No 14 de agosto, Dia Nacional de Combate à Poluição, dados mostraram como a degradação do ar, água e solo custa vidas e bilhões ao SUS, enquanto o país enfrenta um paradoxo entre recordes de queimadas e esforços de combate
No 14 de agosto, o Brasil não comemou, mas refletiu sobre uma crise de saúde pública que avança silenciosamente. Cinquenta anos após a primeira lei de controle da poluição industrial, o país se vê diante de uma conta devastadora: um rastro de doenças crônicas, mortes prematuras e um prejuízo bilionário para os cofres públicos, impulsionado por um inimigo muitas vezes invisível. A data, que deveria ser um marco de progresso, hoje serve como um alarme estridente sobre os custos da negligência ambiental.
A magnitude da crise é difícil de visualizar, mas os números a traduzem em perdas humanas. Globalmente, a poluição do ar foi responsável por 8,1 milhões de mortes apenas em 2021, conforme aponta o relatório Estado do Ar Global de 2024. No Brasil, essa mesma ameaça invisível fez o número de óbitos por doenças crônicas saltar de 38.782 para 44.228 em uma década, um aumento de 14% que sobrecarrega famílias e o sistema de saúde.
O inimigo invisível no ar
Quando se fala em poluição, a imagem que vem à mente é a da fumaça preta saindo de chaminés. A realidade, no entanto, é muito mais sutil e letal. O grande vilão atende pelo nome de PM2,5, partículas finas com menos de 2,5 micrômetros de diâmetro, invisíveis a olho nu. Produzidas por veículos, indústrias e, principalmente, pelas queimadas que devastam os biomas brasileiros, essas partículas penetram fundo nos pulmões, alcançam a corrente sanguínea e desencadeiam uma cascata de doenças.
O resultado? Infartos, derrames, diabetes, câncer de pulmão e outras condições crônicas. A situação é tão grave que, na última década, cerca de 12% de todas as internações por problemas cardiorrespiratórios em adultos com mais de 30 anos em Mato Grosso foram diretamente causadas pela inalação desse poluente específico. Uma única partícula, um único poluente, um impacto devastador. Não por acaso, o Brasil figura ao lado de Índia e Nigéria entre os países com o maior aumento na exposição ao ozônio, outro gás tóxico, nos últimos dez anos.
A conta bilionária que não fecha
O custo dessa crise não é apenas humano, ele é financeiro e drena recursos que poderiam ser investidos em outras áreas da saúde. Apenas em 2020, ano da tragédia histórica no Pantanal, os gastos do Sistema Único de Saúde (SUS) com aproximadamente 1.800 internações relacionadas à fumaça ultrapassaram os R$ 4 milhões. Mas isso é apenas a ponta do iceberg.
Uma pesquisa inédita da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), em parceria com o Ministério da Saúde, calculou o prejuízo em uma escala muito maior. Entre 2010 e 2021, a exposição ao material particulado das queimadas na Amazônia Legal e no Cerrado setentrional custou ao SUS, em média, R$ 2,5 bilhões por ano em tratamentos de doenças cardiorrespiratórias. Em São Paulo, o cenário futuro é igualmente sombrio. Projeções indicam que, entre 2017 e 2050, a poluição do ar na capital paulista deve causar 178.155 mortes, com um custo associado à perda de produtividade que pode chegar a R$ 54 bilhões.
Uma crise que vai além da fumaça
Embora a poluição do ar seja a face mais visível do problema, a degradação ambiental no Brasil é múltipla. A poluição sonora, por exemplo, já é a segunda maior causa de doenças no mundo, segundo a OMS, superando até mesmo a poluição da água. O excesso de ruído nas cidades transforma o país em um candidato a “país dos surdos”, um problema de saúde pública frequentemente ignorado.
No campo, o solo sofre. Cerca de 20% do território brasileiro apresenta algum nível de degradação, o que ameaça a segurança alimentar e pode reduzir a produtividade agrícola em até 40% em certas regiões. Enquanto isso, nossos oceanos se tornam um depósito de lixo. O Brasil despeja anualmente 1,3 milhão de toneladas de plástico no mar, o equivalente a 8% de toda a poluição plástica global.
Para entender melhor:
- PM2,5 (material particulado fino): São partículas poluentes extremamente pequenas (menores que 2,5 micrômetros) suspensas no ar. Devido ao seu tamanho, conseguem penetrar profundamente no sistema respiratório e chegar à corrente sanguínea, causando graves problemas de saúde.
- Queimadas: Incêndios florestais, muitas vezes de origem criminosa, usados para desmatar áreas para agricultura ou pecuária. São uma das principais fontes de emissão de PM2,5 e gases de efeito estufa no Brasil.
- CO₂ equivalente (CO₂eq): Uma medida que converte o impacto de diferentes gases de efeito estufa (como o metano) em uma quantidade equivalente de dióxido de carbono (CO₂), para padronizar o cálculo do potencial de aquecimento global.
Paradoxo em chamas
Apesar do cenário desolador, dados recentes oferecem um vislumbre de esperança e apontam o caminho. Em 2024, o Brasil viu mais de 30,8 milhões de hectares serem consumidos pelo fogo, um aumento de 79% em relação ao ano anterior. O Pará foi o estado mais atingido, respondendo por quase um quarto de toda a área queimada no país.
Paradoxalmente, o primeiro semestre de 2025 registrou uma queda de 65,8% nas áreas queimadas, um resultado direto de políticas públicas mais assertivas, como a contratação do maior contingente de brigadistas federais da história, com 4.385 profissionais. O número mostra que, quando há investimento e vontade política, é possível frear a destruição.
Contudo, o Brasil ainda nada contra a corrente em outros aspectos. Em 2020, enquanto o mundo via as emissões de gases de efeito estufa caírem quase 7% devido à pandemia, as emissões brasileiras cresceram 9,5%, puxadas pelo desmatamento. A conta da poluição, portanto, continua a ser paga com vidas perdidas, recursos públicos desperdiçados e um futuro cada vez mais comprometido. O dia de hoje serve para lembrar que essa dívida precisa ser quitada, antes que se torne impagável.











