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Nove em cada dez crianças brasileiras já vivem sob risco climático, diz UNICEF

Quase 90% das crianças brasileiras, 45,1 milhões, já vivem expostas a pelo menos uma ameaça climática, e 47 milhões respiram ar poluído, segundo o Relatório de Risco Climático da Infância 2026, da UNICEF. Uma em cada três enfrenta três ou mais perigos ao mesmo tempo, como seca, calor extremo e ondas de calor.
risco climático

Relatório da UNICEF mapeia a exposição de 50 milhões de meninos e meninas do país a seca, calor e poluição do ar

Nove em cada dez crianças brasileiras, 45,1 milhões, já estão expostas a pelo menos uma ameaça climática, e 47 milhões respiram ar com poluição acima dos limites seguros. Os números constam do Relatório de Risco Climático da Infância 2026, divulgado pela UNICEF em 15 de junho. O levantamento mapeou a exposição da população infantil de mais de 220 países e territórios a oito perigos climáticos e a riscos agravados pelo clima, como a poluição atmosférica e a malária.

A poluição do ar é o risco que alcança o maior número de crianças no país. Dos 50,2 milhões de brasileiros com menos de 18 anos, 47 milhões vivem em áreas onde a concentração de partículas finas, as chamadas PM2,5, ultrapassa o limite recomendado. É quase toda a população infantil do país. Está presente tanto nos grandes centros urbanos quanto nas áreas atingidas por queimadas.

A exposição quase universal ao ar poluído convive com outros perigos. Ao todo, 89,9% das crianças brasileiras estão em áreas de risco para ao menos um dos fenômenos analisados, da seca aos incêndios, das enchentes às ondas de calor. As enchentes de rios atingem 2,7 milhões de crianças, enquanto as inundações costeiras chegam a apenas 0,07% e as tempestades tropicais praticamente não atingem o país.

Logo atrás da poluição aparecem a seca e o calor, que no Brasil costumam ocorrer juntos.

Seca e calor

A sobreposição de seca e onda de calor é a ameaça mais frequente para a infância brasileira. São 35,6 milhões de crianças, 71% do total, em áreas de risco de seca, e 34,2 milhões, 68%, sob ondas de calor. Quando os dois fenômenos coincidem na mesma região, atingem ao mesmo tempo 11,8 milhões de meninos e meninas. É o maior grupo exposto a um único par de ameaças no país.

Para 8,7 milhões de crianças, a seca se soma a ondas de calor e calor extremo, e para 3,2 milhões esse trio ainda se junta ao risco de incêndios. Quase 30 milhões de crianças, 58,8% do total, vivem em áreas classificadas como de alta intensidade de risco combinado. O calor extremo, terceiro maior perigo no Brasil, alcança sozinho 17,1 milhões de crianças e adolescentes, os incêndios chegam a 6,8 milhões e a malária, a 5,4 milhões.

Esse padrão reproduz no país a combinação que aparece como a mais comum no mundo, segundo o levantamento: seca, calor extremo e ondas de calor, que afetam mais de 296 milhões de crianças globalmente. A segunda combinação mais frequente no planeta, que reúne seca, calor extremo e tempestades tropicais, atinge outras 115 milhões.

Um terço das crianças sob três ou mais ameaças ao mesmo tempo

Quase uma em cada três crianças brasileiras, 15,9 milhões ou 31,6%, vive em áreas expostas a pelo menos três perigos climáticos ao mesmo tempo. Mais da metade, 61,8%, enfrenta ao menos dois fenômenos. E 4,3 milhões convivem com quatro ou mais ameaças combinadas.

A sobreposição de riscos é o foco central do relatório. Pela primeira vez, o estudo localizou onde os perigos se combinam e sobrecarregam serviços essenciais como saúde, água potável e educação. Os dados foram levantados com um modelo probabilístico de período de retorno de cem anos e resolução de até cem metros, o que permite identificar com precisão inédita onde a infância está mais exposta. O estudo amplia o alcance da análise anterior, de 2021, que já havia classificado a crise climática como uma crise dos direitos da criança.

No mundo, cerca de 1,1 bilhão de crianças, quase metade do total, estão expostas a três ou mais ameaças, e mais de 4 milhões podem enfrentar até seis perigos somados ao mesmo tempo. Metade das crianças do planeta já vive sob pelo menos três ameaças climáticas combinadas que condicionam o dia a dia, afirmou a diretora-executiva da UNICEF, Catherine Russell.

Brasil entre os dez do mundo

Em números absolutos, o Brasil é citado nominalmente no relatório entre os países com mais crianças sob múltiplos riscos. Está ao lado de Bangladesh, México, Nigéria e Paquistão. Na exposição à seca, o país ocupa a décima posição mundial, com 35,6 milhões de crianças. Fica atrás de nações como Índia, China, Estados Unidos e Egito. Tem ainda a nona maior população infantil exposta a ondas de calor e a décima em poluição do ar, entre mais de 220 territórios avaliados.

Países de renda alta também não estão imunes. De acordo com o relatório, na Itália mais de 6 milhões de crianças enfrentam ondas de calor e secas prolongadas, embora investimentos em adaptação venham reduzindo parte do risco. No Sahel africano, mais de 4 milhões de crianças vivem sob a tripla ameaça de ondas de calor, calor extremo e tempestades de areia, e é em países como Bangladesh, Mianmar e Paquistão que a infância acumula perigos com a maior intensidade do mundo. Já a totalidade das crianças de 24 pequenos estados insulares está exposta a tempestades tropicais capazes de paralisar ilhas inteiras.

A face social do risco climático

A exposição ao clima se cruza com vulnerabilidades sociais. No Brasil, ainda que o acesso a água e energia seja praticamente universal, 46,9% das crianças apresentam pobreza de aprendizagem, 8,9% das menores de cinco anos têm baixa estatura para a idade e 8,4% vivem em situação de pobreza alimentar severa. A taxa de mortalidade de crianças com menos de cinco anos é de 14,2 por mil nascidos vivos, e o índice geral de vulnerabilidade infantil do país é baixo para uma nação de renda média alta. Ainda assim, 65,9% das crianças menores de 15 anos contam com proteção social e 2,1% estão em trabalho infantil. São condições que reduzem a capacidade de as famílias se prepararem para choques climáticos e se recuperarem deles.

A UNICEF recomenda que governos, empresas e demais setores incluam a infância nos planos nacionais de adaptação, construam escolas e unidades de saúde resilientes ao clima, reforcem sistemas de alerta e de proteção social e reduzam com urgência as emissões de gases de efeito estufa. O relatório completo e o resumo executivo estão disponíveis no site da entidade.

Fonte:

Relatório de Risco Climático da Infância 2026 (Children’s Climate Risk Report 2026), UNICEF, Nova York, 2026.

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