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Governo leiloa pela primeira vez terras públicas para reflorestamento na Amazônia

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Startup Re.green arrematou concessão de 40 anos na Flona do Bom Futuro, em Rondônia, com receita baseada em créditos de carbono

O governo federal realizou na B3, em São Paulo, o primeiro leilão de concessão de terras públicas federais voltado à restauração ecológica. A startup brasileira Re.green arrematou, sem concorrência, a Unidade de Manejo II da Floresta Nacional (Flona) do Bom Futuro, em Rondônia — 51.211 hectares que serão geridos por 40 anos com financiamento baseado na venda de créditos de carbono no mercado voluntário internacional.

Floresta como ativo financeiro

O certame de 25 de março inaugurou um modelo inédito no país. Até então, as concessões florestais federais se limitavam à extração sustentável de madeira, reguladas pela Lei nº 11.284/2006. A virada veio com a Lei nº 14.590/2023, que autorizou a comercialização de créditos de carbono e serviços ambientais como parte central dos contratos. O Decreto nº 12.679/2025 regulamentou o uso de metodologias internacionais de certificação, viabilizando o leilão.

A modelagem financeira, desenhada pelo BNDES com apoio do BID, substituiu as tradicionais outorgas fixas por um repasse percentual da receita operacional bruta. A Re.green ofereceu 0,70%, com investimento estimado em R$ 87 milhões ao longo do contrato. Dos 51.211 hectares sob gestão, 6.290 são pastagens degradadas destinadas à restauração direta. A expectativa é gerar entre 1,3 milhão e 1,8 milhão de toneladas de CO₂ equivalente em quatro décadas.

O segundo lote leiloado, a Unidade de Manejo I, não recebeu propostas. Renato Rosenberg, diretor de Concessão Florestal do SFB, avaliou o resultado como positivo dado o ineditismo do modelo. Nos roadshows que antecederam o certame, empresas consultadas apontaram como barreiras a fragmentação das áreas degradadas, o custo de patrulhamento de floresta em pé sem receita imediata e a necessidade de articulação permanente com vizinhos da unidade.

Quem é a Re.green

Fundada em 2021 pelo economista Thiago Picolo e pelo cientista Bernardo Strassburg — fundador do Instituto Internacional para Sustentabilidade e listado entre os pesquisadores mais influentes do mundo por Stanford e Elsevier —, a startup tem como meta restaurar 1 milhão de hectares na Amazônia e na Mata Atlântica. Sozinha, essa ambição cobriria quase 10% do objetivo nacional de reflorestamento para a década, fixado pelo Planaveg 2.0 em 12 milhões de hectares.

A empresa levantou R$ 390 milhões em rodada Série A com investidores como Gávea Investimentos (gestora de Armínio Fraga), o family office da família Moreira Salles, Dynamo, BW Capital, Lanx Capital, Principia Capital e Guilherme Leal, cofundador da Natura. Em financiamento público, obteve mais de R$ 437 milhões junto ao BNDES — R$ 187 milhões contratados em janeiro de 2024 e R$ 250 milhões via Fundo Clima, anunciados durante a COP30, em Belém. Uma operação de R$ 80 milhões para restauração na Mata Atlântica recebeu a nota “Verde Escuro” da S&P Global Ratings, a mais alta da metodologia Shades of Green.

A empresa venceu o Earthshot Prize 2025, prêmio criado pelo príncipe William, na categoria de proteção e restauração da natureza.

Créditos de remoção, não de emissão evitada

O modelo de receita da Re.green se distancia da maioria dos projetos florestais de carbono no Brasil. Em vez da lógica REDD+ — que monetiza a proteção de florestas sob risco de desmatamento e sofreu danos reputacionais por linhas de base infladas —, a startup opera com remoção ativa de carbono, conhecida pela sigla ARR. Árvores são plantadas em pastagens degradadas, e o carbono capturado pela biomassa em crescimento é mensurado por inventários florestais e tecnologia LiDAR. Por representarem remoção física e verificável, esses créditos são negociados com prêmio no mercado internacional.

A viabilidade comercial já está parcialmente contratada. A Microsoft se comprometeu a adquirir 3,5 milhões de toneladas de CO₂ ao longo de 25 anos, viabilizando a restauração de 33 mil hectares em biomas brasileiros. Nestlé (2.000 hectares) e Vivo (800 hectares em contrato de 30 anos) também fecharam acordos.

Em março de 2024, a certificadora Verra — responsável por mais de 80% do mercado global de créditos — atribuiu status de negação a um projeto da Re.green na Mata Atlântica. A decisão não equivale a rejeição definitiva, mas apontou cinco fragilidades metodológicas na definição da data de início e da linha de base do projeto.

Parceria com o povo Karitiana

A Terra Indígena Karitiana, com cerca de 90 mil hectares, faz fronteira com a Flona do Bom Futuro. O edital da concessão incluiu consultas livres, prévias e informadas entre 9 e 11 de setembro de 2024, com participação de SFB, BNDES, PPI e observadores do TCU.

O contrato obriga a Re.green a comprar sementes e mudas nativas do povo Karitiana, que já havia entregado mais de 10 toneladas de sementes em parceria com a prefeitura de Porto Velho. O edital destina 30% dos encargos acessórios anuais — estimados em mais de R$ 1 milhão — a um fundo de desenvolvimento das comunidades Karitiana. As operações devem gerar 479 postos de trabalho na região, divididos entre 272 diretos e 207 indiretos.

Lideranças do povo Karitiana enviaram carta ao Ministério dos Povos Indígenas, à Funai, ao SFB e ao MPF pedindo celeridade na implementação e classificando o projeto como oportunidade “única” de fortalecer suas comunidades pelo mercado de sementes.

Próximos passos

A assinatura do contrato entre a Re.green e o SFB deve ocorrer nas próximas semanas. O lote deserto (UMF I) retornará à fase de estudos para eventual relançamento. O governo planeja replicar o modelo em outras unidades de conservação degradadas. A escalabilidade do formato depende da evolução do mercado voluntário de carbono e do andamento do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE).

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