Trabalho de fotojornalistas expõe como incêndios criminosos, secas extremas e expansão do extrativismo penalizam de forma desproporcional povos indígenas e populações ribeirinhas.
O avanço da degradação ambiental na Amazônia sobrecarrega diretamente os grupos de menor responsabilidade sobre as emissões globais, obrigando populações indígenas, ribeirinhas e quilombolas a absorver os impactos diretos da seca e do fogo. Um conjunto de imagens documentais produzidas por fotojornalistas e artistas expõe essa assimetria estrutural, convertendo o risco diário em evidência visual de racismo ambiental.
Registros fotográficos elaborados ao longo de décadas até as estiagens de 2024 atestam o encolhimento das margens de sobrevivência e a ausência do poder público. A documentação estabelece o bioma como um campo de confronto entre uma lógica econômica fundamentada na exaustão de recursos e as cosmologias que encaram o território como um sistema relacional de vida mútua.

A infância no confronto contra as chamas
A expansão da fronteira agrícola na região sul do Amazonas produz incêndios recorrentes, empurrando as frotas de contenção para as bordas das terras indígenas. Em Lábrea, na Terra Indígena Caititu, a estrutura de enfrentamento reflete a precariedade: há apenas uma brigada indígena composta por 23 pessoas em atuação, operando sem remuneração e com maquinário escasso.
A fotógrafa Carolina Costa Jaguatirica captou essa desproporção no dia 20 de setembro de 2024. A fotojornalista integrou uma apuração focada no fato de que “Indígenas e quilombolas são 70% dos brigadistas que combatem crimes ambientais. Povos originários lutam contra os efeitos da crise climática e se colocam em risco na defesa do meio ambiente”.

A série fotográfica “Impávido Colosso” foca na infância submetida a essas condições extremas. A imagem central exibe uma criança queimando o pé enquanto tenta aplacar as chamas utilizando um utensílio de cozinha. O documento descreve a composição do flagrante: “O menino corre em direção às chamas com uma panela na mão, objeto associado ao cuidado doméstico, à alimentação e à sobrevivência”.
O ato inverte a ordem habitual. Onde deveriam existir ações do Estado e contenção tecnológica, sobra a ação braçal rudimentar. A paleta de cores confronta os laranjas intensos do fogo com o azul da roupa da criança. A escolha de enquadramento horizontal equipara a criança e o fogo, deslocando a percepção da Amazônia como cenário distante para um cotidiano de violações primárias.
O isolamento na terra rachada
A desestabilização dos padrões hídricos impôs restrições logísticas graves às populações das margens fluviais. O fenômeno da seca nos anos de 2023 e 2024 atingiu as marcas mínimas documentadas em mais de um século. O material aponta a causalidade cruzada que agrava o problema: “A estiagem é resultado da convergência entre o aquecimento global e fenômenos como o El Niño e o aquecimento dos oceanos, o que aumentou em até 30 vezes a probabilidade da seca extrema nesse período”.
Na capital amazonense, o recuo do Rio Negro e de seus afluentes causou a asfixia de 61 comunidades ribeirinhas. O fotojornalismo independente ancorou-se no balneário da Prainha, no Tarumã-Açu. A profissional Juliana Pesqueira fotografou no dia 8 de outubro de 2023 a paralisia das habitações típicas da região, revelando as engrenagens de um evento que limitou água potável e circulação de alimentos.
A captura aérea de Pesqueira traduz a imobilidade. Casas e barcos, que operam como ícones da adaptabilidade ribeirinha, aparecem encalhados e imóveis sobre o ocre da terra seca. Sem figuras humanas na imagem, o espaço se torna uma metonímia da interrupção do ciclo local. A fotografia dialoga com os relatos orais de populações que lidam com calor extremo, desabastecimento, árvores infrutíferas e a mortandade de peixes e mamíferos aquáticos.

Memória médica revertida em resistência
O uso da fotografia como contrapeso a agressões estatais e corporativas no bioma apoia-se em matrizes formadas décadas antes. O modelo extrativista se ampara em discursos que sexualizam e objetificam o espaço, a exemplo do registro envolvendo a presidência da República em 2019, quando o então presidente Jair Bolsonaro declarou: “O Brasil (referindo-se à Amazônia) é uma virgem que todo tarado quer”.
Essa mesma matriz norteou projetos estatais anteriores, como o Programa de Integração Nacional (PIN) nos anos 1970. A construção da Perimetral Norte rasgou o território Yanomami, importando desmatamento e epidemias para as aldeias. Trabalhando em paralelo aos médicos na década seguinte, a ativista Cláudia Andujar acompanhou o cadastro de controle de saúde daquela população.
Sem o hábito de usar nomes próprios, os indígenas foram identificados por números presos aos corpos ou vestimentas. A fotógrafa agrupou as imagens na série “Marcados”. Com o tempo e o deslocamento das peças para exposições artísticas, a documentação alterou a carga visual. O ato de rotular, oriundo de uma imposição governamental e da urgência médica, assumiu dimensão documental de uma identidade em disputa. O documento explica que “números antes vinculados ao controle médico passam a operar como signos de resistência”.
Os retratos em preto e branco operam com enquadramento frontal sobre fundo neutro. Segundo os pesquisadores, as imagens funcionam sob uma lógica inversa, exigindo que o leitor confronte as feridas coloniais impressas no povo Yanomami e não o contrário. A colaboração e o consentimento a longo prazo impediram a exploração vazia da dor. A série ofereceu suporte visual às pressões por direitos, auxiliando na homologação da terra indígena firmada em 1992.
Ameaça contínua e risco à cobertura
Atuar na linha de documentação socioambiental e fotojornalismo da Amazônia expõe profissionais à força paralela do crime organizado e da especulação fundiária. O material indica que a região opera sob o modelo prático de conflito aberto, convertendo a atividade em exercício de alta insegurança.
Levantamento citado no texto mensura o volume da tensão: “Entre 2013 e 2023, o Instituto Vladimir Herzog (2024) registrou 230 casos de violência contra a imprensa na Amazônia Legal, incluindo nove assassinatos”. As imagens elaboradas por mulheres nessas frentes cumprem um papel direto de tensionar as políticas hegemônicas. Conforme resume a pesquisa: “A fotografia feminina na Amazônia emerge como linguagem ética e política, uma prática de liberdade que traduz visualmente as contradições do modelo extrativista e dá visibilidade a grupos historicamente silenciados”.
Como foi feito A compilação documental apoia-se no ensaio “Amazônia em tradução”, publicado na Chasqui. A análise utiliza as lentes da Semiótica da Cultura de Iuri Lotman para decodificar como as escolhas estéticas — enquadramento, uso de cor, iluminação e ponto de vista — transformam episódios isolados em textos de visibilidade e memória coletiva, operando nas fissuras da cobertura ambiental.
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