Sistema inédito de monitoramento por satélite revela 621 alertas de uso de agrotóxicos para destruir vegetação em 2025, expondo falhas na fiscalização e elos com gigantes do agronegócio.
Uma nova fronteira de destruição avança de forma silenciosa e tóxica sobre as florestas de Mato Grosso. Alertas sobre o uso de agrotóxicos para eliminar vegetação nativa, uma prática conhecida como desmatamento químico, simplesmente explodiram. Dados inéditos de uma ferramenta do governo estadual, obtidos pela Repórter Brasil, mostram que os registros saltaram de 69 em todo o ano de 2024 para 621 apenas entre janeiro e 10 de outubro de 2025. Um crescimento vertiginoso de 800%.
A área total afetada por essa tática desde 2021 já chega a 149 mil hectares, o equivalente a toda a mancha urbana do município de São Paulo. Desse total, a imensa maioria dos casos, 94% para ser exato, concentra-se na porção amazônica do estado.
A tecnologia que vê a floresta morrer
Como identificar uma devastação que não envolve o barulho de motosserras nem a fumaça das queimadas? Mato Grosso tornou-se pioneiro no Brasil ao desenvolver um sistema específico para isso. Utilizando imagens de satélite de alta definição da plataforma Planet, a Secretaria de Meio Ambiente (Sema-MT) consegue detectar a mudança gradual na coloração da mata. O verde saudável dá lugar a tons marrom-avermelhados, um sinal de que a vegetação está sendo envenenada até a morte.
Para refinar a suspeita, o sistema cruza esses alertas visuais com uma montanha de informações: dados do Cadastro Ambiental Rural (CAR), licenças ambientais, planos de voo agrícola e até notas fiscais de compra de agrotóxicos. A metodologia se provou eficaz. Um levantamento feito em 2024 com 69 imóveis rurais que dispararam o alerta constatou que em 84% deles os proprietários haviam, de fato, adquirido agrotóxicos. “Esses resultados evidenciam elevada correspondência entre os alertas gerados pelo monitoramento e a efetiva utilização desses insumos nos imóveis”, afirma uma nota técnica da pasta.
O governo do estado investiu mais de R$ 260 milhões desde 2019 em tecnologia para fiscalização. Apenas no primeiro semestre de 2023, a ferramenta ajudou a atender 2.400 alertas de crimes ambientais diversos, resultando na autuação de 173 mil hectares por desmate ilegal.
Estratégia para burlar a lei
O desmatamento químico não é apenas uma forma de limpar o terreno; é uma estratégia calculada para contornar a fiscalização. Maelison Neves, pesquisador do Núcleo de Estudos Ambientais e Saúde do Trabalhador da UFMT, explica que a prática se tornou comum para deixar a derrubada “menos visível”. Ao contrário do método do “correntão” — uma corrente gigante arrastada por dois tratores que derruba tudo pelo caminho —, os agrotóxicos matam a floresta em pé, deixando para trás um cemitério de árvores secas.
“Faz parte da estratégia de alguns produtores rurais para contornar a fiscalização”, afirma o pesquisador. A técnica permite ainda preservar árvores de maior valor comercial, que podem ser vendidas depois no mercado ilegal. Uma fonte do governo, que preferiu não se identificar, aponta a principal finalidade: a abertura e limpeza de pastagens para gado bovino. Segundo Neves, o veneno também se tornou uma arma em disputas de terra. “Nas regiões de conflito agrário e socioambiental, o agrotóxico não é apenas um instrumento de produção, mas também de expulsão da natureza e do povo do campo para dar lugar à monocultura”, acrescenta.
Retrato de um desastre: o caso do maior devastador do Pantanal
Nenhum caso ilustra melhor a audácia e a escala do desmatamento químico do que o do pecuarista Claudecy Oliveira Lemes. Em 2024, ele foi alvo de uma operação por devastar 81,2 mil hectares no Pantanal, em Barão de Melgaço (MT). Uma área quase quatro vezes o tamanho de Amsterdã. Para isso, foram pulverizados por avião 25 tipos de agrotóxicos, incluindo o 2,4-D, um dos componentes do infame “Agente Laranja”, usado como arma química na Guerra do Vietnã. O custo da operação criminosa ultrapassou R$ 25 milhões.
Em outubro de 2024, o Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) o denunciou, junto com um engenheiro agrônomo, um piloto e a empresa de aviação agrícola. A promotoria pede uma indenização de R$ 2,3 bilhões e, caso condenados, as penas somadas podem chegar a 412 anos de prisão.
Apesar da gravidade, a impunidade parece ser a regra. Claudecy já acumulava 15 autuações e R$ 5,2 bilhões em multas desde 2019, mas segue em liberdade. A Justiça negou dois pedidos de prisão preventiva. Em agosto de 2025, o Tribunal de Justiça de Mato Grosso foi além e revogou a apreensão de seu gado, argumentando que os animais eram “indispensáveis para geração de receita” e para a “sobrevivência” do pecuarista. As 11 fazendas, avaliadas em mais de R$ 1 bilhão, continuam embargadas como garantia.
Do pasto envenenado ao supermercado
A teia de negócios de Claudecy Lemes alcança o topo da cadeia da carne. Um relatório da organização Mighty Earth, de setembro de 2024, revelou que o pecuarista forneceu gado para unidades da JBS, Marfrig e Minerva. Uma de suas propriedades, a Fazenda Soberana, mesmo embargada por desmatamento ilegal desde 2020, vendeu animais para uma planta da JBS em 2021.
“Antes de realizar a compra, a JBS tinha como saber que a fazenda estava embargada”, critica Cristiane Mazzetti, do Greenpeace Brasil. A prática de “lavagem de gado”, onde animais de áreas irregulares são movidos para fazendas “limpas” antes da venda, é uma suspeita constante.
Como se não bastasse, uma investigação do Greenpeace revelou que, entre 2021 e 2024, Claudecy obteve mais de R$ 10 milhões em crédito rural do Banco do Brasil. “Não é aceitável que, além de não enfrentar as consequências legais e judiciais, ele ainda consiga obter financiamento público para continuar suas operações”, completa Mazzetti.
A evolução do crime e os desafios da fiscalização
Se antes aviões deixavam rastros visíveis da pulverização, hoje o uso de drones torna a detecção muito mais complexa. “Já os drones atuam em áreas menores e pontuais, tornando mais difícil a identificação remota. Nesses casos, a comprovação costuma depender de inspeções em campo”, explicou a fonte do governo. Doze proprietários já foram notificados pelo uso de drones para desmatar.
A combinação de tecnologia acessível e a liberação recorde de novos agrotóxicos cria um cenário preocupante. O desmate químico, como afirma a promotora Ana Luiza Peterlini, é “mais difícil de detectar, parece um incêndio”. Rodrigo Agostinho, presidente do Ibama, admite a dificuldade de prova. “Não temos dúvidas de que é uma prática muito comum”, disse.
A contaminação não se limita à flora. Ela envenena o solo, a água, a fauna e chega a comunidades rurais e terras indígenas. No início de outubro, o Ministério Público Federal (MPF) recomendou medidas urgentes para proteger o Território Indígena do Xingu da contaminação causada por fazendas no entorno. Um problema que, sem um registro nacional de casos, permanece em grande parte invisível, com exceção do olho vigilante, e agora sobrecarregado, de Mato Grosso.
Para entender melhor:
- Desmatamento Químico: Prática ilegal de aplicar produtos químicos, como herbicidas e outros agrotóxicos, geralmente por via aérea (aviões ou drones), para matar a vegetação nativa. O método é usado para “limpar” áreas para pastagem ou agricultura de forma silenciosa e para burlar a fiscalização por satélite tradicional, que foca em cortes rasos.
- Correntão: Método de desmatamento que consiste em arrastar uma corrente pesada, com vários metros de comprimento, entre dois tratores de esteira. A corrente derruba todas as árvores e vegetação em seu caminho, sendo uma forma rápida e altamente destrutiva de supressão vegetal.
- Agente Laranja: Nome código de um poderoso herbicida e desfolhante químico, uma mistura dos produtos 2,4-D e 2,4,5-T. Foi usado em larga escala pelas forças armadas dos Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã para destruir florestas e plantações, causando graves danos ambientais e de saúde a longo prazo.












