COP30 em Belém sob fogo cruzado: ONGs denunciam “paradoxo” da Edelman e cobram “linha vermelha legal” de 1.5 C.
Sociedade civil critica o que chama de “conversa fiada” de países desenvolvidos, aponta contratação de RP ligada a combustíveis fósseis e exige cumprimento de decisões judiciais internacionais
A Cúpula do Clima COP30, sediada em Belém, iniciou em 12 de novembro sob um clima de intensa pressão e ceticismo por parte da sociedade civil. O boletim ECO, veículo tradicional publicado por ONGs (Grupos Ambientais Não Governamentais) durante as conferências climáticas, dispara duras críticas à organização do evento e à postura de diversos países. As acusações vão desde a hipocrisia nas negociações sobre Transição Justa até um grave conflito de interesses na contratação da empresa de comunicação do evento.
O mecanismo de Belém e a “enrolação”
Um dos principais focos de tensão é o Mecanismo de Ação de Belém (BAM), uma proposta da sociedade civil para uma Transição Justa global. O dia anterior foi considerado “BAMtástico” pelas ONGs, após 134 países pedirem oficialmente um Mecanismo Global para a Transição Justa, refletindo elementos centrais do BAM.
Contudo, a euforia durou pouco. O boletim ECO relata que vários países desenvolvidos estão “confusos”, apresentando discursos contraditórios. Embora afirmem que a transição justa é “tão importante” e que “precisamos acelerar a ação”, suas propostas são vistas como “decepcionantes”. Na prática, eles pedem apenas “uma caixa de ferramentas extra, um exercício de mapeamento e, claro – ainda mais diálogos”.
As ONGs classificam essa postura como “conversa fiada”. Desculpas como “o mecanismo duplicará o trabalho” ou “levará muito tempo” são rebatidas. “Mapear lacunas infinitamente… é apenas perda de tempo”. A cobrança é para que o restante das Partes “coloquem um mecanismo onde colocam suas bocas”.
1.5 C: Não é uma meta, é uma “linha vermelha legal”
O ECO traz um lembrete jurídico contundente. Decisões unânimes recentes da Corte Internacional de Justiça (ICJ) e da Corte Interamericana mudaram o jogo. Manter o aquecimento abaixo de 1.5 C “não é apenas um alvo, mas a linha de base” que deve ser incorporada em todas as negociações. É uma “linha vermelha legal”.
A publicação critica a dissonância entre essa obrigação e a realidade dos investimentos. “Não podemos falar sério sobre 1.5 C enquanto ainda investimos em petróleo, gás e carvão”. O boletim usa uma metáfora ácida: é “como dizer que você está de dieta enquanto segura um donut em ambas as mãos”.
Essa obrigação legal, segundo o ECO, deve guiar o financiamento e as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs). Os países desenvolvidos, que “não estão no caminho” certo, devem aumentar drasticamente o financiamento público para que possam “cumprir suas obrigações legais”. O recado é claro: “A verdade não é um ponto de discussão. É um veredito”.
O paradoxo da comunicação: Edelman na COP30
Em um movimento classificado como um “paradoxo de comunicação”, a organização da COP30 contratou a Edelman, uma das maiores firmas de Relações Públicas do mundo. O problema? A Edelman é descrita pelo ECO como uma “leal máquina de lavar” (washing-machine) para gigantes de combustíveis fósseis, como a Shell. Cerca de 5% da receita da empresa ainda vem desses clientes poluidores.
A ironia é profunda, pois a “integridade da informação” é, pela primeira vez, um tema oficial da COP30. A própria presidência brasileira pediu o “combate à desinformação” como pilar da ação climática. O boletim questiona: “Quem melhor para ‘moldar a narrativa’ sobre o fim dos combustíveis fósseis do que os especialistas que passaram décadas fazendo greenwashing deles?”.
A contratação coloca em jogo a “credibilidade” do processo. O ECO aponta que a UNFCCC “ainda carece de salvaguardas claras contra conflitos de interesse”. Sem o fim do patrocínio de poluidores e um “Quadro de Responsabilidade” (Accountability Framework), a cúpula climática arrisca ser “menos um chamado à ação e mais uma campanha de Relações Públicas bem lubrificada para o jamboree dos maiores poluidores do mundo”.
“Encha o fundo”: Onde estão as finanças para adaptação e perdas?
O financiamento continua sendo o ponto nevrálgico. O boletim usa a imagem de uma “Declaração de Bagagem Extraviada” para ilustrar o que falta entregar. O item perdido é “O PACOTE DE ADAPTAÇÃO AMBICIOSO”. Isso inclui triplicar o financiamento de adaptação para US$ 120 bilhões por ano e definir o Objetivo Global de Adaptação (GGA).
No front de Perdas e Danos (L&D), a situação é chamada de “esconde-esconde”, especialmente após os recentes tufões e furacões devastadores. Embora o presidente da COP30 tenha dito que o tema é “uma prioridade” ao lançar a fase inicial do Fundo (FRLD), o assunto não foi central nas “10 cartas” pré-COP.
O ECO lembra que, após a decisão da ICJ, “Reparações são devidas”. O fundo atual está “criticamente subfinanciado”, precisando de “centenas de bilhões, não milhões”. O apelo é para “Encher o Fundo” (Fill The Fund) com “financiamento público, baseado em doações”, e não com “desvios perigosos para finanças privadas e empréstimos”. As ONGs pedem ainda que o L&D se torne um “item permanente da agenda a partir da COP31”.
Liderança dos EUA: “Promessas vazias” em Belém?
Enquanto “as cadeiras vazias da delegação da administração Trump falam por si”, líderes subnacionais dos EUA, como os governadores Gavin Newsom (Califórnia) e Michelle Lujan Grisham (Novo México), estão em Belém.
O ECO, no entanto, adverte que “não se engana facilmente”. A crítica é que a “ação em casa deve corresponder à retórica no palco mundial”. Newsom é acusado de ter “revertido o curso em muitos de seus próprios compromissos climáticos”, “expandindo licenças de perfuração de petróleo” e explorando “resgates públicos para refinarias”. Lujan Grisham “continua a aprovar novos desenvolvimentos de petróleo e gás” na Bacia do Permiano, chamada de “maior bomba de carbono do mundo”.
O teste para eles, segundo o boletim, é apoiar o Mecanismo de Ação de Belém (BAM). A pergunta que fica é: “Eles usarão Belém para apoiar o BAM… ou apenas coletar fotos na Amazônia enquanto aprovam novos poços de petróleo em casa?”.












