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Reparação histórica na COP30: Governo homologa 274 mil hectares e pode encerrar ciclo de violência em MT, ou aumentá-lo

Anúncio feito por Ricardo Lewandowski e Sonia Guajajara em Belém oficializa decretos aguardados há décadas; medida responde a assassinatos, invasões armadas e massacres centenários nas terras Paresi e Manoki.

Esta terça-feira, 18 de novembro, consolida um capítulo decisivo na história dos direitos originários em Mato Grosso. O governo federal publicou no Diário Oficial da União a homologação de três Terras Indígenas (TIs), assegurando a posse definitiva de mais de 274 mil hectares. O ato solene, contudo, ocorreu um dia antes, em 17 de novembro, durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), em Belém.

Ladeado pela ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, assinou as portarias que beneficiam diretamente os municípios de Campos de Júlio, Nova Lacerda, Conquista D’Oeste, Diamantino e Brasnorte.

“Desde 2018, não havia nenhuma demarcação e já estamos com 11 terras indígenas reconhecidas. Isso é um recorde e vamos continuar demarcando”, declarou Lewandowski.

A materialização dos decretos 12.721, 12.722 e 12.723 não é apenas um trâmite burocrático. Ela representa a resposta do Estado a um histórico sangrento de invasões, grilagem e impunidade que marcou a região do “cinturão agro” nas últimas décadas.

Uirapuru: Do conflito armado à preservação

 

A primeira vitória estratégica recai sobre a Terra Indígena Uirapuru. O decreto 12.721 garante 21.667 hectares ao povo Paresi. O perímetro, agora blindado, segue a margem esquerda do Rio Juína e a faixa de domínio da BR-364, confrontando propriedades produtivas como a Fazenda Sol Aberto e a Fazenda Carolina.

Essa homologação encerra um período de tensão extrema. Em 2021, a área foi palco de invasões violentas. Relatos do Ministério Público Federal (MPF) apontaram que um grupo armado, liderado por posseiros, invadiu o território para realizar construções ilegais, utilizando documentos falsificados supostamente emitidos pela Funai.

A justiça precisou intervir com reintegração de posse urgente para proteger a comunidade. Além da defesa territorial, os Paresi protagonizam um modelo econômico singular. Desde 2009, a etnia mantém contratos de parceria para o cultivo de soja, colhendo safras em milhares de hectares — uma iniciativa que busca aliar autonomia financeira com a posse da terra.

O resultado ambiental é visível. Contrariando a tendência de devastação, a TI Uirapuru registrou, em 2023, uma queda de 69% no desmatamento, reduzindo a perda de cobertura vegetal de 220 para apenas 68 hectares.

Estação Parecis: Justiça por Valmireide e legado de Rondon

Em Diamantino, o decreto 12.722 protege 2.170 hectares da TI Estação Parecis. A área é um enclave histórico, remanescente da antiga estação telegráfica fundada pelo Marechal Rondon em 1907. O local foi palco de uma luta de meio século, iniciada formalmente em 1973, quando o cacique João Zoromará entregou pessoalmente ao então presidente Médici uma petição exigindo a legalização da terra — pedido ignorado por décadas.

A homologação de hoje traz um peso de luto e justiça. Em 9 de janeiro de 2009, a liderança Valmireide Zoromará, neta do cacique João, foi assassinada a tiros enquanto pescava com a família. O crime, cometido pelo gerente de uma fazenda vizinha, visava desmobilizar a luta indígena.

“Eles queriam eliminar uma pessoa chave para enfraquecer a luta”, afirmou à época Rony Azoinayce, liderança local.

A violência na região incluiu até mesmo tomadas de reféns em 1993 e tentativas de remoção forçada em 1994. Agora, com a assinatura oficial, vizinhos como a Fazenda Espigão e SamPaulo têm seus limites definidos, e a memória de Valmireide é honrada com a garantia perpétua do solo pelo qual ela deu a vida.

Manoki: O retorno à mata e o fim do “mar de soja”

O ato mais complexo incide sobre Brasnorte. O decreto 12.723 retifica e amplia a área para 250.539 hectares, agora denominada Terra Indígena Manoki. A medida corrige uma distorção de 1990, quando a terra foi demarcada apenas no Cerrado (TI Irantxe), ignorando a cosmologia do povo.

“O povo Manoki é da mata, e não do cerrado”, reivindicam historicamente as lideranças, que agora recuperam o acesso às florestas e às nascentes do Rio do Sangue e Rio Membeca.

A área homologada é uma “ilha de biodiversidade” cercada por lavouras. O histórico do povo Manoki é marcado pelo trauma do “Massacre do Tapuru”, ocorrido por volta de 1900, quando seringueiros dizimaram uma aldeia inteira. Mais recentemente, a etnia enfrentou uma batalha judicial contra 114 registros de Cadastro Ambiental Rural (CAR) sobrepostos ao seu território e a pressão de grandes produtores, como as fazendas Uga-Uga, Agro São Luiz e Palotinence.

A disputa jurídica chegou a suspender a demarcação em 2013, mas a decisão atual, amparada na política de “desintrusão” do governo federal, supera os impasses impostos pela tese do Marco Temporal e pela Lei 14.701/2023, reafirmando a prevalência do direito originário.

O saldo da homologação

  • Conquista Política: Parte da meta do governo de regularizar 63 milhões de hectares até 2030.

  • Segurança no Campo: Define confrontantes exatos (ex: Fazenda Montedan e Sol Aberto), reduzindo a margem para grilagem institucionalizada.

  • Passivo Ambiental: Resolve sobreposições de CAR e freia o desmatamento ilegal, que persistia através da extração de madeira na TI Manoki.

  • Resgate da Memória: Responde aos crimes impunes contra lideranças como Valmireide Zoromará e corrige os limites da época de Rondon.

Para entender melhor:

Marco Temporal x Homologação: O STF declarou inconstitucional a tese de que indígenas só teriam direito às terras que ocupavam em 1988. Contudo, o Congresso aprovou a Lei 14.701/2023 tentando restabelecer essa tese. As homologações atuais são atos do Executivo que aplicam o entendimento do STF, garantindo o direito originário independentemente da data de ocupação, focando na tradicionalidade do território.

Dúvidas que ficam:

  1. Plano de segurança imediata: Considerando o histórico de “invasões armadas” (2021) e assassinatos (2009), o Ministério da Justiça disponibilizará efetivo da Força Nacional para garantir a integridade física dos fiscais e indígenas durante a fixação dos marcos físicos?

  2. Indenizações e benfeitorias: Como o governo tratará as benfeitorias de boa-fé nas fazendas listadas (Sol Aberto, Uga-Uga), visto que há uma “sobreposição de matrículas” tolerada pelo Estado por décadas? Existe orçamento aprovado para evitar novos litígios?

  3. Investigação de crimes: A homologação reabrirá ou acelerará inquéritos paralisados sobre a violência contra lideranças Paresi, combatendo a impunidade citada no caso de Valmireide Zoromará?

  4. Atividades econômicas: Qual será o entendimento do Ibama e da Funai sobre as lavouras de soja já consolidadas pelos Paresi (parcerias desde 2009)? Haverá um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) para regularizar essa produção dentro da nova malha fundiária?

  5. Desintrusão na TI Manoki: Dado que a área é uma “ilha de floresta num mar de soja” e possui 114 registros de CAR incidentes, qual é o cronograma real para a retirada dos não-indígenas e anulação desses cadastros?

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