Twitter, Trump escreveu, no original em inglês, que “the concept of global warming was created by and for the Chinese in order to make U.S. manufacturing non-competitive”. Em comício em 2015, declarou: “a lot of it’s a hoax. It’s a hoax. It’s a money-making industry”. Entre 2013 e 2014, postou repetidamente que o aquecimento global era “an expensive hoax” ou “a total, and very expensive, hoax”. Em entrevista televisiva em outubro de 2018, mudou parcialmente o tom: “I don’t think it’s a hoax. I think there’s probably a difference. But I don’t know that it’s manmade”.

A oscilação é parte do padrão. Em momentos em que o custo político é alto, Trump suaviza a posição negacionista. Em momentos em que mira a base eleitoral mais hostil a regulações ambientais, retoma a tese de “fraude”. O post atual sobre o RCP8.5 enquadra-se nessa segunda chave, com a particularidade de usar uma expressão técnica do próprio relatório que ataca, sem registrar o sentido que ela tem no documento.

O que vem no AR7

O Sétimo Relatório de Avaliação do IPCC, ainda em construção, deve consolidar a virada na forma de tratar cenários. O esqueleto de capítulos do Grupo de Trabalho I foi aprovado em fevereiro de 2025 e reserva o Capítulo 5 a cenários e projeções futuras de temperatura global, com seção específica para descrição de emissões, remoções, concentrações de gases de efeito estufa, forçadores de vida curta e mudança no uso da terra. O documento aprovado não fixa ainda a lista final de cenários que serão adotados.

Em paralelo, o desenho da nova rodada de cenários, chamada ScenarioMIP-CMIP7, foi proposto em artigo publicado em abril de 2026 na revista Geoscientific Model Development. A proposta prevê três conjuntos: cenários altos para explorar riscos de alta intensidade, cenários médios ancorados em políticas climáticas atuais e cenários baixos alinhados a acordos internacionais como o de Paris. A tradução desse desenho técnico para a rotulagem oficial do IPCC ainda não foi formalizada, mas indica que o cenário tipo 8.5 permanecerá no portfólio como extremo de risco, sem voltar à condição de referência mais provável.

A mudança institucional acompanha a evolução do conhecimento. Trata-se de ajuste no vocabulário público sobre risco climático à medida que novos dados de emissões e tecnologia se acumulam, sem que isso configure admissão de erro ou revisão da física do clima.

Os próximos marcos previstos incluem a finalização das rodadas de modelagem do CMIP7 até 2027, a publicação dos capítulos do AR7 a partir de 2028 e a próxima Conferência das Partes da Convenção do Clima, que terá entre seus temas a integração dos cenários atualizados aos compromissos nacionais. Até o fechamento desta reportagem, não havia documento oficial do IPCC afirmando que suas projeções de aquecimento global estavam incorretas.

 

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