Projetos de Amazon, Microsoft e Google foram barrados ou recuados após oposição local em pelo menos cinco estados americanos
Grandes empresas de tecnologia enfrentam resistência ao tentar ampliar data centers para inteligência artificial. Em pelo menos cinco estados americanos, projetos de Amazon, Microsoft e Google foram retirados, cancelados ou rejeitados entre 2024 e 2026 devido à oposição de moradores e autoridades locais quanto ao impacto sobre recursos hídricos, tarifas de energia e qualidade de vida.
O crescimento de investimentos em infraestrutura de IA é o contexto. Segundo a agência Reuters, empresas de tecnologia planejam destinar cerca de US$ 635 bilhões a projetos ligados a IA em 2026, contra US$ 383 bilhões no ano anterior. O Departamento de Energia dos EUA estima que data centers consumiram 4,4% de toda a eletricidade do país em 2023 e podem chegar a uma faixa entre 6,7% e 12% até 2028.

Projetos barrados
Um dos casos mais visíveis aconteceu no condado de Louisa, na Virgínia. A Amazon Web Services propôs um campus de 7,2 milhões de pés quadrados em 1.370 acres, com potencial de gerar US$ 115 milhões anuais ao condado. Em audiência pública, moradores reclamaram de ruído, tráfego pesado e pressão sobre a rede elétrica. A AWS retirou o pedido de licença e disse que vai reavaliar o projeto.
Em Tucson, no Arizona, a disputa girou em torno de água. O conselho municipal votou contra permitir que um projeto de data center usasse o abastecimento hídrico da cidade. A Amazon, apontada como potencial operadora, saiu do arranjo. O empreendimento tenta seguir adiante com um sistema de resfriamento que dependa menos de água, transferindo na prática a pressão para o consumo de energia.
Na região de Indianápolis, o Google desistiu do “Project Flo”, que previa quatro prédios em 468 acres com abatimento fiscal de dez anos, após protestos de moradores preocupados com consumo de água e energia e com o baixo número de empregos permanentes. Um conselheiro local havia assinado um acordo de confidencialidade sobre o projeto, o que aumentou a desconfiança da comunidade.
A Microsoft cancelou seu plano em Caledonia, Wisconsin, que envolvia 244 acres e uma subestação de 15 acres, depois de oposição de moradores e autoridades. E no condado de Montour, na Pensilvânia, a comissão local negou o rezoneamento de área agrícola para permitir a instalação de data centers que atenderiam a Amazon em esquema de co-locação com uma usina de energia.
A conta da água
A Reuters citou estimativa de que data centers na América do Norte usaram perto de 1 trilhão de litros de água em 2025. O resfriamento dos servidores pode exigir retirada direta de água do abastecimento local ou, se substituído por sistemas de ar, aumentar a demanda elétrica.

Dados publicados pelo Google mostram a dimensão do problema. O data center de Council Bluffs, em Iowa, retirou 1,41 bilhão de galões de água em 2024. O de Mayes County, em Oklahoma, retirou 1,1 bilhão. No total, as operações do Google consumiram 8,1 bilhões de galões no ano.
As três grandes apresentam métricas de maneiras diferentes, o que dificulta comparações. A Amazon divulga eficiência hídrica por unidade de energia, mas não um total consolidado. A Microsoft informa volume global sem recorte por localidade. O Google publica dados por site, mas exclui instalações operadas por terceiros.
Pressão de investidores
Acionistas passaram a cobrar mais do que metas genéricas de impacto ambiental. A gestora Trillium protocolou resolução na Alphabet em 2026 exigindo que a empresa explique como cumprir compromissos climáticos com a demanda crescente de seus data centers. Jason Qi, analista-líder de tecnologia da Calvert, resumiu a crítica: “não vimos divulgação suficiente” sobre consumo de água e impacto nas comunidades locais.
Na assembleia de 2025 da Amazon, uma proposta semelhante recebeu 1,55 bilhão de votos a favor, mas foi rejeitada por 6,17 bilhões contra. Na Alphabet, o placar foi de 1,02 bilhão a favor e 11,4 bilhões contra. As derrotas numéricas não ocultam um fato: a base de apoio a essas resoluções cresce a cada temporada.
O que vem pela frente
A Agência Internacional de Energia projeta que o consumo global de eletricidade por data centers pode dobrar até 2030, chegando a cerca de 945 TWh por ano. Nos EUA, o embate tende a se repetir a cada novo projeto que precise de rezoneamento, licenças ambientais e acesso a recursos locais. A Data Center Coalition, grupo de lobby do setor, reconheceu que transparência sobre água e energia é prioridade para impedir que comunidades rejeitem empreendimentos sem ter informações.
-A imagem que ilustra esta matéria foi criada utilizando IA.
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