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China cobra prova de origem da carne brasileira e expõe atraso no rastreio do gado

Compromisso da Tianjin Meat Association de comprar 50 mil toneladas com selo Beef on Track desloca para o mercado asiático uma exigência ambiental antes restrita a Europa e Estados Unidos

Empresas chinesas reunidas na Tianjin Meat Association firmaram compromisso de comprar 50 mil toneladas de carne bovina brasileira com selo Beef on Track ao longo de 2026, segundo informação divulgada pelo Imaflora em abril. A iniciativa parte do maior comprador da proteína bovina nacional e introduz, na rota Brasil-China, uma exigência ambiental antes mais associada a Europa e Estados Unidos. A demanda chega num momento em que o sistema brasileiro de rastreabilidade ainda trabalha por lote, e não por animal, segundo o próprio Ministério da Agricultura e Pecuária.

A pressão chega de quem mais compra

Em março de 2026, o Brasil exportou 270,8 mil toneladas de carne bovina, com receita de US$ 1,48 bilhão, conforme dados da Secex/MDIC compilados pela Abiec. No primeiro trimestre, a China respondeu por 335,3 mil toneladas e US$ 1,84 bilhão, mais de 40% das vendas externas brasileiras do produto. O crescimento foi de 41,8% em volume e 42,5% em receita na comparação anual.

A delegação da Tianjin Meat Association esteve no Brasil entre 8 e 15 de abril de 2026, com agendas em São Paulo, Belém e Brasília. As reuniões foram coordenadas pelo Imaflora dentro das ações do Beef on Track, sistema lançado em outubro de 2025 e apresentado pelo instituto como a primeira certificação de carne livre de desmatamento do mundo.

Exportações brasileiras de carne bovina no 1º trimestre de 2026: peso da China

O que o Beef on Track promete entregar

No BoT Bronze, os fornecedores diretos do frigorífico precisam estar livres de desmatamento ilegal, trabalho análogo à escravidão e produção em terras públicas destinadas. O Prata acrescenta o desmatamento legal à lista de exclusões. O Ouro estende o controle aos fornecedores indiretos, ainda restrito ao desmatamento ilegal. O Platinum, o mais alto, alcança fornecedores indiretos e bloqueia também o desmatamento legal.

A certificação parte de protocolos já em uso: o Boi na Linha, que monitora frigoríficos signatários do Termo de Ajustamento de Conduta da Carne na Amazônia Legal; o Protocolo do Cerrado, voltado ao segundo bioma mais pressionado pela pecuária; e as regras do Grupo de Trabalho de Fornecedores Indiretos, que tratam especificamente do boi antes da engorda final. Sobre essa base, o BoT acrescenta uma etapa de auditoria por terceira parte e um selo único, modelo herdado de compromissos voluntários da pecuária firmados desde 2009.

Os quatro níveis do selo Beef on Track e o que cada um cobre

Por que o desmatamento entra na conta da carne

Mais de 90% das áreas desmatadas na Amazônia tiveram a pastagem como primeiro uso, segundo dado do MapBiomas. Entre 1985 e 2023, a área de pasto no bioma cresceu mais de 363%, passando de aproximadamente 12,7 milhões de hectares para 59 milhões de hectares. Em 2023, 14% da Amazônia estava ocupada por pastagens. Das áreas desmatadas entre 1987 e 2020, 77% viraram pasto e mantinham esse uso em 2020.

A Trase, plataforma técnica que mede riscos em cadeias de commodities, estima que o comércio Brasil-China responde por 25% do risco de desmatamento associado ao comércio internacional de produtos agrícolas. Para as importações chinesas, o Brasil responderia por 80% do risco vinculado a produtos originados de áreas recentemente desmatadas, e a carne bovina brasileira representaria 61% do risco total da China.

A própria Trase ressalva que esses números indicam risco potencial, não nexo causal direto entre toda carne exportada e desmatamento. Mas a magnitude já é suficiente para que importadores e auditoras tratem prova de origem como requisito comercial.

Expansão da pastagem na Amazônia: 1985–2023

O ponto fraco está antes do frigorífico

A dificuldade da rastreabilidade brasileira não está no último elo da cadeia. O problema real é alcançar os fornecedores indiretos: as fazendas por onde o boi passou antes da etapa final de engorda. Um animal pode nascer em uma propriedade, ser engordado em outra e seguir para uma terceira antes do abate. A cada transferência entre propriedades, o rastro do animal pode ser interrompido.

O Ministério da Agricultura e Pecuária reconhece a limitação. Na página oficial do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (PNIB), o órgão informa que a rastreabilidade brasileira ainda é baseada em lote. Pelo PNIB, o ministério prevê a migração para identificação individual, com brinco de número único acompanhando o animal do nascimento ao abate. O objetivo declarado é fortalecer a segurança sanitária e a transparência da cadeia em mercados internacionais.

O MAPA também apresentou à delegação chinesa, ligada à Academia Chinesa de Ciências Agrícolas, a Plataforma AgroBrasil+Sustentável, sistema digital do governo federal que reúne dados de rastreabilidade da produção agropecuária.

Frigoríficos correm em paralelo, com sistemas próprios

Até o fechamento desta reportagem, nenhum dos três grandes frigoríficos brasileiros havia aderido publicamente ao Beef on Track. Cada um opera o próprio mecanismo. A JBS afirma em sua página ESG que adota tolerância zero a desmatamento, trabalho escravo e ocupação de territórios indígenas. A empresa diz monitorar mais de 61 milhões de hectares de fazendas fornecedoras com bases públicas, imagens de satélite e dados georreferenciados, e bloquear automaticamente fornecedores diretos fora dos critérios.

Em 2024, mais de 85% do gado processado pela companhia estava cadastrado em sua Plataforma Pecuária Transparente. A partir de 2026, todos os fornecedores diretos que quiserem vender para a empresa terão de estar nessa plataforma.

A Minerva Foods integrou ao seu sistema a tecnologia Visipec, ferramenta que usa dados públicos para mapear o risco em fornecedores indiretos e que se apoia em boas práticas do Grupo de Trabalho de Fornecedores Indiretos.

A MBRF informou, em publicação institucional de dezembro de 2025, ter confirmado o primeiro carregamento de carne bovina brasileira verificada como livre de desmatamento e conversão para compradores chineses. O caso foi vinculado a auditoria independente e a controle de rastreabilidade da origem ao abate, incluindo fornecedores diretos e indiretos. A operação não significa adesão ao Beef on Track. Trata-se de um padrão diferente, conhecido como vDCF.

O que muda no boi do dia a dia

Imagine o gerente de um frigorífico em Marabá ou Lucas do Rio Verde recebendo um caminhão de gado: a nota fiscal e o registro sanitário do animal nos últimos meses já não são suficientes. É preciso documentar também onde o boi nasceu, por onde passou e em quantas mãos esteve. No supermercado, é a mesma lógica do ovo caipira e do leite orgânico aplicada à carne: a bandeja com selo de origem ambiental ocupará uma prateleira distinta da bandeja sem selo, com preço também distinto.

No campo, o pecuarista do Mato Grosso que vende para frigorífico exportador deverá apresentar o histórico do rebanho que ele próprio comprou de outros criadores. Quem cria bezerros em fazenda menor e vende para uma intermediária de engorda passa a precisar de comprovação de origem dos lotes anteriores. O custo dessa adaptação tende a recair primeiro sobre os elos menores da cadeia, e a entrar, em algum momento, no preço final do quilo do contrafilé na bandeja do açougue.

Na ponta de quem compra, a conta é diferente. Pelo compromisso firmado em abril, a carne brasileira com selo BoT no porto de Tianjin será comercializada como produto distinto, mesmo quando o concorrente sem selo vier do mesmo país. A demanda parte do maior comprador da carne bovina nacional.

Compromissos da pecuária amazônica desde 2009

Os primeiros compromissos da pecuária amazônica foram firmados em 2009, segundo o programa Boi na Linha. Hoje, mais de 70 empresas do setor mantêm compromissos voltados a toda a sua área de atuação ou restritos a alguns estados da região. Dois instrumentos centrais sustentam o desenho atual: os TACs firmados com o Ministério Público Federal, voltados a impedir compra de gado de pecuaristas envolvidos em irregularidades, e os compromissos voluntários da pecuária.

Com o BoT, o frigorífico não precisa explicar a cada cliente o que é TAC, o que é Boi na Linha e o que é GTFI: exibe a certificação.

O que vem pela frente

A primeira prova de mercado virá com os embarques BoT para a China em 2026. O acompanhamento das 50 mil toneladas prometidas, e dos volumes que vierem depois, deve indicar se o selo terá demanda real ou ficará restrito a um nicho de compradores. Em paralelo, o avanço do PNIB e da Plataforma AgroBrasil+Sustentável vai dizer quanto da rastreabilidade brasileira será feita pelo Estado e quanto ficará a cargo das certificadoras privadas. O calendário oficial das próximas etapas do PNIB ainda não foi divulgado, e o cronograma da Tianjin Meat Association para retirar as 50 mil toneladas ao longo de 2026 também não foi tornado público.

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