Projeto EcoAções mobiliza estudantes de Campos Sales, une teoria crítica à prática e transforma realidade no semiárido ao colocar alunos no centro das decisões.
O sol forte do semiárido cearense ilumina mais do que a paisagem em Campos Sales. Nas escolas de tempo integral do município, ele agora revela um novo modelo de convivência. Estudantes do 9º ano não estão apenas sentados, ouvindo passivamente sobre o aquecimento global. Eles estão com a mão na massa. Transformam o ambiente onde estudam e, de quebra, reeducam a comunidade.
Essa mudança palpável é fruto do projeto EcoAções: Práticas Sustentáveis e Educação Ambiental Crítica na Escola e na Comunidade. Desenvolvida na E.E.F.E.T.I. Tabelião Vicente Alexandrino de Alencar e na E.E.F.E.T.I. Manoel Bezerra Fortaleza, a iniciativa provou que a teoria, quando bem aplicada, gera economia real.
Os números não deixam margem para dúvidas. Após a intervenção dos alunos, o consumo de água nas instituições caiu 22%. A conta de luz ficou 18% mais barata. Além disso, o volume de lixo reciclável que ia parar no lixo comum diminuiu 35%. Mas o ganho financeiro é apenas a ponta do iceberg de uma transformação pedagógica profunda.
Protagonismo juvenil em foco
A crise ambiental contemporânea exige mais do que reciclar garrafas. Ela pede uma mudança de mentalidade. Foi esse o ponto de partida dos pesquisadores Marta de Oliveira Carvalho e Fábio Santos da Silva. Eles estruturaram o projeto baseados na chamada “Educação Ambiental Crítica”.
Nesse modelo, o aluno deixa de ser espectador. A metodologia usada foi a pesquisa-ação participativa. Primeiro, os jovens fizeram um diagnóstico. Mapearam onde havia desperdício de água e luz. Identificaram o descarte errado de resíduos. Com os dados em mãos, partiram para o planejamento.
Divididos em comissões temáticas — água, energia, resíduos, revitalização e horta —, os estudantes assumiram o comando. O educador Paulo Freire, referência central do trabalho, já alertava que “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as condições para que o educando produza e construa saberes a partir de sua experiência no mundo”. E foi exatamente isso o que aconteceu.
Eles criaram hortas escolares. Revitalizaram espaços degradados usando material que iria para o lixo. Organizaram a coleta seletiva. O “chão da escola” virou território de pesquisa e intervenção.
Uma nova postura ética
O projeto vai além da técnica. Ele toca na ética. A ideia não é apenas formar técnicos em sustentabilidade, mas cidadãos críticos. O autor Carlos Loureiro, que fundamenta a base teórica da ação, define bem o espírito da coisa. Para ele, “a educação ambiental crítica é um processo político-pedagógico que visa à emancipação dos sujeitos por meio da problematização das relações entre sociedade, natureza e cultura”.
Isso significa entender que o problema ambiental é também social e político. Durante as oficinas e rodas de conversa, os alunos debateram a emergência climática. Leram autores como Jacobi e Sachs. Perceberam que suas ações locais dialogam com problemas globais.
A escola, portanto, tornou-se um exemplo prático. Gadotti, outro autor estudado, resume o sentimento que tomou conta dos corredores: “a sustentabilidade é uma nova pedagogia do ser, que requer sensibilidade, cooperação e solidariedade planetária”. Ao verem o resultado do próprio esforço, os alunos fortaleceram o sentimento de pertencimento.
EcoAções
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Público: Alunos do 9º ano do Ensino Fundamental.
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Local: Escolas de Tempo Integral em Campos Sales (CE).
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Resultados:
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Água: -22% no consumo.
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Energia: -18% no consumo.
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Resíduos: -35% de material reciclável no lixo comum.
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Ações: Horta, plantio de árvores, ecopontos e revitalização de espaços.
Para além dos muros
O impacto, felizmente, vazou para fora dos portões. A comunidade foi envolvida. Ocorreram feiras e exposições para socializar os resultados. Vizinhos e familiares começaram a rever hábitos domésticos. O projeto mostrou que a escola pública, muitas vezes criticada, possui força para liderar mudanças sociais.
No entanto, nem tudo são flores no caminho da sustentabilidade. A pesquisa apontou desafios claros. A necessidade de formação continuada para os professores é urgente. Faltam, muitas vezes, recursos financeiros e materiais. Manter o engajamento da comunidade após o fim das ações pontuais também é uma barreira a ser vencida.
Mesmo com os obstáculos, a lição que fica é política. Como disse Freire, “a educação é um ato político e libertador”. O EcoAções reafirmou a escola como um espaço de esperança. Em uma região marcada pela escassez hídrica, economizar cada gota d’água não é só uma lição de casa. É uma lição de vida.
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