Bloco ampliado concentra 36% do PIB mundial e quase metade das reservas de petróleo do planeta, mas enfrenta contradições internas que podem travar sua institucionalização
O BRICS deixou de ser um acrônimo de mercado. Com a adesão de Arábia Saudita, Emirados Árabes, Egito, Etiópia e Irã, formalizada na XV Cúpula, em Joanesburgo, em 2023, o bloco ampliado passou a responder por 36% do PIB mundial em termos nominais e 41% em paridade de poder de compra. O G7 ficou para trás, com 29%.
A reconfiguração é analisada em profundidade na dissertação de mestrado de Larissa Lima Barros, defendida na Universidade Federal da Integração Latino-Americana em 2026. O trabalho mapeia a trajetória do bloco entre 2009 e 2024 e identifica três fases distintas: ascensão acelerada, de 2009 a 2014; declínio relativo, de 2015 a 2022; e renovação via expansão, a partir de 2023.
Banco próprio, regras próprias
O Novo Banco de Desenvolvimento, o NDB, é a peça institucional mais acabada do projeto BRICS. Com capital autorizado de US$ 50 bilhões e uma carteira que já alcança US$ 33 bilhões, o banco opera com ciclo de aprovação de 12 a 18 meses — metade do tempo exigido pelo Banco Mundial para projetos equivalentes.
A carteira do banco mostra onde o dinheiro vai. Energia renovável absorve 45%; transporte fica com 25%; saneamento básico, com 15%; desenvolvimento urbano, com 10%. O banco estima ter financiado cerca de 15 gigawatts de capacidade limpa e evitado a emissão de 30 milhões de toneladas de CO₂.

A divisão geográfica dos recursos segue lógica própria. Índia recebe 28% dos projetos, China absorve 24%, Brasil fica com 22%, África do Sul com 14% e Rússia com 12%. Os países associados, incorporados mais recentemente, respondem por 5%.
Desdolarização: retórica com avanços reais
O discurso de redução da dependência do dólar ganhou substância nos últimos anos. O comércio bilateral entre China e Rússia atingiu US$ 200 bilhões em 2024. Desse total, 70% já é liquidado em yuan e rublo. Em 2014, a proporção não chegava a 10%. O fluxo comercial entre Brasil e China alcançou US$ 181 bilhões em 2023.
O dólar ainda responde por 58,9% das reservas cambiais globais, conforme dados do fim de 2023. Mas a participação da economia norte-americana no PIB mundial recuou de cerca de 40% para 24% nas últimas décadas. Há um descompasso entre o peso real dos Estados Unidos na economia global e a hegemonia de sua moeda nas trocas internacionais.

O bloco criou ainda o Arranjo Contingente de Reservas, um fundo de US$ 100 bilhões pensado como alternativa parcial ao FMI. A China contribui com US$ 20,5 bilhões; Brasil, Rússia e Índia entram com US$ 18 bilhões cada; África do Sul completa com US$ 10 bilhões. O mecanismo, porém, nunca foi ativado formalmente.
Expansão cercada de contradições
A ampliação trouxe peso geopolítico. O BRICS expandido concentra aproximadamente 47% das reservas mundiais de petróleo e 55% das de gás natural. Mais de 40 países manifestaram interesse em aderir entre 2018 e 2023.
Mas a coesão interna é frágil. O Brasil atravessou recessão de 7% do PIB entre 2014 e 2016, com o desemprego saltando de 6,8% para 13,7%. A África do Sul cresceu apenas 1,5% ao ano entre 2015 e 2019, mantém desemprego acima de 25% e um coeficiente de Gini de 0,63 — um dos mais altos do mundo. A Rússia viu o barril de petróleo despencar de mais de US$ 100 para menos de US$ 30, e o rublo perdeu metade do valor.
A Argentina, convidada na XV Cúpula, desistiu antes de formalizar a entrada. A decisão expôs as tensões entre a ambição multilateral do bloco e as oscilações políticas domésticas de seus potenciais membros.
Três cenários para o futuro
A pesquisa de Barros projeta três trajetórias possíveis. Na primeira, o NDB e o Arranjo Contingente se consolidam como pilares de uma governança financeira alternativa. Na segunda, as assimetrias econômicas e as divergências geopolíticas entre os membros, a começar pela rivalidade sino-indiana, levam à fragmentação. Na terceira, considerada mais provável pela autora, o bloco avança em agendas de interesse comum, como desdolarização e reforma de organismos multilaterais, sem tentar uniformizar as posições de seus integrantes.
A XVII Cúpula, realizada no Rio de Janeiro em 6 e 7 de julho de 2025, testou essa capacidade. Os 11 membros assinaram a Declaração do Rio com 126 compromissos em áreas como reforma do FMI, finanças climáticas e governança de inteligência artificial. O bloco propôs ainda a criação de uma Iniciativa Multilateral de Garantias, a ser pilotada pelo NDB, para reduzir o risco de investimentos em economias em desenvolvimento. Os avanços na esfera comercial e institucional, porém, não vieram acompanhados de aprofundamento da agenda política multipolar.
Fonte: Dissertação “Reconfigurando o tabuleiro global: o BRICS e os desafios da governança internacional”. Larissa Lima Barros. Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), Foz do Iguaçu, 2026. Análise qualitativa e quantitativa com base em documentos oficiais das cúpulas do BRICS, relatórios do NDB e bases de dados econômicas internacionais, período 2009–2024. Licença: não especificada.
-A imagem que ilustra esta matéria foi criada utilizando IA.
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