Estudo inédito em 20 países mostra que, em média, o desenvolvimento da região caminha para a sustentabilidade; no entanto, enquanto Costa Rica e Guiana disparam, gigantes como México e Brasil expõem desafios.
Um novo estudo, abrangendo vinte nações da América Latina, revela um cenário de contrastes na relação entre crescimento econômico e sustentabilidade ambiental. Em média, a taxa de crescimento do chamado PIB Verde superou a do PIB convencional na região, com um avanço de 4,07% contra 3,59%. A análise, baseada nos dados mais recentes de 2024, sugere que a maioria dos países está, de alguma forma, alinhando seu desenvolvimento a práticas mais sustentáveis. Contudo, os números também expõem uma profunda desigualdade no ritmo dessa transição.
A pesquisa, publicada no periódico “Sociedade & Natureza”, utilizou uma metodologia que ajusta o Produto Interno Bruto (PIB) tradicional, descontando os custos da degradação ambiental e do esgotamento de recursos naturais. O resultado é um indicador que busca refletir de maneira mais fiel o bem-estar e a sustentabilidade do crescimento. Os dados mostram que os países da América Central apresentaram um desempenho notavelmente superior ao dos sul-americanos.
Enquanto nações como Guiana e Costa Rica registraram as maiores taxas de crescimento do PIB Verde, próximas a 8%, gigantes econômicos como México e Argentina enfrentam um cenário adverso. O México obteve o pior resultado entre todos os países analisados , e a Argentina viu ambos os indicadores, o tradicional e o verde, encolherem, sinalizando uma crise tanto econômica quanto ambiental.
O que os números revelam
O estudo detalha que o bom desempenho de alguns países pode ser explicado por uma combinação de fatores: a elevação do PIB convencional somada à redução de emissões de carbono, melhor gestão de resíduos sólidos e um controle mais eficaz do esgotamento de seus recursos naturais. Essas melhorias podem ser fruto da adoção de energias mais limpas, da transformação das matrizes energéticas e de políticas ambientais focadas na conservação.
No extremo oposto, o fraco desempenho de economias maiores como México e Brasil, que, apesar de terem os maiores PIBs nominais, também são os maiores emissores de carbono e geradores de resíduos da amostra, evidencia a dificuldade em conciliar expansão econômica com sustentabilidade. No caso do Brasil, a taxa de crescimento do PIB tradicional foi ligeiramente superior à do PIB Verde, uma diferença de 0,10%, o que, segundo os pesquisadores, indica um desafio na busca por um desenvolvimento plenamente sustentável.
A pesquisa também destaca casos como Equador e Bolívia, onde a diferença positiva entre o PIB Verde e o convencional foi acentuada, com 3,01% e 1,62% respectivamente, sugerindo um avanço significativo em direção a um modelo de desenvolvimento mais sustentável. Segundo o estudo, “quanto menor a diferença entre o GDP e o Green GDP, mais satisfatório será o nível de desenvolvimento sustentável”.
Para entender melhor:
- PIB Verde: É uma métrica que ajusta o Produto Interno Bruto (PIB) tradicional para levar em conta os custos ambientais do crescimento econômico. Ele subtrai do PIB os gastos relacionados à degradação de recursos naturais (como desmatamento e esgotamento de minérios) e os custos da poluição.
- Curva Ambiental de Kuznets (EKC): É uma teoria que sugere que a degradação ambiental aumenta nos estágios iniciais do desenvolvimento econômico de um país, mas começa a diminuir quando a renda per capita atinge um determinado nível. A relação forma um gráfico em formato de “U invertido”.
- Paridade do Poder de Compra (PPC): É uma métrica econômica usada para comparar o poder de compra de diferentes moedas. Ela elimina as diferenças nos níveis de preços entre os países, permitindo uma comparação mais precisa do padrão de vida e do volume de produção.
Um espelho das políticas globais
Os autores do estudo ponderam que os resultados positivos na maioria dos países latino-americanos não são um acaso. Eles podem ser reflexo de um alinhamento com agendas globais, como a Agenda 2030 e seus Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), além das Conferências das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP). Essas iniciativas globais incentivam práticas de produção e consumo mais sustentáveis e a gestão responsável dos recursos naturais.
Regionalmente, o Consenso de Montevidéu sobre População e Desenvolvimento, de 2013, também é apontado como um marco, ao reforçar a sustentabilidade como uma prioridade para os países da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL).
Apesar dos avanços, a pesquisa aponta limitações, como a dificuldade de obter dados completos para todos os 33 países da América Latina, o que impediu uma análise ainda mais ampla. A falta de séries temporais longas também é um obstáculo para identificar tendências de longo prazo. Ainda assim, o trabalho reforça a urgência de adotar indicadores como o PIB Verde para ir além da visão limitada do crescimento a qualquer custo, que ignora o bem-estar social e os limites do planeta.











